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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Páscoa pode intensificar episódios de compulsão alimentar e acende alerta para saúde emocional, aponta psicóloga

Período marcado por consumo elevado de chocolate e encontros em torno da comida pode desencadear ansiedade, culpa e perda de controle em pessoas com relação emocional fragilizada com o alimento 


Com a chegada da Páscoa, tradicionalmente associada à abundância e ao consumo de chocolate, cresce também a atenção de especialistas para os impactos emocionais desse período. Embora para muitos a data esteja ligada ao prazer e à celebração, para outros pode representar um gatilho para ansiedade, culpa, compulsão alimentar e sensação de perda de controle. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os transtornos alimentares estão entre as condições de saúde mental que mais crescem no mundo, afetando milhões de pessoas e frequentemente associados a quadros de ansiedade, depressão e estresse. No Brasil, dados da Associação Brasileira de Psiquiatria mostram aumento na incidência de transtornos alimentares e comportamentos compulsivos, especialmente em contextos de maior pressão emocional e social. 

Um levantamento publicado na revista científica Journal of Eating Disorders aponta que episódios de compulsão alimentar estão fortemente relacionados à dificuldade de regulação emocional, sendo a comida utilizada como mecanismo de enfrentamento para lidar com sentimentos negativos. Já a Harvard Medical School destaca que fatores emocionais estão entre os principais gatilhos para padrões alimentares disfuncionais, reforçando a conexão entre saúde mental e comportamento alimentar. 

Segundo a psicóloga Dra. Andrea Beltran, o aumento do consumo de doces durante a Páscoa pode funcionar como um amplificador de questões emocionais já existentes. “Para muitas pessoas, o chocolate e os encontros em torno da comida não representam apenas prazer, mas também ansiedade, culpa, vazio e perda de controle. Esse período pode intensificar uma relação já fragilizada com o alimento”, afirma. 

Na perspectiva da psicologia junguiana, desenvolvida por Carl Gustav Jung, a forma como o indivíduo se relaciona com a comida pode revelar aspectos profundos da vida psíquica. “Quando comer deixa de ser uma escolha consciente e passa a funcionar como uma tentativa de aliviar dores internas, estamos diante de um sinal importante. A compulsão alimentar, muitas vezes, não está ligada apenas à fome do corpo, mas a uma fome emocional e simbólica”, explica a especialista. 

Esse comportamento pode estar associado a uma série de fatores emocionais. “Por trás da compulsão podem existir sentimentos não reconhecidos, frustrações acumuladas, solidão, carência afetiva, estresse e até uma dificuldade de entrar em contato com aquilo que realmente falta. Em vez de nomear a dor, a pessoa tenta silenciá-la com o excesso”, diz a Dra. 

A especialista reforça que, do ponto de vista psicológico, sintomas como a compulsão não surgem de forma aleatória. “Aquilo que foi reprimido, negado ou vivido de forma automática pode encontrar uma saída no corpo e nos impulsos. Muitas vezes, a compulsão aparece como uma tentativa inconsciente de suportar emoções difíceis ou de buscar um conforto imediato diante de conflitos que ainda não foram elaborados”, afirma. 

Além dos impactos emocionais, a compulsão alimentar também pode trazer consequências físicas e agravar quadros de saúde. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, comportamentos alimentares desregulados estão associados a riscos aumentados de obesidade, doenças metabólicas e piora da saúde mental, criando um ciclo difícil de interromper sem acompanhamento adequado. 

Diante desse cenário, o papel da terapia ganha destaque. “O processo terapêutico ajuda a dar sentido a esse sofrimento. Em vez de olhar apenas para o comportamento alimentar, buscamos compreender a história emocional da pessoa, seus gatilhos, padrões, dores e faltas. Ao longo desse caminho, ela pode aprender a reconhecer o que sente, diferenciar fome física de fome emocional e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com o próprio sofrimento”, explica. 

Para Dra. Andrea, a Páscoa também pode ser ressignificada como um momento de reflexão e cuidado emocional. “Talvez seja uma oportunidade de viver esse período com mais consciência, menos culpa e mais escuta interna. Quando a pessoa entende que a compulsão não define quem ela é, mas sinaliza algo que precisa ser cuidado, abre-se a possibilidade de transformação”, conclui.

Dra Andrea Beltran - psicóloga analítica junguiana, formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Atua no acompanhamento de processos individuais com foco em autoconhecimento, vínculo e desenvolvimento emocional. Seu trabalho valoriza narrativas pessoais e vínculos profundos, buscando acolhimento genuíno em cada jornada.



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