Jornalista que virou médica, enfermeira que decidiu prestar vestibular novamente e especialista que trocou de área mostram como propósito e qualidade de vida impulsionam transições na saúde
Juliana já tinha uma carreira consolidada
quando decidiu trocar a redação pelo jaleco. Jelsi tinha estabilidade, rotina e
reconhecimento profissional quando resolveu prestar vestibular outra vez. Luiz
Portari já era médico, com anos de experiência em consultório e sala de parto,
quando optou por redesenhar completamente sua atuação. Três trajetórias
distintas, unidas por uma mesma escolha: recomeçar.
A médica e jornalista Juliana Karpinski nunca
sonhou em ser médica quando criança. Desde a adolescência, queria ser
jornalista e assim construiu sua carreira. Formou-se em Comunicação Social pela
Universidade Federal do Paraná, trabalhou na Gazeta do Povo e integrou a equipe
do Estadão, em São Paulo. A medicina surgiu mais tarde, não como impulso, mas
como possibilidade.
“Não foi um ponto de virada. Foi um processo
longo de amadurecimento”, conta. A vontade de aprofundar os estudos, buscar
novos desafios e voltar para Curitiba abriu espaço para uma decisão que mudaria
completamente sua rotina mas não sua essência profissional.
Juliana voltou a estudar, trabalhou durante
toda a graduação, atravessou a pandemia no meio do curso e se formou em
medicina em 2025. Hoje, atua como médica e Editora Médica do Afya Whitebook.
“Eu não comecei do zero. Ampliei minha formação. Continuo ouvindo histórias,
traduzindo informações complexas e me conectando com pessoas. A diferença é que
agora também cuido delas.”
A decisão, no entanto, não foi imediatamente
compreendida. “Ouvi que era loucura, que não era para mim.” Com o tempo, as
críticas deram lugar ao apoio e até inspiraram outras pessoas a também buscarem
uma segunda graduação.
Quando sair da
zona de conforto vira necessidade
A inquietação também fez parte da trajetória
de Jelsiana Curtarelli. Formada em Enfermagem, com carreira estruturada, ela
decidiu cursar medicina para ampliar sua autonomia profissional. “Não é sobre o
que faltava, mas sobre o que ainda preciso experienciar”, resume.
O maior receio foi abrir mão da zona de
conforto. “Tenho uma carreira sólida. Meu medo era não dar conta da rotina
extensa.” Prestar vestibular novamente trouxe ansiedade, mas também mais
tranquilidade do que na primeira formação. A maturidade ajudou a lidar melhor
com o processo.
Conciliar vida profissional e acadêmica segue
sendo desafiador e, em alguns momentos, gerou dúvidas. “Quando o cansaço vem, a
gente se questiona. Mas sei onde quero chegar e a excelência que quero
alcançar.” Hoje, Jelsiana, que cursa o terceiro período de Medicina na Afya
Itacoatiara, no interior do Amazonas, afirma estar feliz com a decisão e com as
oportunidades de crescimento que a medicina tem proporcionado.
Embora cada história seja única, elas
dialogam com um movimento mais amplo. Um estudo da Catho, divulgado em 2025,
mostrou que 42% dos profissionais brasileiros manifestam intenção de mudar de
carreira. Entre pessoas de 26 a 35 anos, esse percentual chega a 46%, indicando
que a revisão de escolhas profissionais tem se tornado cada vez mais comum ao
longo da vida.
Reinventar-se
também depois do diploma
A transição, porém, não acontece apenas antes
da formação médica. Para o endocrinologista Luiz Portari, a mudança veio anos
depois do diploma. Com carreira consolidada na ginecologia e obstetrícia, ele
buscava uma forma diferente de exercer a medicina, longe da rotina intensa de
plantões e procedimentos hospitalares.
A solução foi investir em uma pós-graduação
em Endocrinologia. “A possibilidade de atuar em uma área com consultas
ambulatoriais, de grande demanda, representou uma mudança importante de estilo
de vida”, afirma.
Levantamento do Research & Innovation
Center da Afya mostra que 48,1% dos médicos que já possuem uma especialização e
buscam nova formação optariam por uma pós-graduação médica, principalmente pela
flexibilidade de conciliar estudo e prática clínica. No caso de Portari, a
escolha permitiu ampliar o escopo de atendimento e reorganizar sua atuação
profissional. “Consegui expandir meu conhecimento e oferecer novos serviços aos
pacientes.”
Planejamento é o
primeiro passo
Para Jonatas Tourinho, coordenador do curso
de Psicologia da Afya Salvador, processos de transição de carreira apresentam
como elemento estruturante o planejamento estratégico. A decisão de migrar para
a Medicina requer uma análise multidimensional que envolva aspectos emocionais,
financeiros e logísticos, considerando seus impactos na organização da rotina,
na estabilidade econômica e nas dinâmicas relacionais.
Sob uma perspectiva do desenvolvimento de
carreira, a mudança não deve ser interpretada como um recomeço romantizado, mas
como um processo complexo de reorganização identitária e ocupacional. Torna-se
fundamental avaliar o momento do ciclo de vida, a sustentabilidade do projeto
formativo e a rede de apoio disponível, além de buscar interlocução com
profissionais que já realizaram transições semelhantes, favorecendo uma tomada
de decisão mais consciente e baseada em experiências concretas.
Outro aspecto central refere-se ao
reconhecimento da trajetória prévia. Não se trata de iniciar do zero, mas de
ressignificar o capital humano e psicossocial acumulado ao longo da carreira.
Competências técnicas, habilidades socioemocionais e repertórios
comportamentais desenvolvidos anteriormente podem constituir diferenciais
relevantes na formação e na prática médica, contribuindo para uma atuação mais
integrada, ética e sensível às dimensões humanas do cuidado.
As histórias de Juliana, Jelsiana e Luiz
mostram que a carreira deixou de ser uma linha reta. Na medicina, como em
outras áreas, recomeçar não significa abandonar o passado, mas integrá-lo a um
novo projeto profissional mais alinhado ao propósito, às prioridades e ao
momento de vida.
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