Excesso de gordura abdominal e resistência à insulina aumentam o risco; endocrinologista explica como emagrecimento e acompanhamento médico ajudam a prevenir a progressão.]
O pré-diabetes pode avançar sem provocar sede excessiva,
aumento da fome, vontade frequente de urinar ou outros sinais associados ao
diabetes descompensado. Enquanto o paciente se sente bem, o organismo já pode
apresentar dificuldade para controlar a glicose, tornando os exames periódicos
importantes para identificar precocemente a alteração.
A condição é caracterizada por glicemia de jejum entre 100 e
125 mg/dL, hemoglobina glicada entre 5,7% e 6,4% ou glicemia entre 140 e 199
mg/dL duas horas após o teste oral de tolerância à glicose. Esses intervalos
também são adotados pelo Instituto Nacional de Diabetes e Doenças Digestivas e
Renais dos Estados Unidos.
Segundo o endocrinologista e metabologista Dr. Rafael
Fantin, alterações metabólicas podem começar antes de os resultados atingirem
esses limites. “O paciente pode apresentar resistência à insulina,
hiperinsulinemia e aumento da gordura abdominal mesmo com a glicemia abaixo dos
critérios de pré-diabetes. Não precisamos esperar o diagnóstico de diabetes
para corrigir o que já está metabolicamente alterado”, explica.
Pessoas com sobrepeso, obesidade abdominal, histórico
familiar de diabetes, hipertensão, triglicérides elevados, HDL reduzido,
sedentarismo, esteatose hepática ou apneia do sono precisam acompanhar a
glicemia com maior atenção. Mulheres com síndrome dos ovários policísticos ou
histórico de diabetes gestacional também apresentam risco aumentado.
A gordura visceral participa diretamente desse processo. Por
ser metabolicamente ativa, ela libera ácidos graxos e substâncias inflamatórias
que dificultam a ação da insulina. Para compensar, o pâncreas aumenta a
produção do hormônio. Com o passar do tempo, pode deixar de produzir uma
quantidade suficiente para controlar a glicose, favorecendo a progressão para o
diabetes tipo 2.
O pré-diabetes pode ser revertido quando a sensibilidade à
insulina melhora e os exames retornam às faixas consideradas normais.
Entretanto, isso não significa que o risco desapareceu definitivamente. Se o
excesso de gordura visceral, o sedentarismo e os demais fatores retornarem, a
alteração da glicose também pode reaparecer.
Uma redução de aproximadamente 5% a 7% do peso corporal já
pode melhorar a glicemia e diminuir o risco de progressão da doença, percentual
também utilizado em programas de prevenção do Centro de Controle e Prevenção de
Doenças dos Estados Unidos. Rafael ressalta que a composição corporal é mais
importante do que o número isolado da balança. “Quando reduzimos gordura visceral
e preservamos massa muscular, conseguimos melhorar de forma mais significativa
a sensibilidade à insulina e o controle da glicose”, afirma.
A estratégia envolve reduzir ultraprocessados, açúcares e
carboidratos refinados, aumentar o consumo de proteínas e fibras, praticar
exercícios de força e atividades aeróbicas, cuidar do sono e reduzir o
estresse. “Não se trata simplesmente de retirar o açúcar. É preciso melhorar a
alimentação, a massa muscular, o sono e toda a rotina para criar um ambiente
metabólico mais saudável”, orienta.
Em alguns casos, medicamentos podem ser indicados, principalmente
quando existem resistência à insulina intensa, excesso de gordura visceral,
piora progressiva dos exames ou outros fatores de risco. O tratamento
medicamentoso não substitui as mudanças de hábitos e precisa ser definido
individualmente após avaliação médica.
“O erro mais comum é esperar o pré-diabetes evoluir para
começar a agir. Mesmo quando os exames voltam ao normal, o acompanhamento deve
continuar, porque os fatores que provocaram a alteração podem retornar.
Identificar o risco cedo permite mudar o curso da doença antes que ela avance”,
conclui Rafael Fantin.
Fonte: Dr. Rafael Fantin — endocrinologista e metabologista, especialista em saúde integrada, performance metabólica e nutrigenômica.
@dr.rafaelfantin
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