Relatório produzido pela Plan International em nove países mostra que meninas brasileiras que tiveram apoio contínuo concluíram os estudos, romperam com o casamento precoce e desenvolveram pensamento crítico sobre desigualdades
Um acompanhamento inédito
realizado pela Plan International, ONG que atua para romper ciclos de
violências contra meninas, ao longo de quase duas décadas com 142 participantes,
revela que investir de forma contínua na educação e nos direitos das meninas
gera impactos concretos e duradouros.
O
estudo longitudinal “Real Choices, Real Lives” acompanhou meninas desde o
nascimento até os 18 anos e mostra que, no recorte brasileiro, nenhuma
das participantes se casou ou entrou em união antes da maioridade, em contraste
com a trajetória de suas próprias mães.
O documento oferece um
panorama de longo prazo sobre como educação, normas de gênero e políticas
públicas influenciam trajetórias de vida de meninas, conectando infância,
adolescência e transição para a vida adulta.
A pesquisa foi realizada em
Benin, Brasil, Camboja, República Dominicana, El Salvador, Filipinas, Togo,
Uganda e Vietnã. No país, a pesquisa foi realizada
em São Luís e Codó, no Maranhão, com 15 meninas, das quais oito permaneceram
até o final do estudo. Em 2024, duas haviam concluído o ensino médio e
seis continuavam matriculadas, mantendo trajetórias educacionais consistentes
apesar das dificuldades econômicas e do acesso desigual a políticas públicas,
superando o nível educacional das mães.
“O que vemos no
Brasil é a prova de que educação, políticas de proteção social e trabalho
intencional com normas de gênero podem romper ciclos históricos de desigualdade.
Essas meninas não apenas permaneceram na escola, como desenvolveram consciência
crítica, adiaram uniões precoces e ampliaram suas perspectivas de futuro. É
importante pontuarmos que quando o investimento é contínuo, os resultados
aparecem”, afirma Cynthia Betti, CEO da Plan International
Brasil.
Os resultados do estudo
refletem o cenário nacional. No Brasil, a frequência escolar é fortemente
condicionada por fatores socioeconômicos e pelo acesso a políticas de proteção,
como programas sociais que disponibilizam incentivos financeiros mediante a
presença escolar, uma ação que contribuiu para a permanência das meninas do
estudo na escola.
Segundo dados mais recentes da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, 88,8% das crianças
e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil ainda
frequentavam a escola em 2024, mas esse percentual é menor entre adolescentes
de 16 a 17 anos, evidenciando riscos crescentes de evasão justamente na
transição para o ensino médio. O mesmo levantamento mostra que mais da metade
(54,1%) das crianças e adolescentes no país realizam afazeres domésticos ou
tarefas de cuidado, uma sobrecarga que recai de forma mais acentuada sobre as
meninas e impacta diretamente seu tempo de estudo e descanso.
No estudo da Plan
International, mesmo em contextos em que a carga de
trabalho de cuidado não remunerado é relativamente menor, como no Brasil,
as meninas ainda relataram limitações significativas de tempo e autonomia,
mostrando que a desigualdade de gênero no cuidado segue sendo um desafio
estrutural.
O contraste entre
gerações é um dos pontos centrais do estudo. Enquanto a média de casamento das
mães ocorreu aos 17 anos, com casos de uniões ainda mais precoces, as filhas
permaneceram na escola e ampliaram suas perspectivas de autonomia e inserção no
mundo do trabalho. No conjunto global, 13% das
meninas se casaram ou entraram em união antes dos 18 anos; no Brasil, nenhuma
participante vivenciou casamento ou união precoce.
Outro ponto importante abordado
é a questão do conhecimento sobre direitos. Entre as participantes de todos os
países existe a dificuldade no acesso a informações sobre os direitos sexuais e
reprodutivos, gerando ansiedade e prejuízos à aprendizagem. Além disso, também
persistem desafios ligados à violência, inclusive em ambientes escolares e
digitais, e ao acesso desigual a serviços de saúde, especialmente no campo da
saúde sexual e reprodutiva.
Apesar desse cenário,
observou-se também aspectos positivos no cenário nacional. a pesquisa destaca
que as meninas brasileiras demonstraram maior consciência sobre injustiças
sociais e normas de gênero, questionando restrições impostas ao seu
comportamento, à mobilidade e às relações sociais. Esse processo foi
fortalecido pela participação em projetos da Plan Brasil, como o Líderes da
Mudança e La Legue, que trabalham igualdade de gênero, direitos
sexuais e reprodutivos e prevenção do casamento infantil, como as iniciativas
baseadas na metodologia Champions of Change.
“Em todos os países acompanhados
pelo estudo, há desafios que se repetem, como a escassez no acesso a
informações sobre direitos sexuais e reprodutivos, os riscos à permanência
escolar e a desigualdade de gênero expressa na sobrecarga de tarefas domésticas
que recai sobre as meninas. A experiência mostra que projetos como os
desenvolvidos pela Plan Brasil são fundamentais para enfrentar essas barreiras
e criar condições para que meninas permaneçam na escola e exerçam seus
direitos.” reforça Betti.
Os achados do levantamento estão
alinhados as iniciativas recentes do UNICEF Brasil e do IBGE, que reforçaram em
2025 a importância de ampliar e qualificar a produção de dados sobre crianças e
adolescentes para orientar políticas públicas mais eficazes e reduzir
desigualdades regionais e de gênero.
Além da educação, o relatório traz informações relevantes sobre outros aspectos, como violência, abordando as altas taxas de experiências de violência ao longo da infância e adolescência e como normas de “proteção” restringem mobilidade e autonomia; casamento infantil, mostrando que 13% das meninas do conjunto global se casaram ou entraram em união antes dos 18 anos e detalhando os impactos dessa medida; e a resistência à inclusão dessas meninas em espaços sociais, como, por exemplo, na participação em atividades esportivas.
Plan Brasil
www.plan.org.br

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