Brasileira radicada nos Estados Unidos critica a busca por visibilidade por meio da sexualização, mas ressalta que sua posição não representa censura nem julgamento sobre o comportamento de outras mulheres
A
cantora brasileira Allana Bee, radicada nos Estados Unidos, acompanha com
preocupação o crescimento de letras, videoclipes e performances cada vez mais
explícitas na música brasileira. Para a artista, algumas produções transformam
a sexualização em estratégia para gerar polêmica, conquistar engajamento nas
redes sociais e ampliar a visibilidade.
Embora
reconheça a liberdade de expressão e o direito de cada artista construir a
própria imagem, Allana avalia que o conteúdo explícito pode colocar a música, o
talento e a identidade artística em segundo plano quando se torna o principal
elemento de uma produção.
“Em
determinados trabalhos, sinto que talvez nem fosse necessário recorrer a tanta
vulgaridade, seja nas letras ou nas performances. Isso realmente me preocupa e,
de certa forma, me entristece”, afirma.
A
cantora também chama a atenção para a imagem do Brasil projetada
internacionalmente. Na avaliação de Allana, a cultura brasileira possui uma
riqueza e uma diversidade muito maiores do que aquelas apresentadas por
produções excessivamente sexualizadas.
“O
Brasil é muito maior do que essa imagem. Somos um povo caloroso, trabalhador,
alegre e apaixonado por música, dança e futebol. Temos uma cultura riquíssima e
uma diversidade musical que sempre chamou a atenção do mundo”, declara.
Para
Allana, quando a vulgaridade passa a ocupar espaço excessivo na música e na
imagem dos artistas, existe o risco de esse conteúdo ser apresentado no
exterior como um retrato do povo brasileiro.
“Para
mim, isso não representa a essência nem a pluralidade do nosso povo. Não sou
contra a sensualidade. Existe uma diferença muito grande entre ser sensual e
transformar o conteúdo explícito no principal elemento de uma obra artística”,
explica.
Liberdade
artística e busca por repercussão
Allana
reconhece que, para alguns artistas, a linguagem explícita pode fazer parte de
uma escolha legítima e de sua identidade. Entretanto, acredita que também
existam casos nos quais a provocação é utilizada de forma calculada para chamar
atenção.
“Aquilo
que choca, provoca ou gera polêmica ganha espaço rapidamente nas plataformas
digitais. Isso cria uma espécie de competição. Parece que é preciso ser cada
vez mais explícito e ultrapassar mais limites para conseguir atenção”, analisa.
Segundo
a cantora, o limite começa a ser ultrapassado quando a música deixa de ser a
protagonista e a sexualização passa a ocupar o centro da apresentação. “Às
vezes, assisto a determinadas performances e me pergunto se aquilo realmente
acrescentou alguma coisa à música. Existe uma diferença enorme entre ser
sensual, provocante e artisticamente ousado e simplesmente recorrer ao
explícito”, observa.
A
facilidade de acesso de crianças e adolescentes a esses conteúdos também
preocupa a artista. “Hoje, praticamente toda criança tem acesso a um celular e
pode entrar em contato com esse tipo de material em poucos segundos. Isso
também exige uma reflexão sobre responsabilidade”, acrescenta.
Crítica não
significa censura
Allana
rejeita a interpretação de que sua posição represente uma tentativa de
controlar o corpo ou o comportamento feminino. Segundo ela, a crítica é
direcionada ao conteúdo produzido e às estratégias do mercado musical,
independentemente do gênero do artista. “Não estou julgando a moral de nenhuma
mulher, muito menos defendendo censura ou dizendo o que uma mulher pode ou não
fazer com o próprio corpo. Cada mulher é dona de si, assim como cada artista
tem liberdade para construir sua imagem e sua obra”, esclarece.
A
cantora afirma que adotaria a mesma posição diante de artistas homens que
recorressem a letras, gestos ou performances excessivamente explícitas apenas
para conquistar repercussão.
“Obras
artísticas podem e devem ser analisadas e debatidas. Também considero perigoso
transformar automaticamente qualquer crítica a uma obra feita por uma mulher em
uma tentativa de controlar seu comportamento”, pontua.
Influência sobre
novos artistas
Outro
aspecto levantado por Allana é a influência desse modelo sobre cantores e
compositores em início de carreira. Para ela, a popularidade de produções
sexualizadas pode levar novos talentos a abandonar suas características para
reproduzir fórmulas aparentemente bem-sucedidas.
“Quando
um artista iniciante observa que determinadas letras, coreografias e
performances alcançam milhões de visualizações, é natural que comece a enxergar
aquilo como uma fórmula para chegar ao sucesso”, afirma.
Na
avaliação da brasileira, a busca por viralização pode substituir o
desenvolvimento de uma identidade artística verdadeira. “Em vez de se
perguntarem ‘quem sou eu artisticamente?’, passam a perguntar ‘o que preciso
fazer para viralizar?’. Tendências passam, algoritmos mudam e fórmulas se
esgotam. Uma carreira consistente depende de identidade, verdade artística e
conexão com o público”, ressalta.
Um caminho
próprio na música
Como
resposta às pressões do mercado, Allana Bee decidiu escrever as próprias
canções. A iniciativa surgiu da dificuldade de encontrar letras que
correspondessem ao que desejava comunicar por meio de sua arte.
“Chegou
um momento em que eu recebia letras que não acrescentavam absolutamente nada
àquilo que queria transmitir como artista. Teria que entrar em um estúdio e
gravar palavras e mensagens que não faziam parte da minha identidade”, recorda.
Para a
cantora, é possível produzir uma música contemporânea, sensual e comercial sem
transformar a vulgaridade no principal recurso para conquistar audiência.
“Podemos cantar sobre amor, paixão, desejo e sedução de maneira envolvente e
sensual, sem precisar transformar tudo em conteúdo explícito. Acredito em
melodias fortes, refrões marcantes, produção atual, dança e performances que
transmitam energia”, declara.
Allana diz estar disposta a construir uma trajetória mais longa e desafiadora para preservar suas convicções. “Prefiro seguir um caminho que talvez seja mais difícil do que alcançar visibilidade cantando algo que não me representa. Quero ser contemporânea sem ser vulgar, sensual sem precisar ser explícita e comercial sem perder minha essência”, conclui.
O videoclipe de “Love on the Rise” está disponível no YouTube. Mais informações sobre a cantora podem ser encontradas em seu perfil oficial no Instagram.

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