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| Segundo os cientistas, a espaçonave poderia ser mantida em órbita intermediária pelo tempo que fosse necessário até a missão estar pronta para a segunda parte da viagem (foto: Sam Lott/Nasa) |
Pesquisadores desenvolveram um
método matemático que permite calcular com maior precisão as rotas mais
econômicas para viagens entre as órbitas de diferentes corpos celestes. Para
demonstrá-lo, calcularam um trajeto entre a órbita da Terra e a da Lua que é
mais eficiente do que todos os já descritos na literatura científica. O estudo
foi publicado na revista Astrodynamics.
O novo itinerário entre os dois
corpos celestes demanda um consumo de combustível 58,80 metros por segundo
(m/s) mais baixo do que os mais baratos já descritos. O valor pode parecer
pequeno diante do custo total estimado para a viagem – de 3.342,96 m/s –, mas
tem um impacto significativo nos custos da empreitada. “Quando se trata de viagens
espaciais, cada metro por segundo equivale a um consumo gigantesco de
combustível”, aponta Allan Kardec de Almeida Júnior, pesquisador na
Universidade de Coimbra e principal autor do trabalho, que também envolveu as
universidades do Porto e de Évora (Portugal), o Observatório de Paris (França)
e as universidades de Pernambuco (UPE) e de São Paulo (USP).
O método se baseia na teoria
das conexões funcionais, que reduz o custo computacional das simulações de
viagens espaciais. Isso permitiu aos cientistas simularem um número muito maior
de trajetórias diferentes e chegar a uma resposta “mais em conta”.
O trabalho usado como
referência para o projeto realizou 280 mil simulações para chegar a um
resultado, enquanto o grupo de pesquisa de Almeida conseguiu simular 30 milhões
de rotas diferentes.
Da Terra à
Lua, em classe econômica
A trajetória traçada por
Almeida e colaboradores para levar uma espaçonave da órbita terrestre até a
lunar foi dividida em dois trechos. No primeiro, a espaçonave deixaria a órbita
terrestre e seria levada até uma órbita em torno do ponto lagrangiano L1 – uma
região entre a Terra e a Lua em que as forças exercidas pelos dois corpos se anulam.
Na maior parte desse trajeto, a nave seria guiada por uma “variedade”, uma
trajetória natural que leva até essa órbita.
Mas o caminho indicado acabou
sendo diferente do esperado.
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| Trajetória da viagem entre a Terra e a órbita em volta do ponto lagrangiano L1 (imagem: Allan Kardec de Almeida Júnior et al./Astrodynamics) |
A maioria dos modelos
existentes parte do pressuposto de que seria mais eficiente entrar na variedade
no ramo mais próximo à Terra, mas as simulações realizadas pela equipe
mostraram que, na verdade, a rota mais econômica se aproximava mais da Lua e
entrava na variedade pelo lado oposto.
Vitor Martins de Oliveira, pós-doutorando no Instituto de
Matemática, Estatística e Ciência da Computação (IME) da USP e coautor do
trabalho, explica que a busca por soluções como essa é uma das vantagens do uso
da teoria das conexões funcionais: “Em vez de assumir que é mais fácil pegar a
parte da variedade mais perto da Terra, podemos usar uma análise sistemática
com métodos mais rápidos para tentar achar soluções não tão triviais”.
Utilizando um sistema de
controle, a espaçonave poderia ser mantida nessa órbita intermediária pelo
tempo que fosse necessário até a missão estar pronta para a segunda parte da
viagem – quando segue para a órbita lunar. Essa “baldeação espacial” também é uma
vantagem porque, enquanto espera, não há interrupção de comunicação nem com a
Terra nem com a Lua.
“A missão Artemis 2, por
exemplo, passou um tempo sem comunicação com a Terra por estar diretamente
atrás da Lua. A órbita que indicamos é uma solução em que a espaçonave mantém
comunicação ininterrupta”, ressalta Oliveira.
A investigação teve apoio da
FAPESP (projetos 21/11306-0 e 22/12785-1). Também assina o artigo Leonardo Barbosa Torres dos Santos, doutor pelo Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) com bolsa da Fundação.
Ainda mais
economia, só em datas específicas
Apesar de ser um trajeto mais
econômico do que os descritos anteriormente, a rota traçada por Almeida e seus
colaboradores não é a passagem mais barata possível. As simulações utilizadas
só levaram em conta a gravidade da Lua e da Terra, desconsiderando outros
corpos celestes, como o Sol. Sua inclusão poderia levar a um desconto ainda
maior – porém restringe a janela de tempo para o lançamento. “Seria necessário
fazer a simulação para uma posição específica do Sol. Por exemplo, se
simularmos o dia de lançamento da missão em 23 de dezembro, vamos obter
resultados válidos apenas para uma missão iniciada naquela data”, ressalva
Almeida.
Mesmo nesses casos, o método
desenvolvido pela equipe para realizar um número maior de simulações pode ser
aplicado para encontrar a melhor trajetória. “A análise sistemática que
aplicamos em nosso trabalho é algo que pode ser mais adotado daqui para a
frente”, sugere o pesquisador.
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| Trajetória da viagem completa entre as órbitas da Terra e da Lua (imagem: Allan Kardec de Almeida Júnior et al./Astrodynamics) |
O artigo Earth-Moon
transfer via the L1 Lagrangian point using the theory of functional connections pode
ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s42064-025-0297-x.
Método calcula trajeto entre a Terra e a Lua mais eficiente do que todos os já descritos



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