Apesar de avanços na legislação,
professor do UniCuritiba defende mudança de paradigma para reconhecer animais
como sujeitos de direitos e alerta para falhas na aplicação das normas
Mês de conscientização sobre a prevenção da crueldade contra os
animais, o Abril Laranja reacende um debate cada vez mais urgente no país:
afinal, os animais ainda podem ser tratados como “coisas” perante a lei? Para o
professor de Direito do UniCuritiba, Claudio de Fraga, a resposta caminha para
uma mudança ainda lenta, mas necessária.
Segundo o especialista, embora a legislação brasileira tenha
avançado nos últimos anos, especialmente com a ampliação de punições para
maus-tratos, o país ainda mantém, em muitos contextos jurídicos, uma visão
ultrapassada dos animais como bens. “Não há mais a possibilidade do animal ser
visto como algo que está à nossa disposição, como um ‘objeto’”, afirma.
Ele defende que o reconhecimento dos animais como sujeitos de
direitos é um passo essencial para consolidar avanços já em curso. “É
necessário alterar essa visão e considerar o animal como detentor de direitos,
especialmente do direito fundamental à existência digna”, complementa.
Essa mudança de paradigma, segundo o professor, teria impactos
amplos não apenas para os animais, mas para toda a sociedade. Ele destaca que
há expectativa em torno de possíveis alterações no Código Civil, que podem
passar a reconhecer os animais como seres sencientes — capazes de sentir dor e
emoções —, o que representaria um avanço no ordenamento jurídico brasileiro.
Leis existem, mas aplicação ainda é desafio
Casos recentes de violência, como o assassinato do cão comunitário
Orelha, em Santa Catarina, reforçam a sensação de que ainda há um descompasso
entre a legislação e a realidade. Para Claudio de Fraga, o Brasil já dispõe de
dispositivos legais importantes, como a Lei de Crimes Ambientais (Lei nº
9.605/1998) e o princípio constitucional da não crueldade contra os animais,
mas a efetividade dessas normas ainda depende de maior conscientização e rigor
na aplicação. “A impunidade pode gerar a percepção de que a legislação não é
efetiva”, explica.
Ele também aponta lacunas nas atualizações recentes da legislação.
Apesar do aumento das penalidades para maus-tratos, as mudanças se concentraram
principalmente em cães e gatos, deixando outras espécies em segundo plano.
Violência invisível também é crime
O Abril Laranja chama atenção não apenas para agressões físicas,
mas também para formas mais sutis de violência, como negligência e maus-tratos
psicológicos. Situações como manter um animal preso por longos períodos, sem
água ou alimentação adequada, também configuram crime no Brasil.
“O conceito de guarda responsável envolve atender às necessidades
físicas e psicológicas do animal. A violência não se limita ao dano físico”,
ressalta o professor. Ele ainda destaca a chamada “teoria do elo”, que
relaciona a violência contra animais a outros tipos de abuso, como violência
doméstica e maus-tratos infantis.
Educação e fiscalização como caminhos
Para fortalecer a proteção animal no país, Claudio de Fraga
defende uma atuação mais ampla, que envolva poder público e sociedade. Entre as
medidas, ele cita o endurecimento das penas, maior fiscalização, campanhas
educativas e a inclusão do tema nos currículos escolares. “A conscientização é
fundamental para que a população reconheça os animais como sujeitos de
direitos”, conclui.
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