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| O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima esclareceu que o uso de PBDEs (retardantes bromados) na fabricação de novos aparelhos eletroeletrônicos já é proibido. O risco atual está nos equipamentos antigos, como televisores e monitores de tubo fabricados. antes de 2005. O Brasil tem permissão para reciclar esses materiais antigos até 2030 Pixabay |
Estudo encontrou em locais de descarte materiais contendo substâncias tóxicas antigamente usadas como plastificantes e retardantes de chama. Sem triagem rigorosa, reciclagem pode se tornar vetor de contaminação, alertam cientistas
Um perigo invisível à saúde
pública pode estar acumulado nos locais de descarte e desmanche de resíduos
sólidos espalhados pelo país. Estudo liderado por pesquisadores brasileiros
constatou que espumas e plásticos descartados podem conter altos níveis de
substâncias tóxicas usadas antigamente pela indústria como plastificantes e
retardantes de chama.
A descoberta acende um sinal
amarelo para as políticas de sustentabilidade: se esses materiais forem
reaproveitados sem análise química prévia, a reciclagem pode se transformar em
um vetor involuntário de contaminação para novos produtos e para o meio
ambiente.
O trabalho foi conduzido por
pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual
Paulista (ICTS-Unesp), campus de Sorocaba, em parceria com a Universidade
de Birmingham, no Reino Unido, e apontou a presença de ésteres organofosforados
clorados em amostras de resíduos sólidos, materiais descartados que ainda podem
ser usados por outras pessoas e indústrias.
Esse tipo de substância já foi
usado na indústria como retardante de chamas e plastificante. Por causa da sua
estabilidade térmica e baixo custo, era muito aplicado em produtos como espumas
de poliuretano para móveis e colchões, carcaças plásticas de produtos
eletrônicos, artigos infantis e espuma de isolamento para construção civil.
Esses compostos – entre os mais
comuns estão o tris (1-cloro-2-propil) fosfato (TCIPP), o TDCIPP e o TCEP – têm
potencial ação tóxica, podendo provocar prejuízos nos sistemas endócrino e
reprodutivo, além de favorecer o aparecimento de câncer. A contaminação pode
acontecer por meio do contato direto com o objeto no qual eles foram usados,
pela ingestão ou pela inalação de poeira liberada no ambiente em decorrência da
degradação do material.
No total, foram coletadas 207
amostras de quatro categorias principais – resíduos de construção e demolição,
veículos em fim de vida útil, estofados e artigos infantis –, selecionadas para
abranger os setores de resíduos com maior probabilidade de conter materiais com
ésteres organofosforados clorados no Brasil.
Os materiais foram provenientes
da região metropolitana de Sorocaba, no interior de São Paulo, e retirados de
diversas fontes, incluindo um centro de desmanche de veículos, um aterro
sanitário de resíduos de construção e demolição, associações de reciclagem e
empresas de fabricação ou reforma de estofados.
“Nossos resultados mostraram
que 95% das amostras continham pelo menos um desses compostos em baixas
concentrações, sendo que 13 excederam o nível mais preocupante”, conta o
engenheiro ambiental David Burgos da Unesp,
que desenvolveu o trabalho em seu doutorado.
A pesquisa, que teve apoio da
FAPESP por meio de diversos projetos coordenados pelo professor do ICTS-Unesp André Henrique Rosa (19/06800-5, 22/00985-6, 22/14797-7, 25/11187-1 e 25/25530-0), orientador
de Burgos, é de extrema importância, já que o Brasil gera cerca de 81 milhões
de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, sendo o segundo maior gerador
das Américas. E parte desses materiais é reaproveitada na fabricação de novos
produtos.
“Quando estabelecemos essa
linha de pesquisa no ICTS-Unesp, após meu estágio de pesquisa no exterior na
Universidade de Birmingham, com o grupo do professor Stuart Harrad,
praticamente não existiam dados sobre os níveis de contaminantes emergentes nos
resíduos brasileiros e da América Latina. Sem essa informação, qualquer
discussão sobre gestão segura de resíduos, visando à implementação de economia
circular no país, ou mesmo a proteção dos trabalhadores de reciclagem, ficava
sem base científica”, pontua Rosa.
De acordo com o pesquisador,
alguns desses retardantes de chama já foram proibidos por tratados
internacionais, como a Convenção de Estocolmo – documento global criado para
proteger a saúde humana e o meio ambiente dos poluentes orgânicos persistentes
–, da qual o Brasil é signatário desde 2004. Reino Unido, China e Japão, por
exemplo, já avançaram em políticas que evitam que esses itens sejam descartados
sem controle ou reintroduzidos no ciclo produtivo, gerando novos produtos.
“Somente proibir a fabricação
de novos produtos com esses compostos, como acontece no Brasil, não faz
desaparecer os materiais que já foram produzidos. Se eles forem reciclados sem
análise química ou tratamentos prévios, essas substâncias migram para novos
itens ou impactam o ambiente, causando problemas para a biota ou a saúde humana”,
explica Burgos.
Outra informação destacada por
Burgos é que os bromados, os primeiros retardantes de chama reconhecidos como
poluentes orgânicos persistentes e incluídos na Convenção de Estocolmo, foram
substituídos pelos organofosforados clorados, que não são regulados da mesma
forma e também são tóxicos, com potencial carcinogênico documentado.
“O Brasil tem metas de
reciclagem e promove logística reversa de eletrônicos pela Política Nacional de
Resíduos Sólidos e tudo isso é necessário. Mas nossos resultados mostram que
reciclar sem triagem química pode transformar a economia circular num vetor de
recirculação de contaminantes: substâncias tóxicas de um produto antigo acabam
num produto novo”, afirma o doutorando.
Na avaliação de Burgos, a
responsabilidade de fazer a triagem química é compartilhada entre vários
órgãos. “Dentro do Sistema Nacional do Meio Ambiente [Sisnama], o Ibama
[Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] atua
no nível federal, os órgãos estaduais, como a Cetesb [Companhia Ambiental do
Estado de São Paulo], respondem pelo licenciamento e pela fiscalização dos
geradores, e os municípios, pela gestão local. Soma-se a isso a Política
Nacional de Resíduos Sólidos [Lei 12.305/2010], que atribui ao próprio gerador
o dever de caracterizar e monitorar seus resíduos”, comenta.
Procurado pela reportagem, o Ibama
informou que a atribuição para a triagem do material compete ao Grupo de
Acompanhamento de Performance, composto por entidades representativas, em
âmbito nacional, dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes
de produtos eletroeletrônicos.
Já a Cetesb não retornou o
contato até a publicação desta reportagem.
Em nota, o Ministério do Meio
Ambiente e Mudança do Clima (MMA) esclareceu que o uso de PBDEs (retardantes
bromados) na fabricação de novos aparelhos eletroeletrônicos já é proibido no
Brasil, seguindo os acordos internacionais. O risco atual está nos equipamentos
antigos, como televisores e monitores de tubo fabricados antes de 2005. Por
lei, o Brasil tem permissão para reciclar esses materiais antigos até 2030.
Segundo a pasta, “os
instrumentos de logística reversa atualmente vigentes fornecem a estrutura para
coleta, triagem, rastreabilidade e destinação dos resíduos eletroeletrônicos,
mas não estabelecem protocolo específico de análise ou teste para determinar a
presença de PBDEs”.
O artigo Chlorinated
organophosphate esters in Brazilian solid waste: concentrations, national load
estimates, and regulatory implications for a circular economy pode ser lido
em: sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749126005993.
Agência FAPESP
Compostos associados ao câncer são detectados em resíduos de espumas, plásticos e artigos infantis

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