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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Quantidade de óvulos congelados pode não refletir as reais chances de gravidez, aponta estudo

Pesquisa da empresa canadense Future Fertility mostra que considerar apenas a idade e a quantidade de óvulos coletados pode não fornecer um panorama completo das chances de uma futura gravidez

 

O congelamento de óvulos vem crescendo nos últimos anos, impulsionado pelo adiamento da maternidade e pelo maior acesso às técnicas de reprodução assistida. Nesse cenário, uma das principais dúvidas das pacientes continua sendo a mesma: quantos óvulos é preciso congelar para aumentar as chances de engravidar no futuro?

Uma pesquisa conduzida pela Future Fertility, empresa canadense especializada no desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial para reprodução assistida, em parceria com o Fertility Medical Group, de São Paulo, indica que essa resposta pode ser mais complexa do que se imaginava. Os resultados mostram que considerar apenas a idade da mulher e a quantidade de óvulos coletados pode não refletir o potencial reprodutivo individual de cada paciente.

Ao combinar a idade da paciente com a qualidade individual de cada óvulo, avaliada por inteligência artificial, os pesquisadores observaram que mulheres da mesma faixa etária e com o mesmo número de óvulos congelados podem apresentar perspectivas reprodutivas bastante diferentes. Isso significa que metas padronizadas para o congelamento de óvulos podem não representar a realidade biológica de todas as mulheres.

O estudo utilizou um modelo que integra idade materna, potencial de desenvolvimento dos óvulos e inteligência artificial para estimar quantos óvulos seriam necessários para aumentar as chances de gravidez futura. A análise mostrou que, na maior parte dos casos avaliados, o número de óvulos preservados estava abaixo do necessário para formar um conjunto de embriões geneticamente normais com maior potencial de implantação e gravidez. 

Um dos principais achados da pesquisa é que recomendações uniformes sobre quantos óvulos congelar podem ser biologicamente enganosas. "Durante muito tempo, o aconselhamento sobre congelamento de óvulos esteve baseado principalmente na idade da mulher e na quantidade de óvulos obtidos. Nosso estudo mostra que duas mulheres da mesma idade, com o mesmo número de óvulos congelados, podem ter perspectivas reprodutivas bastante diferentes. Ao incorporar informações sobre a qualidade individual de cada óvulo, conseguimos oferecer um aconselhamento muito mais personalizado e alinhado à realidade biológica de cada paciente, permitindo decisões mais conscientes sobre o planejamento da fertilidade", explica Dr. Edson Borges, Diretor Científico do Fertility Medical Group.

Segundo os pesquisadores, o objetivo não é estabelecer um número ideal de óvulos para todas as mulheres, mas oferecer uma avaliação individualizada que ajude médicos e pacientes a construir expectativas mais realistas sobre as chances futuras de gravidez.

Os resultados foram apresentados neste mês durante a conferência anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), em Londres, considerada o principal encontro científico mundial da área de reprodução assistida. A Future Fertility teve todos os 11 estudos submetidos aceitos para apresentação, alcançando uma taxa de aprovação de 100%. Três deles foram selecionados para apresentações orais, modalidade reservada aos trabalhos de maior destaque científico. Dois desses estudos foram desenvolvidos em parceria com o Fertility Medical Group, de São Paulo.

 

Inteligência artificial amplia a precisão das decisões clínicas

Além do estudo sobre preservação da fertilidade, a Future Fertility apresentou pesquisas mostrando como a inteligência artificial pode contribuir para uma medicina reprodutiva cada vez mais personalizada. Uma delas investigou a influência da idade paterna nos resultados da fertilização in vitro. Óvulos classificados com melhor qualidade apresentaram maior capacidade de compensar alterações relacionadas ao envelhecimento masculino, contribuindo para previsões mais precisas das taxas de fertilização, formação de embriões e potencial de gravidez.

"A reprodução humana depende da interação entre fatores femininos e masculinos. A IA está permitindo compreender essas interações com um nível de detalhe que antes não era possível, oferecendo aos médicos novas informações para apoiar o prognóstico e a tomada de decisão. O objetivo não é substituir a experiência clínica, mas acrescentar evidências objetivas para uma medicina cada vez mais personalizada", analisa Borges.

Outro destaque foi um sistema baseado em IA desenvolvido para otimizar programas de doação de óvulos. A pesquisa demonstrou que a tecnologia reduziu significativamente a formação de lotes com baixo potencial de desenvolvimento embrionário, aumentando a padronização e a eficiência desses programas. O trabalho foi apresentado pela pesquisadora brasileira Laís Vanzella, integrante da equipe científica da Future Fertility.

A empresa também apresentou pesquisas que associaram fatores cotidianos, como consumo de álcool, tabagismo, qualidade do sono, atividade física e ansiedade, à qualidade dos óvulos avaliada por inteligência artificial. São informações que poderão contribuir para um aconselhamento mais personalizado antes do início dos tratamentos de fertilidade, orientando mudanças de hábitos capazes de favorecer resultados.

"O que estamos vendo é uma mudança de paradigma. A inteligência artificial permite enxergar diferenças biológicas que antes passavam despercebidas e transforma informações que antes eram generalistas em um aconselhamento verdadeiramente individualizado. Esse é um passo importante para tornar os tratamentos de fertilidade mais precisos, transparentes e centrados nas necessidades de cada paciente", conclui o médico.


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