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sábado, 18 de abril de 2026

Autismo virou "modinha"? Especialista alerta sobre banalização do diagnóstico

Diagnóstico diferencial é o único caminho para não sobrecarregar o sistema e garantir apoio a quem realmente precisa

 

Basta navegar alguns minutos pelas redes sociais para encontrar relatos de pessoas que se identificam com traços do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O aumento expressivo de diagnósticos de autismo, especialmente no nível 1 do espectro, tem gerado debates nos últimos meses. Estamos diagnosticando melhor ou estendendo demais a condição? 

Camila Canguçu, psicóloga, doutora pelo Medaille College (EUA), supervisora do PRATEA (Programa de Atenção ao Transtorno do Espectro do Autismo) da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e mãe de um adolescente autista, traz uma análise sobre essa possível “inflação” de laudos. Para ela, a ampliação dos níveis de suporte pode criar uma zona cinzenta, na qual outros transtornos, como a ansiedade, acabam sendo rotulados precocemente como autismo. 

“O problema central é que, após as mudanças diagnósticas ocorridas em 2013, os critérios passaram a abranger um espectro mais amplo. Se a avaliação não for feita de forma criteriosa, existe o risco de confundirmos outros quadros clínicos. Por exemplo, a evitação social por questões de ansiedade pode ser interpretada como característica de autismo. Ou até mesmo traços de personalidade podem ser equivocadamente considerados como critérios diagnósticos”, afirma. 

Um dos pontos principais defendidos pela especialista é que, para ser considerado autismo, deve haver, obrigatoriamente, um prejuízo funcional na vida do indivíduo. Não basta ter características isoladas ou preferências específicas; é preciso que existam barreiras reais na comunicação e na interação social, por exemplo. 

“Devemos considerar o diagnóstico de autismo quando há evidências claras de déficits na comunicação e na interação social, associadas à presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento e interesses, causando prejuízos significativos para o indivíduo. Além disso, o autismo é uma condição do neurodesenvolvimento que se manifesta desde muito cedo, na primeira infância. Ele não ‘surge’ na adolescência ou na vida adulta. O que ocorre, nesses casos, é um diagnóstico tardio de algo que sempre esteve presente”, completa a especialista. 

A psicóloga ressalta ainda que o perigo da banalização do diagnóstico é o impacto direto em quem realmente precisa de suporte intenso. Quando casos de ansiedade são confundidos com autismo, o tratamento pode não ser o mais adequado para o paciente e a rede de apoio acaba sobrecarregada, sem contar o uso do diagnóstico apenas para obter vantagens práticas. 

"A conscientização é fundamental, mas o autismo não pode ser visto como um rótulo de conveniência para acessar benefícios. Quando pessoas sem prejuízos reais buscam o laudo apenas por essas facilidades, acabamos tirando o espaço e o tempo de quem possui barreiras severas e depende visceralmente dessas políticas públicas. O diagnóstico deve servir para garantir o tratamento correto, e não para banalizar uma condição que exige tanto das famílias que a vivem diariamente", finaliza a psicóloga.


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