Pesquisar no Blog

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Para mães que se descobriram autistas: você não está sozinha nessa jornada

Neurologista explica sobre diagnóstico tardio e tratamentos


Durante muito tempo, o autismo foi associado a um perfil específico, mais comum em meninos, com características evidentes desde a infância. Mas hoje, uma nova realidade vem ganhando espaço nos consultórios: mulheres que só descobrem que são autistas depois de se tornarem mães.

Segundo o Dr. Matheus Trilico, neurologista referência no tratamento de autismo em adultos, a maternidade costuma ser um ponto de virada. “A chegada de um filho traz uma sobrecarga sensorial, emocional e de rotina muito intensa. Para muitas mulheres autistas, esse é o momento em que elas percebem que sempre funcionaram de forma diferente, mas nunca tiveram um nome para isso”, explica.


O excesso que ninguém vê

Barulho constante, toque frequente, interrupções, mudanças de rotina e demandas emocionais intensas. Para uma mãe autista, o dia a dia pode ser extremamente desafiador, mesmo quando existe amor, dedicação e presença. De acordo com o Dr. Trilico, essas mulheres podem se sentir sobrecarregadas com estímulos que outras pessoas consideram normais. “Um choro repetitivo, por exemplo, pode ser fisicamente doloroso para quem tem hipersensibilidade auditiva”, ressalta o neurologista.

A ciência corrobora essa visão: estudos indicam que cerca de 96% dos indivíduos autistas apresentam dificuldades de processamento sensorial. Na maternidade, essas demandas tornam-se especialmente desafiadoras, pois o ambiente doméstico é, por natureza, imprevisível e ruidoso.


O colapso da máscara social

Além da sobrecarga física, há uma cobrança interna e social exaustiva. Muitas dessas mulheres passaram a vida aprendendo a mascarar comportamentos para se adaptarem ao mundo neurotípico, um fenômeno conhecido como masking ou camuflagem social.

“Na maternidade, essa máscara começa a cair, porque a exigência emocional é constante e o esforço para parecer 'normal' torna-se insustentável”, afirma o Dr. Matheus Trilico. Evidências recentes mostram que mulheres autistas utilizam significativamente mais estratégias de camuflagem do que homens, o que explica por que tantas "escapam" do diagnóstico até a vida adulta, quando o estresse crônico pode levar ao chamado burnout autístico.


Culpa, exaustão e o alívio do diagnóstico

Mesmo sendo mães presentes e amorosas, muitas relatam exaustão extrema e necessidade de isolamento. Segundo o Dr. Trilico, elas frequentemente se sentem culpadas por precisarem de silêncio ou por não conseguirem corresponder a uma ideia idealizada de maternidade.
Para muitas, o diagnóstico tardio não é um peso, mas um alívio. “Entender que existe uma explicação neurobiológica para essas lutas muda a forma como essa mulher se enxerga. Sai a culpa, entra o entendimento e a autocompaixão”, destaca o neurologista. Pesquisas indicam que o diagnóstico na vida adulta facilita a transição de uma visão autocrítica para uma postura de maior autocuidado e aceitação.


Como viver a maternidade sendo autista: caminhos possíveis

Embora o desafio seja real, o Dr. Matheus Trilico enfatiza que existem estratégias fundamentais para construir uma maternidade mais saudável e equilibrada:

·     Criar uma rotina previsível: Antecipar atividades e organizar horários ajuda a reduzir a sobrecarga cognitiva e traz segurança.


·     Respeitar os limites sensoriais: O uso de ferramentas como fones com cancelamento de ruído e a criação de "pausas sensoriais" em ambientes silenciosos são essenciais para evitar o esgotamento.


·     Dividir responsabilidades: Não tentar assumir tudo sozinha é uma forma de preservação da saúde mental e da relação com os filhos

.

·     Comunicação clara: Expressar as necessidades para a rede de apoio (parceiro, familiares e amigos) é fundamental para que a mãe seja compreendida em suas particularidades.


Segundo o Dr. Trilico, a rede de apoio desempenha um papel vital ao aprender a identificar os sinais silenciosos de sobrecarga. Parceiros e familiares devem estar atentos a comportamentos como o aumento da irritabilidade sem motivo aparente, o fechamento dos olhos em ambientes barulhentos, a recusa súbita ao toque ou a necessidade urgente de se retirar para um local escuro. Identificar esses sinais precocemente permite que a rede intervenha, assumindo as demandas imediatas e oferecendo à mãe o tempo de recuperação necessário antes que ela atinja o limite do esgotamento.


Uma nova forma de maternar

“Não existe uma única forma de maternar. Quando essa mulher se entende e respeita sua neurodivergência, ela encontra o seu próprio jeito, muitas vezes mais sensível, consciente e profundamente conectado com as necessidades do filho”, finaliza o Dr. Matheus Trilico.



Dr. Matheus Luis Castelan Trilico - CRM 35805PR, RQE 24818. Médico pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFP. Pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista. Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no portal do neurologista: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br/


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados