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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Profissionais trocam estabilidade por novo propósito e impulsionam transições na medicina

 


Jornalista que virou médica, enfermeira que decidiu prestar vestibular novamente e especialista que trocou de área mostram como propósito e qualidade de vida impulsionam transições na saúde

 

Juliana já tinha uma carreira consolidada quando decidiu trocar a redação pelo jaleco. Jelsi tinha estabilidade, rotina e reconhecimento profissional quando resolveu prestar vestibular outra vez. Luiz Portari já era médico, com anos de experiência em consultório e sala de parto, quando optou por redesenhar completamente sua atuação. Três trajetórias distintas, unidas por uma mesma escolha: recomeçar.

 

A médica e jornalista Juliana Karpinski nunca sonhou em ser médica quando criança. Desde a adolescência, queria ser jornalista e assim construiu sua carreira. Formou-se em Comunicação Social pela Universidade Federal do Paraná, trabalhou na Gazeta do Povo e integrou a equipe do Estadão, em São Paulo. A medicina surgiu mais tarde, não como impulso, mas como possibilidade.

 

“Não foi um ponto de virada. Foi um processo longo de amadurecimento”, conta. A vontade de aprofundar os estudos, buscar novos desafios e voltar para Curitiba abriu espaço para uma decisão que mudaria completamente sua rotina mas não sua essência profissional.

 

Juliana voltou a estudar, trabalhou durante toda a graduação, atravessou a pandemia no meio do curso e se formou em medicina em 2025. Hoje, atua como médica e Editora Médica do Afya Whitebook. “Eu não comecei do zero. Ampliei minha formação. Continuo ouvindo histórias, traduzindo informações complexas e me conectando com pessoas. A diferença é que agora também cuido delas.”

 

A decisão, no entanto, não foi imediatamente compreendida. “Ouvi que era loucura, que não era para mim.” Com o tempo, as críticas deram lugar ao apoio e até inspiraram outras pessoas a também buscarem uma segunda graduação.


 

Quando sair da zona de conforto vira necessidade

A inquietação também fez parte da trajetória de Jelsiana Curtarelli. Formada em Enfermagem, com carreira estruturada, ela decidiu cursar medicina para ampliar sua autonomia profissional. “Não é sobre o que faltava, mas sobre o que ainda preciso experienciar”, resume.

 

O maior receio foi abrir mão da zona de conforto. “Tenho uma carreira sólida. Meu medo era não dar conta da rotina extensa.” Prestar vestibular novamente trouxe ansiedade, mas também mais tranquilidade do que na primeira formação. A maturidade ajudou a lidar melhor com o processo.

 

Conciliar vida profissional e acadêmica segue sendo desafiador e, em alguns momentos, gerou dúvidas. “Quando o cansaço vem, a gente se questiona. Mas sei onde quero chegar e a excelência que quero alcançar.” Hoje, Jelsiana, que cursa o terceiro período de Medicina na Afya Itacoatiara, no interior do Amazonas, afirma estar feliz com a decisão e com as oportunidades de crescimento que a medicina tem proporcionado.

 

Embora cada história seja única, elas dialogam com um movimento mais amplo. Um estudo da Catho, divulgado em 2025, mostrou que 42% dos profissionais brasileiros manifestam intenção de mudar de carreira. Entre pessoas de 26 a 35 anos, esse percentual chega a 46%, indicando que a revisão de escolhas profissionais tem se tornado cada vez mais comum ao longo da vida.


 

Reinventar-se também depois do diploma

A transição, porém, não acontece apenas antes da formação médica. Para o endocrinologista Luiz Portari, a mudança veio anos depois do diploma. Com carreira consolidada na ginecologia e obstetrícia, ele buscava uma forma diferente de exercer a medicina, longe da rotina intensa de plantões e procedimentos hospitalares.

 

A solução foi investir em uma pós-graduação em Endocrinologia. “A possibilidade de atuar em uma área com consultas ambulatoriais, de grande demanda, representou uma mudança importante de estilo de vida”, afirma.

 

Levantamento do Research & Innovation Center da Afya mostra que 48,1% dos médicos que já possuem uma especialização e buscam nova formação optariam por uma pós-graduação médica, principalmente pela flexibilidade de conciliar estudo e prática clínica. No caso de Portari, a escolha permitiu ampliar o escopo de atendimento e reorganizar sua atuação profissional. “Consegui expandir meu conhecimento e oferecer novos serviços aos pacientes.”


 

Planejamento é o primeiro passo

Para Jonatas Tourinho, coordenador do curso de Psicologia da Afya Salvador, processos de transição de carreira apresentam como elemento estruturante o planejamento estratégico. A decisão de migrar para a Medicina requer uma análise multidimensional que envolva aspectos emocionais, financeiros e logísticos, considerando seus impactos na organização da rotina, na estabilidade econômica e nas dinâmicas relacionais.

 

Sob uma perspectiva do desenvolvimento de carreira, a mudança não deve ser interpretada como um recomeço romantizado, mas como um processo complexo de reorganização identitária e ocupacional. Torna-se fundamental avaliar o momento do ciclo de vida, a sustentabilidade do projeto formativo e a rede de apoio disponível, além de buscar interlocução com profissionais que já realizaram transições semelhantes, favorecendo uma tomada de decisão mais consciente e baseada em experiências concretas.

 

Outro aspecto central refere-se ao reconhecimento da trajetória prévia. Não se trata de iniciar do zero, mas de ressignificar o capital humano e psicossocial acumulado ao longo da carreira. Competências técnicas, habilidades socioemocionais e repertórios comportamentais desenvolvidos anteriormente podem constituir diferenciais relevantes na formação e na prática médica, contribuindo para uma atuação mais integrada, ética e sensível às dimensões humanas do cuidado.

 

As histórias de Juliana, Jelsiana e Luiz mostram que a carreira deixou de ser uma linha reta. Na medicina, como em outras áreas, recomeçar não significa abandonar o passado, mas integrá-lo a um novo projeto profissional mais alinhado ao propósito, às prioridades e ao momento de vida.

 

Afya
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