Uso
inadequado de medicamentos análogos de GLP-1 para emagrecimento pode causar
falta total de apetite, perda muscular e outros riscos à saúde
Um novo termo começou a ganhar espaço nas redes sociais e nos consultórios
médicos em 2026: agonorexia. Embora ainda não faça parte da literatura
científica, a expressão já acende alerta entre especialistas.
O conceito descreve uma
supressão excessiva do apetite associada ao uso de medicamentos para
emagrecimento, os chamados análogos de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.
Esses remédios são eficazes e têm benefícios comprovados, mas o uso inadequado
pode trazer efeitos indesejados.
“A redução do apetite é
esperada durante o tratamento, mas a ausência completa de fome não é um
objetivo terapêutico e deve ser vista como um sinal de alerta”, explica Ramon
Marcelino, endocrinologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
da USP (HC-FMUSP) e especialista em medicina do estilo de vida e obesidade.
Na prática, a agonorexia
descreve um cenário em que o paciente deixa de sentir fome, perde o interesse
por alimentos e passa a comer muito menos do que o necessário. “A fome é um
mecanismo fisiológico essencial. O tratamento deve ajudar a regular esse
processo, e não eliminá-lo completamente”, reforça o especialista.
Quando o corpo passa a
receber menos nutrientes do que precisa, os impactos vão além da perda de peso.
Entre os principais riscos estão:
1. Perda de massa muscular (sarcopenia): A
restrição calórica exagerada pode levar à perda de músculo, e não apenas de
gordura, comprometendo a saúde no longo prazo.
2. Redução da força (dinamopenia): Com
menos massa muscular, há também perda de força, impactando a funcionalidade e a
qualidade de vida.
3. Deficiências nutricionais: A ingestão
insuficiente pode causar falta de vitaminas e minerais essenciais ao organismo.
4. Queda de cabelo: Comum em casos de
emagrecimento rápido e alimentação inadequada, especialmente com baixa ingestão
de nutrientes.
5. Relação não saudável com a comida:
Pode surgir um comportamento mais rígido ou evitativo em relação à alimentação.
6. Fadiga excessiva: A baixa ingestão de energia
pode causar cansaço persistente e prejudicar atividades do dia a dia.
O aumento desse fenômeno
está ligado à popularização das “canetas”, ao uso sem acompanhamento médico e à
busca por resultados rápidos. Além disso, medicamentos mais recentes têm efeito
mais potente, o que exige ainda mais cuidado. “Muitos pacientes acreditam que
quanto menos fome sentirem, melhor será o resultado. Mas, esse pensamento
aumenta os riscos do tratamento de forma desnecessária”, alerta Ramon
Marcelino.
Para evitar riscos,
especialistas recomendam usar a menor dose eficaz, evitar ajustes por conta
própria e manter acompanhamento médico regular. Garantir uma alimentação
equilibrada, mesmo com menos apetite, também é essencial, assim como observar
sinais de alerta ao longo do tratamento.
“É fundamental olhar além da
balança. Avaliar composição corporal, ingestão nutricional e sintomas faz toda
a diferença para um emagrecimento saudável”, orienta o endocrinologista.
Os
análogos de GLP-1 representam um avanço importante no tratamento da obesidade e
do diabetes, mas exigem uso responsável. “O objetivo não é eliminar a fome, mas
restabelecer uma relação mais saudável com a alimentação e com o próprio
corpo”, conclui o especialista.
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