Estudo mostra posicionamento do Brasil na arena internacional e os caminhos para a participação da sociedade. Os desafios e as tendências do cenário mundial para o comércio de alimentos foram debatidos por especialistas em seminário online realizado pelo Escolhas e Nexo.
A
pandemia provocada pelo coronavírus está afetando o comércio de alimentos e a
segurança alimentar em todo o mundo e desafia os organismos internacionais de
regulação. Especialistas reunidos no seminário “Diplomacia Alimentar. Qual o apetite
do Brasil no cenário mundial? debateram as regras e instâncias de regulação do
comércio de produtos agrícolas, a posição do Brasil nesses espaços – grande
exportador de commodities – e as tendências internacionais nesse novo cenário
imposto pela pandemia da Covid-19.
Como a sociedade pode entender o tema Diplomacia Alimentar,
contribuir e influenciar as decisões sobre o comércio mundial de alimentos?
Durante o evento, realizado no último dia 02 de abril, foi lançado o estudo “Diplomacia
Alimentar: qual o apetite do Brasil no cenário mundial? A regulação
internacional da produção e do comércio de alimentos”, idealizado pelo
Escolhas e realizado por renomados pesquisadores do Centro de Estudos de
Integração e Desenvolvimento (Cindes) com objetivo de entender a complexidade
da arena na qual se elaboram e implementam regras para a produção e
comercialização de produtos alimentares.
Atualmente, o Brasil como o terceiro maior exportador agrícola do
mundo, com 5,7% das exportações do mercado global, deverá sentir os efeitos dessa
crise, com impactos que vão perdurar por muito tempo depois que a fase mais
aguda dessa pandemia tiver sido superada, como destacado pelos especialistas
durante o debate.
“O mundo vai mudar. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação
e a Agricultura (FAO) chama a atenção: o mundo depois da pandemia (do
coronavírus) será outro, novas tensões vão aparecer. Tensões do lado da oferta
e tensões do lado da demanda (de alimentos)” , alertou o embaixador Rubens
Barbosa, presidente do Instituto de Relações Internacionais e
Comércio Exterior (Irice) e da Associação Brasileira da Indústria
do Trigo (Abitrigo).
Para ele, o país tem que ter uma atitude proativa. “O Brasil tem
que sair dessa posição de isolacionismo, de reação e ter uma posição sobre cada
uma dessa três áreas: econômica, comercial e política internacional. O que
estamos fazendo aqui é um exemplo. A sociedade civil tem que começar a
discutir. Temos que subir nossa voz para que haja uma discussão envolvendo em
todos os níveis, envolvendo Congresso, sociedade civil, o Governo (Itamaray)
para conversar sem ideologia. Se não vamos ter uma consequência muito
negativa para o país e nós vamos perder, mais uma vez, o bonde da história. O
interesse nacional tem que prevalecer.”
O professor e pesquisador de Agronegócio Global do
Insper, Marcos Jank, destaca que o tema Diplomacia Alimentar não
podia vir em melhor hora. “Temos a história do que aconteceu. E agora um grande
desafio do momento da pandemia do coronavírus ligada ao tema Diplomacia
Alimentar”. Ele destaca que a mudança nos temas de saúde humana, sanidade
animal e vegetal e sustentabilidade é a conscientização do risco de doenças e
que agora é necessária uma discussão multilateral envolvendo todas as
organizações internacionais relacionadas ao tema alimentar. Mas, o especialista
em agronegócio global revela uma inquietação “Fico muito preocupado como
risco de haver uma espécie de renascimento nacionalista, um certo nacionalismo
alimentar. Se de um lado isso beneficia importadores protecionais por outro
lado prejudica o Brasil como grande exportador que depende de fronteiras
abertas”.
A economista e diretora do Cindes Sandra Polónia Rios, uma das
autoras do trabalho, destacou que o estudo tratou de dar um panorama geral
sobre o contexto internacional de formulação e negociação de regras e olhou a
economia política da produção de regras e a posição do Brasil. Ela concluiu que
“as conclusões e recomendações do estudo não mudam muito à luz do novo cenário.
O trabalho de mobilização de trazer diferentes atores para a discussão pode
ajudar nessa crise, buscar um pouco mais de convergência de visões, de
mobilização da sociedade para tratar deste assunto”.
Para o diretor do Escolhas, Sergio Leitão, “Aprendemos que o
Brasil, nesse tema, joga sério e tem o peso da produção para ter autoridade
nesta relação internacional. Em função da crise da pandemia, há indicativo que
o Brasil precisa retomar o protagonismo.” Ele chama a atenção para a
necessidade de mobilizar de todos os atores “Há um déficit de atenção da
sociedade no Brasil em relação a importância da regulação internacional da
produção e comércio de alimentos. O trabalho aponta um conjunto de
recomendações para que a sociedade civil organizada e atores econômicos e
próprio governo pensem e olhem como pode ser dar essa atuação do Brasil no tema
da regulação produção e comércio de alimentos”.
A importância do debate, com o mundo pós pandemia, e como o Brasil
vai se comportar foram os pontos destacados pela antropóloga e diretora-geral
do Nexo, Paula Miraglia. “Quais são as estratégias de mobilização da sociedade
civil em torno do tema Diplomacia Alimentar? Importante conseguir traduzir o
universo da Diplomacia Alimentar e das arenas de negociação, que vão impactar a
agenda interna do Brasil. É o grande desafio: fazer com que a sociedade civil,
que o público se aproprie deste debate. Como aproximar as pessoas deste tema? O
trabalho de sensibilização é fundamental.”
O seminário, transmitido ao vivo pela internet, foi realizado pelo
Escolhas em parceria com o Nexo Jornal.
O estudo
O trabalho idealizado pelo Escolhas e realizado por pesquisadores
do Cindes analisou as instâncias, regras, temas no funcionamento do comércio
internacional de alimentos, mostra as tendências e os posturas adotada pelo
Brasil e a influência dos atores privados do setor agropecuário brasileiro
nesse posicionamento.
No estudo, os pesquisadores apontam que, no papel de provedor de
alimentos para o mundo, o Brasil sofre pressão internacional para que o setor
agroexportador adote posturas mais claras em relação a questões como
mudanças climáticas e saúde humana, adequando suas práticas produtivas a
padrões estabelecidos internacionalmente.
E traz algumas recomendações como a necessidade de fazer o
mapeamento do setor agroexportador brasileiro e a compreensão das disposições
sobre comércio e desenvolvimento sustentável no Acordo Mercosul e União
Europeia.
Sumário Executivo – “Diplomacia
Alimentar: qual o apetite do Brasil no cenário mundial? A regulação
internacional da produção e do comércio de alimentos”
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