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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Estudo Global revela que investimento em meninas rompe ciclos de desigualdade no Brasil

Relatório produzido pela Plan International em nove países mostra que meninas brasileiras que tiveram apoio contínuo concluíram os estudos, romperam com o casamento precoce e desenvolveram pensamento crítico sobre desigualdades

 

Um acompanhamento inédito realizado pela Plan International, ONG que atua para romper ciclos de violências contra meninas, ao longo de quase duas décadas com 142 participantes, revela que investir de forma contínua na educação e nos direitos das meninas gera impactos concretos e duradouros. 

 O estudo longitudinal “Real Choices, Real Lives” acompanhou meninas desde o nascimento até os 18 anos e mostra que, no recorte brasileiro, nenhuma das participantes se casou ou entrou em união antes da maioridade, em contraste com a trajetória de suas próprias mães. 

O documento oferece um panorama de longo prazo sobre como educação, normas de gênero e políticas públicas influenciam trajetórias de vida de meninas, conectando infância, adolescência e transição para a vida adulta. 

A pesquisa foi realizada em Benin, Brasil, Camboja, República Dominicana, El Salvador, Filipinas, Togo, Uganda e Vietnã. No país, a pesquisa foi realizada em São Luís e Codó, no Maranhão, com 15 meninas, das quais oito permaneceram até o final do estudo. Em 2024, duas haviam concluído o ensino médio e seis continuavam matriculadas, mantendo trajetórias educacionais consistentes apesar das dificuldades econômicas e do acesso desigual a políticas públicas, superando o nível educacional das mães. 

“O que vemos no Brasil é a prova de que educação, políticas de proteção social e trabalho intencional com normas de gênero podem romper ciclos históricos de desigualdade. Essas meninas não apenas permaneceram na escola, como desenvolveram consciência crítica, adiaram uniões precoces e ampliaram suas perspectivas de futuro. É importante pontuarmos que quando o investimento é contínuo, os resultados aparecem”, afirma Cynthia Betti, CEO da Plan International Brasil. 

Os resultados do estudo refletem o cenário nacional. No Brasil, a frequência escolar é fortemente condicionada por fatores socioeconômicos e pelo acesso a políticas de proteção, como programas sociais que disponibilizam incentivos financeiros mediante a presença escolar, uma ação que contribuiu para a permanência das meninas do estudo na escola. 

Segundo dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, 88,8% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil ainda frequentavam a escola em 2024, mas esse percentual é menor entre adolescentes de 16 a 17 anos, evidenciando riscos crescentes de evasão justamente na transição para o ensino médio. O mesmo levantamento mostra que mais da metade (54,1%) das crianças e adolescentes no país realizam afazeres domésticos ou tarefas de cuidado, uma sobrecarga que recai de forma mais acentuada sobre as meninas e impacta diretamente seu tempo de estudo e descanso. 

No estudo da Plan International, mesmo em contextos em que a carga de trabalho de cuidado não remunerado é relativamente menor, como no Brasil, as meninas ainda relataram limitações significativas de tempo e autonomia, mostrando que a desigualdade de gênero no cuidado segue sendo um desafio estrutural. 

O contraste entre gerações é um dos pontos centrais do estudo. Enquanto a média de casamento das mães ocorreu aos 17 anos, com casos de uniões ainda mais precoces, as filhas permaneceram na escola e ampliaram suas perspectivas de autonomia e inserção no mundo do trabalho. No conjunto global, 13% das meninas se casaram ou entraram em união antes dos 18 anos; no Brasil, nenhuma participante vivenciou casamento ou união precoce. 

Outro ponto importante abordado é a questão do conhecimento sobre direitos. Entre as participantes de todos os países existe a dificuldade no acesso a informações sobre os direitos sexuais e reprodutivos, gerando ansiedade e prejuízos à aprendizagem. Além disso, também persistem desafios ligados à violência, inclusive em ambientes escolares e digitais, e ao acesso desigual a serviços de saúde, especialmente no campo da saúde sexual e reprodutiva. 

Apesar desse cenário, observou-se também aspectos positivos no cenário nacional. a pesquisa destaca que as meninas brasileiras demonstraram maior consciência sobre injustiças sociais e normas de gênero, questionando restrições impostas ao seu comportamento, à mobilidade e às relações sociais. Esse processo foi fortalecido pela participação em projetos da Plan Brasil, como o Líderes da Mudança e La Legue, que trabalham igualdade de gênero, direitos sexuais e reprodutivos e prevenção do casamento infantil, como as iniciativas baseadas na metodologia Champions of Change

“Em todos os países acompanhados pelo estudo, há desafios que se repetem, como a escassez no acesso a informações sobre direitos sexuais e reprodutivos, os riscos à permanência escolar e a desigualdade de gênero expressa na sobrecarga de tarefas domésticas que recai sobre as meninas. A experiência mostra que projetos como os desenvolvidos pela Plan Brasil são fundamentais para enfrentar essas barreiras e criar condições para que meninas permaneçam na escola e exerçam seus direitos.” reforça Betti. 

Os achados do levantamento estão alinhados as iniciativas recentes do UNICEF Brasil e do IBGE, que reforçaram em 2025 a importância de ampliar e qualificar a produção de dados sobre crianças e adolescentes para orientar políticas públicas mais eficazes e reduzir desigualdades regionais e de gênero.

Além da educação, o relatório traz informações relevantes sobre outros aspectos, como violência, abordando as altas taxas de experiências de violência ao longo da infância e adolescência e como normas de “proteção” restringem mobilidade e autonomia; casamento infantil, mostrando que 13% das meninas do conjunto global se casaram ou entraram em união antes dos 18 anos e detalhando os impactos dessa medida; e a resistência à inclusão dessas meninas em espaços sociais, como, por exemplo, na participação em atividades esportivas.



Plan Brasil
www.plan.org.br

 

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