Os carros elétricos chegaram para ficar. Mais silenciosos, tecnológicos e sustentáveis, eles conquistam cada vez mais espaço nas ruas. Mas, junto com essa nova forma de dirigir, um relato tem chamado a atenção de motoristas e passageiros: algumas pessoas dizem sentir mais enjoo, tontura ou mal-estar durante os trajetos.
Seria apenas impressão?
Segundo o
Dr. Saulo Nader, conhecido nacionalmente como Doutor Tontura @doutortontura,
existe uma explicação neurológica que ajuda a entender esse fenômeno.
“Não significa que o carro elétrico provoque uma doença. O que acontece é que
algumas características da condução podem aumentar o desconforto em pessoas que
já apresentam maior sensibilidade ao movimento”, explica o neurologista.
Ao contrário
dos veículos movidos a combustão, os carros elétricos entregam praticamente
todo o torque de forma imediata. Na prática, isso significa acelerações muito
rápidas e respostas quase instantâneas ao toque no acelerador.
Outro
detalhe importante é a chamada frenagem regenerativa. Quando o motorista tira o
pé do acelerador, muitos modelos reduzem a velocidade automaticamente para
recuperar energia e recarregar parte da bateria. Esse processo faz com que o
veículo desacelere de maneira diferente daquela a que a maioria das pessoas
está acostumada.
“O cérebro
trabalha o tempo todo comparando informações que chegam dos olhos, dos
labirintos e dos músculos. Quando esses sinais não são interpretados da forma
esperada, algumas pessoas podem apresentar sintomas como enjoo, tontura, suor
frio e mal-estar”, ressalta Dr. Saulo.
De acordo
com o médico, esse mecanismo é conhecido como cinetose, também chamada de
doença do movimento. Ela acontece quando existe um conflito entre aquilo que os
olhos enxergam e aquilo que o sistema vestibular (responsável pelo equilíbrio)
percebe durante o deslocamento.
Sem o ruído
tradicional do motor, o cérebro perde uma referência importante para antecipar
acelerações e desacelerações.
“O som também faz parte da forma como interpretamos o movimento. Nos carros
convencionais, o aumento do barulho do motor prepara o cérebro para acelerar ou
reduzir a velocidade. Nos elétricos, essa pista praticamente desaparece”, diz
Nader.
Para o
neurologista, quem costuma enjoar em viagens, sofre de enxaqueca vestibular ou
já apresenta maior sensibilidade ao movimento pode perceber essas diferenças
com mais facilidade.
“O carro
elétrico não causa labirintite nem cria um problema neurológico. Se a pessoa
sente tontura apenas durante a viagem, geralmente estamos falando de uma maior
sensibilidade ao movimento. Já quando a tontura aparece também no dia a dia, é
importante investigar outras causas. Vale sempre buscar ajuda médica
especializada, pois existem medicamentos e fisioterapia especial para o
tratamento definitivo da cinetose”, alerta o Doutor Tontura.
Curiosamente,
quem dirige quase sempre passa menos mal do que quem está no banco do
passageiro. Isso acontece porque o motorista antecipa cada aceleração, curva e
frenagem. O passageiro, por outro lado, recebe essas mudanças de forma
inesperada.
“O cérebro
gosta de previsibilidade. Quando conseguimos antecipar um movimento, ele
responde melhor. Quando somos surpreendidos o tempo todo, a chance de
desconforto aumenta”, enfatiza Dr. Saulo.
Dicas do neurologista para reduzir o
enjoo durante o trajeto:
- Prefira sentar no banco da frente;
- Evite olhar para o celular durante a viagem;
- Mantenha o olhar voltado para a estrada ou para o
horizonte;
- Sempre que possível, opte por uma condução mais suave.
Segundo o
Dr. Saulo, a popularização dos carros elétricos fará esse tema aparecer cada vez
mais nos consultórios. Compreender como o cérebro interpreta o movimento é
fundamental para diferenciar uma sensibilidade ao deslocamento de doenças que
realmente exigem investigação.
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