Renda comprometida
e crédito restrito reduzem volume por compra e exigem ajustes na operação do
varejo alimentar
O volume de itens básicos vendidos em supermercados
tem recuado no Brasil, ainda que o número de consumidores nas lojas se mantenha
estável. Dados recentes do IBGE mostram desaceleração no consumo das famílias,
enquanto a Serasa registra mais de 73 milhões de brasileiros inadimplentes.
Esse quadro tem reduzido o volume levado por visita, especialmente em
categorias como arroz, feijão e óleo.
Márcio Goulart, especialista em gestão de supermercados e
porta-voz da Meta Contabilidade, afirma que a mudança aparece
de forma direta no comportamento de compra. “O cliente continua indo ao
supermercado, mas compra para períodos mais curtos. Em vez de abastecer o mês,
leva o suficiente para poucos dias, ajustando a compra ao dinheiro disponível”,
diz.
Na prática, o consumidor passou a reorganizar a
rotina de compras. Famílias que antes realizavam uma compra maior mensal
passaram a fracionar as visitas ao supermercado ao longo da semana.
Produtos básicos deixaram de ser adquiridos em
maior quantidade de uma só vez, e as escolhas passam a considerar preço
unitário no momento da compra. Marcas mais acessíveis ganham participação,
enquanto embalagens maiores perdem espaço quando exigem desembolso mais alto.
Itens que antes eram comprados de forma regular passam a entrar ou sair do
carrinho conforme o orçamento disponível no momento da compra.
Menos previsibilidade e mais
pressão na operação
Esse padrão altera diretamente a dinâmica de venda.
O volume médio por cliente recua, enquanto a frequência de visitas aumenta.
Segundo Goulart, o supermercado passa a ter menor clareza sobre quais
categorias terão saída ao longo do mês. “O giro deixa de seguir um padrão mais
estável. O varejista precisa acompanhar a venda quase em tempo real para
ajustar pedidos e evitar excesso ou ruptura de produtos”, afirma.
A desaceleração do consumo também impacta a
formação de preço e a margem. Com o grupo Alimentação e Bebidas pressionando o
orçamento das famílias, de acordo com o IBGE, o repasse de custos encontra
limite na capacidade de pagamento do consumidor. “O varejista precisa
equilibrar preço competitivo com custos mais altos. Se aumenta demais, perde
venda. Se não ajusta, perde margem”, explica.
Outro efeito observado está na gestão de estoque.
Com compras mais fragmentadas, a demanda por produtos essenciais se distribui
de forma menos concentrada ao longo do mês. Isso reduz a eficiência de compras
em volume e exige ajustes frequentes no planejamento. “O planejamento precisa
ser mais curto. Estoque alto pode imobilizar capital, enquanto estoque baixo
pode gerar perda de venda”, diz.
Crédito limitado reforça
consumo no curto prazo
A inadimplência elevada também influencia esse
movimento ao restringir o uso de crédito para consumo cotidiano. Com parte da
renda comprometida, o consumidor passa a ajustar a compra ao saldo disponível,
evitando antecipar gastos. “A decisão acontece no momento da compra. O cliente
avalia o que cabe no orçamento naquele dia, não mais no mês inteiro”, afirma.
Para o varejo, o resultado é uma operação mais
dependente de ajustes frequentes. A definição de mix, preço e exposição de
produtos passa a exigir revisão constante, com menor margem para erro. “O
volume continua relevante, mas está distribuído de outra forma. Entender esse
novo padrão passa a ser determinante para sustentar o resultado em um momento
mais restrito”, conclui.
O movimento indica menos uma redução da demanda e mais uma mudança na forma como ela se distribui ao longo do tempo. Com menor capacidade de antecipação de gastos, o consumo se torna mais fragmentado, exigindo do varejo maior capacidade de ajuste operacional no curto prazo.
Márcio Goulart - diretor da Meta Assessoria Empresarial e atua na liderança das frentes de tecnologia e processos da empresa. Ao longo dos últimos anos, foi um dos responsáveis pela modernização da operação, com a implementação de automações e soluções que ampliaram a eficiência e a capacidade de atendimento. Sua atuação está voltada à conexão entre tecnologia e gestão, apoiando empresários na organização de dados, na melhoria de processos e na tomada de decisão. Com foco em resultado, trabalha no desenvolvimento de estruturas que permitam maior previsibilidade, controle e crescimento sustentável nos negócios.
Para mais informações, acesse instagram.
IBGE – Consumo das famílias (desaceleração do consumo / varejo)
Pesquisa Mensal de Comércio (PMC):
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/comercio/9227-pesquisa-mensal-de-comercio.html
Contas Nacionais Trimestrais (consumo das famílias no PIB):
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais/9300-contas-nacionais-trimestrais.html
IBGE – Inflação de alimentos (grupo Alimentação e Bebidas – IPCA)
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/precos-e-custos/9256-indice-nacional-de-precos-ao-consumidor-amplo.html
Serasa – Inadimplência no Brasil (mais de 73 milhões de brasileiros)
Mapa da Inadimplência:
https://www.serasa.com.br/imprensa/mapa-da-inadimplencia/
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