Em meio ao crescimento do debate público
sobre saúde mental e neurodiversidade, uma frase tem ganhado cada vez mais
força entre especialistas e ativistas: “o autismo não tem cara”. A
expressão resume um problema recorrente enfrentado por pessoas com Transtorno
do Espectro Autista (TEA) — o julgamento social baseado em estereótipos e
desinformação.
Para o ativista social Heitor Werneck,
que é autista nível 2 e também atua na
defesa de direitos de pessoas neurodivergentes, o aumento da visibilidade do
tema nas redes sociais trouxe avanços importantes, mas também abriu espaço para
novas formas de preconceito.
Segundo ele, muitas pessoas ainda acreditam
que o autismo precisa necessariamente apresentar características físicas ou
comportamentos estereotipados para ser reconhecido.
“O autismo não tem rosto, não tem uma
aparência específica. É um espectro neurológico. Quando as pessoas dizem ‘você
não parece autista’, estão reproduzindo um tipo de preconceito que invisibiliza
milhares de pessoas”, afirma Heitor Werneck.
Julgamentos e acusações de fraude
Um dos problemas que mais preocupa ativistas
e profissionais da área é a crescente suspeita social direcionada a pessoas
diagnosticadas no espectro. Em diversos ambientes — do trabalho às redes
sociais — indivíduos autistas relatam ser questionados sobre a veracidade de
seus diagnósticos.
De acordo com Werneck, esse tipo de atitude
pode gerar constrangimento e até afastar pessoas do acesso a direitos
garantidos por lei.
“Temos visto uma onda de pessoas dizendo que
autistas estão ‘forjando laudos’ ou mentindo sobre sua condição. Isso é
extremamente grave. Ninguém passa por avaliação clínica, acompanhamento médico
e processos diagnósticos complexos para inventar uma condição”, critica.
Para ele, esse tipo de desconfiança revela um
fenômeno conhecido como psicofobia, termo usado para definir o preconceito
contra pessoas com transtornos mentais ou condições neurológicas.
“Questionar a legitimidade do diagnóstico de
alguém sem qualquer conhecimento técnico é uma forma clara de psicofobia”, diz.
O outro extremo: diagnósticos
improvisados
Se por um lado há quem duvide da existência
do autismo em pessoas sem características visíveis, por outro também cresce o
número de indivíduos que tentam diagnosticar outras pessoas sem qualquer
formação médica ou psicológica.
Situações desse tipo são comuns em ambientes
de convivência, redes sociais e até no trabalho, onde comentários como “você é
muito inteligente para ser autista” ou “você deve ser autista porque é
estranho” acabam reforçando estigmas.
Para Werneck, esse comportamento revela outro
tipo de problema: o capacitismo, que consiste em julgar ou limitar
pessoas com deficiência a partir de padrões considerados “normais”.
“Tem gente que diz que alguém não pode ser
autista porque é muito articulado ou muito esperto. Isso também é capacitismo.
O espectro autista é amplo e diverso. Há pessoas com diferentes níveis de
autonomia, habilidades e formas de comunicação. Eu, por exemplo, além de ser
autista, tenho Síndrome de Savant, o que me dá mais habilidades intelectuais
para desenvolver o meu trabalho como produtor cultural. Porém, mesmo assim,
tenho que mascarar minhas crises que me levam muitas vezes ao nível 3 de
suporte e superar o desafio de lidar com muito barulho e as interações sociais,
porque preciso sobreviver”, explica o ativista que teve seu diagnóstico na fase
adulta .
O espectro e a diversidade
Especialistas em saúde mental reforçam que o Transtorno
do Espectro Autista é caracterizado principalmente por diferenças na
comunicação social, nos padrões de comportamento e na forma de processar
estímulos sensoriais.
Essas características podem se manifestar de
maneiras muito diferentes entre indivíduos, o que explica por que muitas
pessoas no espectro não apresentam sinais facilmente identificáveis.
Nos últimos anos, também tem crescido o
número de diagnósticos em adultos, especialmente em pessoas que passaram a vida
inteira sem compreender certas dificuldades sociais ou sensoriais.
Impacto do preconceito
Para Werneck, a combinação entre
desinformação, psicofobia e capacitismo cria um ambiente social hostil para pessoas
no espectro. É comum ver hoje em dia situações em empresas que dizem acolher
pessoas no espectro, mas que quando surgem problemas usam as mesmas como bode
expiatório.
“Quando alguém diz que você está fingindo ou
que ‘não parece autista’, isso invalida a experiência daquela pessoa. Muitas
vezes ela passou décadas tentando entender por que se sentia diferente”,
afirma.
Ele também alerta que o julgamento constante
pode provocar ansiedade, isolamento social e dificuldades no ambiente de
trabalho ou estudo.
“Precisamos parar de achar que temos
autoridade para diagnosticar ou desdiagnosticar alguém com base em impressões
pessoais. Isso não é opinião, é saúde”, acrescenta.
Informação como ferramenta de
combate ao preconceito
Para o ativista, a principal forma de
enfrentar esses estigmas é ampliar o acesso à informação qualificada sobre
neurodiversidade.
Campanhas educativas, debates públicos e a
escuta das próprias pessoas autistas são, segundo ele, caminhos fundamentais
para construir uma sociedade mais inclusiva.
“O primeiro passo é entender que o autismo
não tem cara. O segundo é respeitar a palavra e o diagnóstico das pessoas.
Inclusão começa quando deixamos de julgar e começamos a ouvir”, conclui Heitor
Werneck.
Heitor Werneck - produtor cultural,
estilista, precursor do fetichismo no Brasil e idealizador da primeira festa
liberal do País, Projeto Luxúria, atua também como consultor em séries e filmes
da HBO, Netflix, Globo, e, entre as suas principais atividades, realiza ações
sociais em prol de membros da comunidade LGBTQIAP+ voltadas para saúde,
alimentação e acolhimento em parcerias com ONGs, empresas e órgãos do governo.
Werneck também é autista e realiza lives diárias em seu TikTok @heitorwerneckoficial
sobre suas vivências no espectro.

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