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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Gestação e câncer de mama: como conciliar o tratamento com a geração de uma nova vida

Para mulheres que enfrentam a doença em idade reprodutiva, a preocupação com a maternidade deve fazer parte de todo o tratamento: desde identificar a melhor forma de preservação da fertilidade durante o tratamento quimioterápico até o momento ideal de decidir pela gestação com segurança. 

 

Quando a mulher recebe o diagnóstico de câncer de mama, a possibilidade de maternidade passa a ter um papel secundário na vida da mulher. A necessidade de uso de medicações que possam atrapalhar a reserva ovariana e o medo de que o aumento hormonal durante a gestação favoreça o crescimento e a recidiva do tumor são preocupações frequentes entre elas. Com isso, muitas dúvidas passam a fazer parte da vida da mulher: como saber se o meu tratamento afetou minha reserva ovariana? Quanto tempo preciso esperar após tratamento? É seguro adiar alguma medicação para poder engravidar? Se eu quiser engravidar, tenho risco de o câncer voltar? Vencer o câncer de mama não significa necessariamente encerrar os planos de maternidade. Para muitas mulheres diagnosticadas durante a idade reprodutiva, a possibilidade de engravidar depois do tratamento passa a ser uma nova etapa da vida, mas também traz dúvidas e decisões que precisam ser avaliadas individualmente: o tratamento afetou a reserva ovariana? Ainda existe potencial reprodutivo? Quanto tempo é necessário esperar? É seguro interromper uma terapia hormonal? A gestação aumenta o risco de o câncer voltar? 

Essas questões fazem parte de uma área cada vez mais importante do cuidado oncológico: a preservação da fertilidade e o planejamento reprodutivo após o câncer. A atualização mais recente da American Society of Clinical Oncology (ASCO), publicada em 2025, passou a recomendar que a preservação da fertilidade seja discutida desde o momento do diagnóstico e que o planejamento de gestação seja abordado durante todo o tratamento, mesmo que a gestação não seja uma prioridade imediata, não apenas no momento do diagnóstico, mas também durante o acompanhamento de longo prazo das pessoas que já passaram pelo tratamento.

Para Dra. Karina Belickas, obstetra e mastologista do Hospital e Maternidade Santa Joana, o desejo de engravidar depois do câncer de mama precisa ser incorporado ao planejamento do tratamento e do acompanhamento da paciente. 

“Para uma mulher que recebe o diagnóstico de câncer de mama ainda jovem, a preocupação com a fertilidade pode parecer que tenha menor relevância em meio a muitas outras decisões urgentes. Por isso, é importante que o desejo de ter filhos seja conhecido pela equipe desde o início. Depois do tratamento, esse planejamento pode ser retomado, mas sempre considerando o tipo e o estadiamento inicial do tumor, os tratamentos realizados, a idade da paciente, a reserva ovariana e o risco individual de recorrência”, explica. 

O impacto sobre a fertilidade depende principalmente do tratamento recebido. A quimioterapia pode provocar redução da reserva ovariana, levando, em alguns casos, à própria menopausa e, em alguns casos, à falência ovariana ou à antecipação da menopausa. No entanto, esse impacto vai depender de fatores individuais, como o tipo de quimioterápico utilizado, a idade do início do tratamento, a reserva ovariana inicial e o próprio histórico familiar em relação à precocidade da menopausa. O risco não é igual para todas as mulheres: idade no momento do tratamento, medicamentos utilizados, doses e características individuais interferem no efeito sobre os ovários. Um estudo de 2025 realizado no Instituto Nacional de Câncer (INCA) reforça que agentes alquilantes, como a ciclofosfamida, e antraciclinas, muito presentes na quimioterapia preconizada para tratamento do câncer de origem mamária, estão entre os tratamentos com maior potencial de toxicidade ovariana, enquanto os tratamentos não medicamentosos não possuem um impacto direto. 

Por isso, a avaliação da fertilidade deve fazer parte do início do tratamento, e não deve ser adiada para depois do seu término. Além da preocupação com a reserva ovariana, sempre que possível, mulheres em idade reprodutiva devem receber orientação sobre preservação da fertilidade antes do início de terapias potencialmente gonadotóxicas. Entre as possibilidades estão o congelamento de óvulos, congelamento de embriões e, em casos específicos, congelamento de tecido ovariano. A ASCO também passou a reconhecer a maturação in vitro de óvulos como uma estratégia emergente de preservação da fertilidade para algumas pacientes (isso é muito abstrato atualmente, melhor não colocar). 

Mesmo que a preocupação com o uso de medicamentos não seja comum a todas as mulheres, o fator tempo estará sempre presente para as que conseguem ou precisam preservar óvulos antes do tratamento. Algumas já têm filhos, outras recebem um diagnóstico que exige início rápido da terapia e não permite postergar o tratamento para realizar um procedimento de fertilidade. Há ainda aquelas que, após o tratamento, recuperam a função ovariana espontaneamente e conseguem engravidar naturalmente. 

A idade sempre será um fator muito importante na jornada dessa mulher que vai precisar aguardar o momento mais seguro para engravidar após diagnóstico. É justamente nesse momento que surge outro desafio: a idade. Mesmo que os ovários retomem sua atividade depois da quimioterapia, a fertilidade feminina continua sujeita ao processo natural de redução da quantidade e da qualidade dos óvulos ao longo dos anos. Para uma mulher que recebeu o diagnóstico aos 30 anos e precisou dedicar alguns anos ao tratamento, por exemplo, a decisão de esperar mais tempo pode ter impacto diferente daquela de uma paciente diagnosticada aos 38 ou 40 anos.

“Não podemos olhar apenas para o fato de a menstruação ter voltado. Menstruar novamente não significa necessariamente que a reserva ovariana esteja preservada. Ela sempre estará reduzida, quer seja por ação direta de quimioterápicos, quer seja pela idade. A orientação a ser oferecida a essa mulher precisa considerar a idade, a história reprodutiva e exames de reserva ovariana, sempre dentro do contexto oncológico”, explica Dra. Karina.
 

Gravidez depois do câncer exige planejamento, não necessariamente renúncia 

Após a decisão de engravidar, chegamos à próxima preocupação: será que com a gestação meu risco oncológico vai aumentar? Uma das principais dúvidas das pacientes é se uma futura gravidez poderia aumentar o risco de o câncer de mama voltar. A resposta depende de diversos fatores, mas evidências mais recentes são importantes para reduzir o medo de que a gestação seja automaticamente contraindicada em mulheres que já passaram pelo tratamento. 

O estudo POSITIVE, publicado em 2023 no New England Journal of Medicine, acompanhou mulheres de até 42 anos com histórico de câncer de mama inicial com receptores hormonais positivos que desejavam engravidar. Entre as 497 participantes avaliadas para o desfecho de gravidez, 368 tiveram pelo menos uma gestação e 317 tiveram ao menos um nascimento com vida. No acompanhamento disponível, a interrupção temporária da terapia endócrina para tentativa de gravidez não apresentou aumento do risco de eventos relacionados ao câncer em comparação com um grupo de mulheres que não realizaram a pausa, embora os próprios pesquisadores ressaltem a importância de manter o seguimento dessas mulheres por mais tempo para garantir resultados mais concretos. 

Isso não significa que toda mulher possa simplesmente interromper a hormonioterapia para engravidar. A estratégia estudada no POSITIVE foi específica para um grupo selecionado de pacientes, que já havia recebido entre 18 e 30 meses de terapia endócrina e passou por avaliação médica antes da interrupção. O protocolo previa ainda um período de suspensão de pelo menos 3 meses dos medicamentos antes da tentativa de gravidez e a retomada do tratamento em até dois anos, que poderia contemplar, ou não, uma gestação e amamentação, se dentro do período determinado, após a gestação e a amamentação, quando indicada. 

“O resultado desse estudo é muito importante porque traz segurança para uma conversa que durante muito tempo foi cercada de medo. Mas ele não significa que a gravidez esteja liberada para todas as mulheres que tiveram câncer de mama. A decisão precisa ser feita em conjunto com a oncologia e a obstetrícia, levando em conta o subtipo do tumor, o estágio da doença, o tratamento realizado e o risco individual da paciente”, ressalta a especialista. 

A própria diretriz da ESMO reconhece que, para mulheres que desejam engravidar, as evidências disponíveis indicam que a gestação pode ser segura após o tratamento do câncer de mama em situações selecionadas. Para pacientes com doença inicial hormônio-dependente, a interrupção temporária da terapia endócrina pode ser considerada em contextos específicos, seguindo critérios médicos e com retomada posterior do tratamento. 

Outro ponto que merece atenção é que o tratamento pode não ter terminado quando a paciente recebe alta da quimioterapia ou da cirurgia. Mulheres com tumores hormônio-dependentes podem precisar de terapia endócrina por até 10 anos, fora do contexto metastático, que pode durar além desse tempo, durante vários anos. Esse período coincide justamente com uma fase em que a fertilidade já está naturalmente diminuindo, o que torna o planejamento reprodutivo ainda mais delicado. 

Para algumas pacientes, portanto, a conversa sobre maternidade precisa começar antes mesmo do primeiro ciclo de quimioterapia. Para outras, ela será retomada anos depois, quando o tratamento estiver mais avançado ou concluído. Em ambos os cenários, a avaliação individualizada é fundamental. 

A questão emocional também não pode ser ignorada. Depois de enfrentar uma doença potencialmente grave, muitas mulheres passam a viver a gravidez com sentimentos contraditórios: felicidade pelo desejo de ter um filho, mas também medo de uma possível recidiva, receio de que a gestação prejudique a própria saúde ou preocupação com os efeitos que o tratamento possa ter provocado sobre o organismo. 

“A paciente pode chegar ao consultório depois de ter vencido uma etapa muito difícil e ainda carregar o medo de que engravidar seja uma ameaça para a sua saúde. É importante acolher essa insegurança e transformar a decisão em um planejamento médico estruturado. O objetivo é que ela não precise escolher entre cuidar da própria saúde e falar sobre o desejo de ser mãe”, afirma Dra. Karina. 

A gestação também precisa ser acompanhada de forma individualizada. Dependendo do histórico da paciente, podem ser necessários cuidados obstétricos específicos e integração com a equipe responsável pelo seguimento oncológico. O histórico de quimioterapia, por exemplo, deve ser conhecido pelo obstetra, assim como eventuais tratamentos que possam ter repercussões cardiovasculares ou outras consequências tardias. 

A amamentação é outro tema que costuma aparecer nessa fase. Ela pode ser possível para algumas mulheres, mas estará muito relacionada aos tratamentos cirúrgico e radioterápico implementados. Pacientes submetidas a mastectomia não serão capazes de amamentar na mama operada, enquanto aquelas que realizaram cirurgias conservadoras e realizaram radioterapia podem ter produção reduzida. Depende do tipo de cirurgia realizada, de eventuais tratamentos na mama e da capacidade de produção de leite. Em pacientes submetidas à cirurgia conservadora ou à mastectomia, por exemplo, a experiência pode ser diferente de acordo com o tratamento recebido. Além disso, não é recomendada a pausa de qualquer tratamento oncológico sem a avaliação do mastologista ou do oncologista. Mulheres que ainda precisam utilizar determinados medicamentos oncológicos não devem interromper ou modificar a terapia por conta própria para amamentar. 

O acompanhamento após o câncer de mama também não termina quando a mulher engravida. O seguimento oncológico continua sendo necessário, assim como o acompanhamento obstétrico. O INCA destaca que, após o tratamento, as pacientes devem permanecer em acompanhamento clínico e por imagem de acordo com seu histórico e indicação médica. 

Para Dra. Karina, a principal mudança é entender a fertilidade como parte da saúde integral da mulher que passou pelo câncer. 

“Durante muito tempo, a prioridade era tratar o câncer e só depois pensar nas consequências. Hoje conseguimos ampliar essa visão. O tratamento continua sendo a prioridade, mas o projeto de vida da paciente também precisa estar na conversa. Ter filhos depois do câncer pode ser possível para muitas mulheres, mas esse caminho precisa ser planejado com informação, segurança e uma equipe preparada para acompanhar todas as etapas”, conclui. 

Com o aumento da sobrevida e dos recursos disponíveis para preservação da fertilidade, falar sobre maternidade após o câncer de mama deixou de ser uma questão secundária. Para mulheres diagnosticadas em idade reprodutiva, discutir as possibilidades antes, durante e depois do tratamento significa preservar não apenas uma função do organismo, mas também a possibilidade de construir projetos de vida que vão além da doença.  



Hospital e Maternidade Santa Joana
www.santajoana.com.br


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