Especialistas destacam benefícios da tecnologia, mas alertam para riscos no raciocínio, autonomia e formação das novas gerações
O uso cada vez mais presente da inteligência
artificial no cotidiano já chegou às salas de aula e vem transformando a forma
como crianças e jovens aprendem, pesquisam e produzem conhecimento. No Dia da
Educação, celebrado em 28 de abril, o tema ganha ainda mais relevância diante
de uma geração hiperconectada desde os primeiros
anos de vida.
Dados recentes reforçam esse cenário: pesquisa da
Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, mostra que
78% das crianças de 0 a 3 anos têm contato diário com telas, índice que sobe
para 94% entre aquelas de 4 a 6 anos.
Se, por um lado, as novas tecnologias ampliam o
acesso à informação e podem apoiar o processo educativo, por outro, levantam
preocupações sobre o desenvolvimento cognitivo e a construção autônoma do
conhecimento.
Para a professora Cynthia Pichini, do curso de
Letras da Universidade São Judas, o uso da inteligência artificial exige
mediação pedagógica. “A tecnologia amplia o acesso à informação, mas não
garante aprendizagem. Sem participação ativa, o conhecimento não se consolida e
habilidades como pensamento crítico e autonomia ficam comprometidas”,
afirma.
Um dos principais desafios, segundo a docente, é o
uso dessas ferramentas como substitutas do processo de aprendizagem. “Quando o
aluno delega à tecnologia a construção das respostas, deixa de exercitar o
cérebro. O aprendizado acontece na elaboração, no erro e na revisão. Sem esse
percurso, há prejuízo no desenvolvimento intelectual”, explica.
Impactos vão além da sala de
aula
As mudanças não se restringem ao ambiente escolar e
já refletem no comportamento e na saúde das crianças. O pediatra e professor de
medicina da São Judas, cujo curso de medicina faz parte
da Inspirali, ecossistema que atua na gestão de 15 escolas médicas
em diversas regiões do Brasil, Rui de Paiva destaca que a exposição digital
precoce intensifica os efeitos do uso inadequado dessas ferramentas.
“A Sociedade Brasileira de Pediatria não recomenda
telas para crianças de até dois anos e orienta limites rigorosos nas demais
faixas etárias. Ainda assim, é comum que muitas passem duas horas ou mais por
dia diante de dispositivos”, alerta.
Segundo o especialista, essa exposição contínua
influencia diretamente a forma de aprender. “Observamos maior dificuldade de
concentração e uma tendência à busca por respostas imediatas, o que compromete
prejudica processos que exigem tempo, esforço e construção gradual do
conhecimento”, diz.
O uso da tecnologia como atalho em atividades
escolares também preocupa. “Se a criança não precisa pensar para responder, a
reflexão deixa de ser necessária deixa de aprender. Isso pode resultar resulta
em dificuldades de concentração, interpretação e raciocínio, comprometendo, no
mínimo, o desempenho escolar”, completa.
Diante desse cenário, tanto a professora Cynthia
como Paiva ressaltam a necessidade de uma atuação coordenada entre escola e
famílias, com definição de limites e uso orientado das tecnologias digitais. O
objetivo é garantir que essas ferramentas contribuam para a aprendizagem, sem
substituir etapas fundamentais do desenvolvimento intelectual.
No Dia da Educação, o debate sobre inteligência
artificial expõe um dilema que já não pode ser adiado: como incorporar inovação
sem empobrecer o processo de aprendizagem. O equilíbrio entre tecnologia e
desenvolvimento humano será decisivo para formar uma geração capaz de pensar, e
não apenas de reproduzir respostas.
Inspirali

Nenhum comentário:
Postar um comentário