Com evidências científicas no alívio da tensão e na melhora do sono, práticas integrativas ganham espaço como suporte à saúde mental, sem dispensar o acompanhamento profissional
O setembro amarelo
traz ao debate a importância de olhar para a saúde mental de forma contínua,
acessível e humana. Em busca de estratégias para enfrentar a rotina de
estresse, ansiedade e fadiga emocional, um número crescente de brasileiros tem
recorrido às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS).
Balanços do
Ministério da Saúde mostram a consolidação dessa tendência: em 2024, o Sistema
Único de Saúde (SUS) registrou cerca de 7,1 milhões de procedimentos em PICS,
um crescimento de 70% em relação a 2022, sendo a Atenção Primária responsável
por quase 80% dessa demanda.
Reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e regulamentadas no Brasil desde 2006, as PICS atuam no equilíbrio entre corpo e mente, ajudando a regular o ritmo biológico, melhorar a qualidade do sono e aliviar sintomas leves de ansiedade.
Entretanto, cada modalidade possui níveis distintos de comprovação científica. A meditação de atenção plena (mindfulness) e o yoga figuram entre as mais respaldadas por revisões sistemáticas para a redução dos níveis de cortisol (hormônio do estresse) e auxílio na prevenção de recaídas depressivas. Já a acupuntura destaca-se como terapia complementar relevante para o manejo de dores crônicas associadas ao estresse e distúrbios do sono.
“As práticas integrativas oferecem recursos terapêuticos que auxiliam a pessoa
a desenvolver uma presença maior de si e com essa percepção possa se
autorregular, promovendo assim o equilíbrio emocional. Contudo, elas precisam
ser encaradas em alguns casos como recursos de apoio e prevenção, sendo
ajustadas às necessidades específicas de cada indivíduo”, explica Adriana
Fabozzi, psicóloga do Polo de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde
Parque Maria Helena, serviço da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo e
gerenciado pelo CEJAM.
Terapia
complementar não substitui tratamento convencional
Um dos pontos de atenção destacados pelos médicos é a necessidade de entender os limites de cada intervenção. Embora contribuam na promoção da qualidade de vida, as PICS não substituem a avaliação médica psiquiátrica, a psicoterapia regular ou o uso de medicamentos psicotrópicos quando há indicação clínica.
Abandonar ou adiar tratamentos convencionais em quadros de depressão moderada a grave ou transtornos de ansiedade estruturados pode levar ao agravamento dos sintomas. Por isso, a recomendação é que as práticas integrativas sejam somadas ao plano de cuidado, com a devida orientação da equipe de saúde.
“Em quadros psiquiátricos estruturados, a psicoterapia e o acompanhamento
médico são insubstituíveis. O paciente jamais deve interromper medicações
prescritas ou prescindir do tratamento psicológico para se dedicar
exclusivamente a terapias complementares. O segredo está na integração
consciente e acompanhada de ambos os caminhos”, adverte a especialista.
Setembro
Amarelo e a prevenção responsável do suicídio
No âmbito do
setembro amarelo, falar sobre saúde mental exige responsabilidade e clareza. As
práticas integrativas auxiliam no bem-estar, mas não constituem, isoladamente,
uma medida de prevenção do suicídio ou de controle de crises agudas.
A prevenção
efetiva baseia-se na escuta qualificada, no suporte familiar, na redução do
estigma e no acesso rápido a serviços especializados de saúde. Diante de uma
desesperança profunda ou isolamento severo, a busca por atendimento
profissional imediato é indispensável.
Principais
benefícios relatados e acompanhados pelas PICS:
- Alívio da tensão e ansiedade leve: regulação do sistema nervoso autônomo por meio do
controle respiratório e relaxamento corporal;
- Melhora da qualidade do sono: redução da agitação mental
antes de dormir, favorecendo um sono mais reparador;
- Desenvolvimento do autocuidado: maior percepção dos sinais de
estresse do corpo, facilitando a busca preventiva por pausa e cuidado;
- Suporte somático: alívio de dores musculares e tensões físicas decorrentes de
sobrecarga emocional.
Onde buscar
acolhimento e avaliação no SUS
Pessoas que percebem dificuldades para lidar com emoções intensas, tristeza persistente ou sintomas de ansiedade devem procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) mais próximo. Na rede pública, os profissionais de saúde realizam a avaliação inicial, podendo indicar o encaminhamento para outros serviços especializados ou sugerir a inclusão em grupos de PICS.
Em situações de crise emocional e emergência, o atendimento gratuito e confidencial pode ser feito pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, além dos serviços de pronto atendimento (SAMU 192 e Prontos-Socorros).
Linha de Cuidados em Saúde Mental
O CEJAM possui uma Linha de Cuidados em Saúde Mental que integra diferentes etapas da assistência para promover um cuidado contínuo, qualificado e alinhado às necessidades de cada pessoa. Estruturada para atuar na prevenção, no diagnóstico precoce e no acompanhamento de quadros leves a complexos, a iniciativa conecta as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e as equipes de Saúde da Família aos serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Além do atendimento nas unidades, a diretriz contempla ações extramuros na comunidade, como a Terapia Comunitária Integrativa (TCI) e grupos educativos em parques e praças públicas. Essa atuação no território busca ampliar o acesso à escuta acolhedora e integrar a rede socioassistencial, alinhado às diretrizes da atenção psicossocial.
CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
@cejamoficial




