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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Miopia infantil avança e pede atenção desde os primeiros anos

Divulgação
A OMS recomenda pelo menos 90 minutos diários ao ar
 livre, durante o dia, como uma das medidas que podem
 ajudar a retardar o aparecimento da miopia
Estudo internacional aponta aumento da prevalência entre crianças e adolescentes; acompanhamento precoce, tempo ao ar livre e controle da progressão ganham importância no cuidado com a visão 


A miopia está se tornando mais frequente entre crianças e adolescentes em diferentes partes do mundo. Uma revisão sistemática publicada em 2025 no British Journal of Ophthalmology, com 276 estudos e mais de 5,4 milhões de participantes de 50 países, apontou que a prevalência global passou de 24,3% em 1990 para 35,8% em 2023. A projeção é de que chegue a 39,8% em 2050, o que representaria mais de 740 milhões de casos entre crianças e adolescentes. 

O cenário tem levado a Oftalmologia a olhar para a miopia infantil de outra maneira. Para o oftalmologista Dr. Rodrigo Carvalho, da Alpha Oftalmologia Avançada, não basta identificar o grau e prescrever os óculos: é importante acompanhar sua evolução e reconhecer precocemente os casos com maior risco de progressão. 

“Não queremos apenas corrigir a miopia. Queremos identificar precocemente quem está progredindo e, quando indicado, tentar desacelerar essa progressão”, enfatiza.

 

O que mudou na rotina das crianças 

A genética influencia o desenvolvimento da miopia, mas não explica sozinha o avanço observado nas últimas décadas. Estudos apontam a importância de fatores ambientais, principalmente a combinação entre maior exposição a atividades de visão próxima e menos tempo ao ar livre. O International Myopia Institute considera o tempo ao ar livre um dos fatores ambientais com evidência mais consistente de proteção contra o aparecimento da miopia. 

“Não devemos simplesmente dizer que o celular causa miopia. A relação é mais complexa”, explica Carvalho. O uso de dispositivos é uma forma contemporânea de atividade de perto, mas a epidemia de miopia já era observada antes da popularização dos smartphones. Por isso, a recomendação não é simplesmente retirar as telas da rotina, mas equilibrar atividades próximas com pausas e, principalmente, mais tempo em ambientes externos. 

A Organização Mundial da Saúde recomenda pelo menos 90 minutos diários ao ar livre, durante o dia, como uma das medidas que podem ajudar a retardar o aparecimento da miopia. 


Quando a criança não percebe que enxerga mal 

Um dos desafios é que a miopia pode passar despercebida. A criança pode se aproximar da televisão, apertar os olhos para enxergar de longe, sentar perto da lousa ou simplesmente se adaptar à visão borrada sem reclamar. 

“Não espere a criança reclamar que não está enxergando”, orienta o oftalmologista. “Muitas vezes ela não percebe que existe um problema porque aquela é simplesmente a única maneira de enxergar que ela conhece.” 

A idade de início também merece atenção. Quanto mais cedo a miopia aparece, maior pode ser o período de progressão durante o crescimento. Por isso, a avaliação deve considerar não apenas o grau, mas sua evolução ao longo do tempo. Em determinados casos, o acompanhamento do comprimento axial do olho também pode contribuir para essa avaliação.

 

O objetivo é controlar a progressão 

Óculos continuam sendo uma forma segura e eficiente de corrigir a visão. Mas, para crianças cuja miopia está avançando, existem estratégias específicas de controle, que podem incluir determinados tipos de lentes para óculos, lentes de contato, ortoceratologia e atropina em baixas concentrações. A escolha depende das características de cada paciente e deve ser feita pelo oftalmologista. 

A preocupação não se resume à necessidade de trocar as lentes com mais frequência. A alta miopia está associada a maior risco de problemas oculares ao longo da vida, o que torna a prevenção e o controle da progressão especialmente relevantes. 

“Ter miopia significa apresentar o erro refrativo. Miopia em progressão significa que esse grau está aumentando ao longo do tempo”, destaca Carvalho.

Para os pais, a orientação envolve medidas simples: estimular atividades ao ar livre, evitar longos períodos ininterruptos de visão próxima, manter uma distância confortável de leitura e dispositivos e realizar avaliações oftalmológicas periódicas. 

“Detectar a miopia precocemente permite não só devolver uma visão nítida à criança, mas também identificar quem apresenta risco de progressão e agir no momento em que temos maior oportunidade de modificar sua evolução”, conclui o especialista.



Rodrigo T. de Campos Carvalho (CRM-SP107.838, RQE 37070) - médico formado pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp, com residência em Oftalmologia pela Unicamp. Possui título de especialista pelo CNRM/MEC e pela Associação Médica Brasileira/Conselho Brasileiro de Oftalmologia, além de especialização em cirurgia refrativa pela USP. Atua há mais de duas décadas na área, com experiência clínica e cirúrgica, e é proprietário da Alpha Oftalmologia Avançada, em Campinas. Também desenvolve doutorado na área de cirurgia refrativa pela USP.


Alpha Oftalmologia Avançada
Av. José de Souza Campos (Norte-Sul), 550, conjunto 91, Campinas.
@dr_rodrigotccarvalho
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Além das manchas: tratamento do melasma no inverno resgata autoestima e confiança

Condição crônica e multifatorial afeta principalmente mulheres e pode impactar o bem-estar emocional; dermatologista destaca avanços nos cuidados e opções terapêuticas

 

A chegada do inverno inaugura o período ideal para a realização de diversos procedimentos dermatológicos, impulsionados pelo clima mais ameno e pela menor exposição solar. Um dos principais destaques desta estação é o tratamento do melasma, condição caracterizada pelo surgimento de manchas escuras na pele. 

"O melasma é uma doença crônica da pigmentação da pele, caracterizada pelo aparecimento de manchas acastanhadas, principalmente no rosto. Hoje sabemos que ele vai muito além de um simples excesso de melanina. Trata-se de uma condição complexa, que envolve hiperatividade dos melanócitos, aumento da produção e do depósito de melanina, além de alterações vasculares, com maior formação de pequenos vasos sanguíneos na pele, e um processo inflamatório persistente, que contribui para a manutenção das manchas", explica a dermatologista Gabrielle Adames

Embora não seja um quadro prejudicial à saúde física nem contagioso, sua visibilidade costuma provocar um impacto significativo na autoestima dos pacientes, afetando majoritariamente o público feminino. As marcas da condição se manifestam com maior frequência na região facial, concentrando-se em áreas de grande destaque, como as bochechas, a testa e a ponte do nariz, o que torna o distúrbio um dos maiores desafios da dermatologia estética. 

"O inverno é o período ideal para intensificar o tratamento do melasma, já que a menor incidência de radiação solar proporciona mais segurança e favorece melhores resultados. Na clínica, desenvolvemos protocolos personalizados que combinam peelings químicos e lasers de alta tecnologia, selecionados de acordo com o tipo de pele, a profundidade das manchas e as características de cada paciente. Essas tecnologias atuam tanto na redução da pigmentação quanto no componente vascular do melasma, promovendo uma pele mais uniforme e luminosa, com resultados naturais e duradouros", completa a Dra. Gabrielle Adames

A medicina atual desmistifica a antiga crença de que o quadro seria decorrente apenas da exposição solar. Hoje, sabe-se que o melasma é uma condição crônica, complexa e multifatorial. Na prática, a hiperpigmentação ocorre devido à hiperatividade dos melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina, que passam a fabricar pigmento em excesso, depositando-o nos queratinócitos, na camada mais superficial da pele. Essa superprodução é desencadeada por uma combinação de fatores genéticos, radiação ultravioleta (UV) e, de forma bastante expressiva, pelas oscilações hormonais. 

"O melasma acomete principalmente mulheres, especialmente entre os 20 e os 50 anos, período de maior influência hormonal. A predisposição genética, a gravidez, o uso de anticoncepcionais e as terapias hormonais estão entre os principais fatores envolvidos. Entretanto, a condição também pode ocorrer em homens, que representam cerca de 10% dos casos. Além da radiação solar, sabemos hoje que a luz visível, o calor, a poluição e até processos inflamatórios podem estimular a produção excessiva de melanina, tornando o controle da doença mais desafiador", ressalta a médica Gabrielle Adames.

Para além das alterações estéticas visíveis na pele, o impacto do melasma na saúde emocional é profundo. Por afetar áreas centrais da região facial e apresentar um caráter crônico de difícil controle, a condição frequentemente compromete a confiança, gerando inseguranças nas interações sociais. Diante disso, a busca por tratamentos no inverno ultrapassa a simples uniformização do tom do rosto: trata-se de um processo de resgate da autoconfiança, do bem-estar e da qualidade de vida do paciente. 

"O objetivo é devolver qualidade de vida ao paciente. Quando conseguimos controlar o melasma, vemos uma melhora significativa na autoestima, na confiança e na forma como a pessoa se relaciona consigo mesma. O mais importante é entender que não existe uma solução única ou milagrosa. O sucesso do tratamento depende da combinação entre acompanhamento dermatológico, tecnologias adequadas, rotina de cuidados em casa e proteção solar rigorosa todos os dias do ano. Com um plano individualizado e constância, é possível alcançar resultados muito satisfatórios e manter a pele saudável, bonita e equilibrada", destaca a dermatologista Gabrielle Adames.


Trabalhar mais pode esconder que se está produzindo menos

Presenteísmo mantém profissionais trabalhando mesmo quando a capacidade cognitiva e emocional já está comprometida

 

Ele chega no horário, participa das reuniões, responde e-mails, toma decisões e continua entregando. Para a empresa, aparentemente está tudo bem. O problema é que esse profissional pode estar trabalhando com dificuldade de concentração, exaustão, irritabilidade, ansiedade e queda da capacidade de tomar decisões. Ele está presente — mas já não consegue produzir como antes. Esse fenômeno é conhecido como presenteísmo e pode representar um dos custos mais difíceis de identificar dentro das organizações justamente porque, ao contrário do absenteísmo, o funcionário não falta. 

Segundo o psiquiatra corporativo Dr. Daniel Sócrates, o presenteísmo pode anteceder por meses — e em alguns casos por períodos ainda mais longos — um afastamento por adoecimento emocional. 

“O trabalhador continua funcionando, então ninguém percebe que existe um problema. Ele entrega, mas com mais esforço. Demora mais para fazer o que antes fazia rapidamente, perde concentração, fica mais irritado, começa a cometer erros ou tem dificuldade para tomar decisões. Como ainda está trabalhando, muitas vezes isso é interpretado como normal. O problema é que o custo desse funcionamento no limite vai se acumulando”, explica.

 

O prejuízo que não aparece no atestado 

Estimativas divulgadas pelo IBEF-SP (Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo) apontam que o presenteísmo pode custar mais de R$ 200 bilhões por ano à economia brasileira, com índice médio estimado em 31% nas empresas.

O impacto também aparece quando o presenteísmo está relacionado à saúde mental. Estudo internacional publicado no Journal of Affective Disorders colocou o Brasil entre os países com maiores perdas econômicas associadas ao presenteísmo relacionado à depressão, com estimativas bilionárias. 

A questão, segundo Daniel Sócrates, é que as empresas aprenderam a enxergar com facilidade o trabalhador ausente, mas ainda têm dificuldade para identificar aquele que comparece diariamente enquanto sua capacidade funcional diminui. 

“O absenteísmo é visível: existe uma ausência, um atestado, uma cadeira vazia. O presenteísmo é muito mais silencioso. A pessoa está na reunião e continua respondendo às demandas. Por isso, a organização pode demorar para perceber que aquele profissional já está trabalhando abaixo da sua capacidade cognitiva e emocional”, afirma o psiquiatra. 

Em 2024, o Brasil registrou mais de 470 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ansiedade e depressão estiveram entre as principais causas.

Mas os afastamentos mostram apenas os trabalhadores que chegaram ao ponto de interromper suas atividades. Existe uma etapa anterior, mais difícil de medir, na qual o profissional continua trabalhando apesar dos sintomas.

Os sinais podem aparecer de maneiras aparentemente banais: dificuldade de concentração, esquecimentos, irritabilidade, redução da criatividade, procrastinação, queda de produtividade, dificuldade para dormir, sensação constante de cansaço e necessidade de trabalhar cada vez mais horas para conseguir entregar a mesma quantidade de tarefas.

Em cargos de liderança, o problema pode ganhar outra dimensão.

“Um gestor emocionalmente esgotado não compromete apenas a própria produtividade. Ele pode perder tolerância, tomar decisões impulsivas, se comunicar pior, aumentar conflitos e transferir sua tensão para toda a equipe. Quanto maior a responsabilidade e a exigência cognitiva do cargo, maior pode ser o efeito desse desgaste sobre outras pessoas e sobre o negócio”, alerta Daniel Sócrates.

 

O funcionário não precisa parar de trabalhar para representar um alerta 

Para Daniel Sócrates, um dos principais desafios das organizações é identificar o problema antes que a queda de desempenho se transforme em adoecimento grave ou afastamento.

Isso envolve observar mudanças persistentes de comportamento e desempenho, avaliar cargas e processos de trabalho, preparar lideranças para reconhecer sinais de sofrimento e criar espaços seguros para que profissionais possam comunicar dificuldades sem receio de serem vistos como fracos ou pouco comprometidos.

“Não podemos esperar o atestado para reconhecer que alguma coisa estava errada. Muitas vezes, o afastamento é o último capítulo de uma história que começou muito antes. O presenteísmo mostra justamente isso: não falta gente trabalhando nas empresas. Muitas vezes, falta gente conseguindo trabalhar inteira”, conclui Dr. Daniel Sócrates.

  

Fontes:

  • IBEF-SP — estimativa de R$ 200 bilhões/ano e índice médio de 31% de presenteísmo nas empresas brasileiras.
  • Evans-Lacko & Knapp (2016), Journal of Affective Disorders / Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology — Brasil em 2º lugar mundial em prejuízo por presenteísmo ligado à depressão (US$ 63 bi/ano).
  • Harvard Business Review — custo do presenteísmo até 3x maior que o do absenteísmo em funções de alta exigência cognitiva.
  • Ministério da Previdência Social / dados consolidados em 2024 — 472 mil afastamentos por transtornos mentais; alta de 400%+ em ansiedade na última década.
  • NR-1 (atualização 2024/2025) — riscos psicossociais incluídos como obrigação legal no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.


Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.
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Aumentar os passos diários é tão eficaz quanto treino aeróbico no controle da asma

 

Pesquisador ressalta que tanto o treinamento como a intervenção comportamental
são um complemento da medicação: "Não podemos jamais parar de fazer
 uso do tratamento que o médico prescreve", diz David Halen Araújo Pinheiro, da USP
 (
imagem: Shutterstock)

Ensaio clínico realizado na USP demonstrou que as duas abordagens não farmacológicas melhoram a qualidade de vida e aliviam sintomas respiratórios e de ansiedade a médio prazo

 

Para pessoas que sofrem com asma moderada a grave, aumentar o número de passos diários pode ser tão eficaz para o controle da doença quanto suar a camisa em sessões estruturadas de treinamento aeróbico. É o que revela um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicado na revista Pulmonology. A pesquisa demonstrou que as duas abordagens melhoram a qualidade de vida, aliviam sintomas de ansiedade e depressão e mantêm a asma sob controle a médio prazo, oferecendo aos médicos e pacientes alternativas mais flexíveis e acessíveis de tratamento não farmacológico.

O artigo é fruto do doutorado do fisioterapeuta David Halen Araújo Pinheiro, desenvolvido na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) em colaboração com a Unidade de Doenças de Vias Aéreas da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas (HC) da FM-USP. O grupo recebeu apoio da FAPESP (projetos 21/03745-324/00263-621/04198-6 e 18/17788-3) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“Em um estudo anterior, vimos que, se um paciente caminha 7.500 passos por dia, ele já tem um melhor controle clínico da asma”, afirma Pinheiro, atualmente pós-doutorando do Laboratório de Investigação em Fisioterapia e Exercício (Liffe) do HC-FM-USP, com bolsa da FAPESP.

De 480 pacientes convidados a fazer parte do novo estudo, 52 ingressaram no programa após triagem. As intervenções duraram dois meses e uma reavaliação foi feita quatro meses depois. Para participar da pesquisa, os voluntários com diagnóstico de asma moderada a grave não controlada deveriam estar até então inativos (praticando menos de 150 minutos de atividade física moderada a vigorosa por semana), recebendo tratamento médico por ao menos seis meses, clinicamente estáveis (sem exacerbação nos últimos 30 dias) e não ser fumantes.

Antes de iniciar o programa, os participantes assistiram a uma aula educacional presencial, com tópicos como fisiopatologia da asma, uso correto da medicação e benefícios da prática de atividade física. Por sorteio, os voluntários foram divididos em dois grupos. Um deles passou a frequentar duas vezes por semana o HC para um treinamento aeróbio em esteira ergométrica com orientação profissional por 45 minutos. O segundo grupo frequentou o HC uma vez por semana, para sessões de até 90 minutos, a fim de receber orientações, aconselhamentos e incentivos para aumento da prática de atividade física, com caminhadas e estabelecimento de metas semanais. Os membros desse grupo receberam no período um relógio inteligente (smartwatch) para a contagem dos passos. Ambas as intervenções duraram oito semanas.

Os parâmetros de atividade física, controle clínico da asma, qualidade de vida e sintomas de depressão e ansiedade foram medidos em três momentos: antes do início da pesquisa (basal), logo após concluídas as oito semanas de intervenção (pós-intervenção) e quatro meses depois (follow-up). Nas três etapas de avaliação, que duraram sete dias e sete noites, os voluntários usaram um acelerômetro na cintura durante o dia, para medir os passos, e outro no punho à noite, para verificar a qualidade do sono. Os profissionais que fizeram as avaliações não estavam diretamente envolvidos no estudo e não sabiam em qual dos grupos o paciente estava.


Baixa qualidade de vida

As pessoas com asma que integraram a pesquisa tinham entre 18 e 65 anos. A maioria era de mulheres com sobrepeso ou obesidade grau 1 e apresentava sintomas de ansiedade e depressão, além de baixa qualidade de vida, escrevem os autores do artigo. Os voluntários dos dois grupos tiveram menos sintomas respiratórios e mantiveram o benefício quatro meses após o término.

“Ambas as intervenções são benéficas para o paciente e proporcionam um melhor controle clínico da doença. E, em nosso resultado, nenhuma das estratégias se sobressaiu à outra”, ressalta Pinheiro. “Entretanto, o treinamento aeróbio requer um aparato maior e precisa ser supervisionado. Já com uma simples caminhada, ao aumentar o número diário de passos, o paciente tende também a controlar a doença e obter outros benefícios, como, por exemplo, a melhora da qualidade de vida e a redução dos sintomas de ansiedade e depressão.”

Após concluídos os dois meses de uma intervenção ou de outra, os pesquisadores ficavam quatro meses sem entrar em contato com os pacientes e só então os chamavam para follow-up. “Fizemos isso para não influenciar e deixar que seguissem a vida cotidiana”, conta o pesquisador. “Depois dos quatro meses, muitos pacientes do grupo do treinamento aeróbio contaram que entraram na academia para fazer esteira e os pacientes do grupo da intervenção comportamental mantiveram a caminhada no dia a dia”, diz.

Nem todos, porém. A variação climática (de tempo frio para o quente ou vice-versa) foi apontada como o principal motivo para a descontinuidade das atividades.

“Observamos que, no grupo de treinamento aeróbio, o número de passos aumentou em comparação com o momento basal e decaiu no follow-up. O mesmo ocorreu no grupo de intervenção comportamental, embora nos dois casos os números tenham ficado acima do registrado antes da intervenção.”

No grupo de treinamento aeróbio, no pós-intervenção houve um aumento em média de 1.537 passos por dia, em relação ao momento inicial. No follow-up desse grupo, o aumento foi menor: ficou em 983 passos. Já no grupo da intervenção comportamental, o número de passos diários logo após os dois meses de programa teve aumento de 1.126. Quatro meses depois, o número foi para 996.

“Isso foi uma curiosidade que notamos. Depois de quatro meses, o número de passos registrados pelo grupo da intervenção comportamental foi um pouco maior do que o do treinamento aeróbio.”

Pinheiro ressalta, no entanto, que em seu protocolo o paciente deve fazer uso contínuo da medicação, como preconizado pela organização internacional Iniciativa Global para a Asma (Gina). “Tanto o treinamento aeróbio como a intervenção são um complemento da medicação. Não podemos jamais parar de fazer uso do tratamento que o médico prescreve”, afirma o pesquisador.

O artigo Aerobic training versus behavioural intervention to increase physical activity on clinical control of people with moderate-to-severe asthma: A randomised clinical trial pode ser lido em: tandfonline.com/doi/full/10.1080/25310429.2026.2684131.




Frances Jones

Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/aumentar-os-passos-diarios-e-tao-eficaz-quanto-treino-aerobico-no-controle-da-asma/59046


Diagnóstico de TEA na vida adulta: autoconhecimento e novas possibilidades de cuidado

Diagnóstico tardio ajuda a ressignificar experiências, reconhecer necessidades e buscar recursos para uma vida com mais qualidade e autonomia.


Recentemente, o cantor e compositor britânico Robbie Williams revelou publicamente que recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ele afirmou que a descoberta, aos 52 anos, trouxe alívio e ajudou a explicar comportamentos que antes não compreendia. 

A exemplo do astro da música pop, a busca pelo diagnóstico de TEA na vida adulta tem se tornado cada vez mais frequente, acompanhando os avanços na compreensão dos transtornos do neurodesenvolvimento e na conscientização sobre as suas diferentes manifestações. Em muitos casos, esse movimento começa a partir do diagnóstico de um filho: ao conhecer mais sobre o autismo, pais passam a reconhecer em si mesmos comportamentos, dificuldades e padrões que, durante anos, foram interpretados apenas como características da personalidade. 

Com a evolução das avaliações neuropsicológicas, a capacidade de identificar sinais do TEA ao longo das diferentes fases da vida também avançou. Dificuldades de interação social, necessidade de rotinas, alterações na comunicação, interesses restritos e desafios na adaptação a determinadas situações podem ter sido vivenciados durante anos sem uma explicação clara. Para alguns adultos, compreender que essas características estão relacionadas ao autismo ajuda a reorganizar a própria história e a dar novos significados a experiências na escola, no trabalho e nos relacionamentos. 

“Receber um diagnóstico tardio pode representar uma importante oportunidade de autoconhecimento. A confirmação do TEA não apaga as dificuldades vividas no passado, mas pode contribuir para que a pessoa compreenda melhor seus limites, necessidades, formas de comunicação e maneiras de lidar com diferentes demandas. Esse processo pode reduzir a sensação de inadequação e favorecer uma relação mais consciente consigo mesmo, substituindo julgamentos por estratégias mais adequadas às características individuais”, explica o médico psiquiatra Alexandre Valverde. 

A fala do especialista é baseada na experiência particular. Valverde foi diagnosticado com Autismo e Altas Habilidades/Superdotação aos 42 anos. Com 17 anos, ingressou na Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo. Desde pequeno, já notava sua facilidade em identificar os comportamentos humanos. O sexto médico psiquiatra da família dedica-se atualmente a auxiliar seus pacientes no processo de autoconhecimento a partir da Psiquiatria, psicoterapia e expressões artísticas como dança, teatro, fotografia, pintura e jardinagem.

 

Uma nova vida 

O diagnóstico não deve ser visto apenas como uma explicação para o passado, mas como uma possibilidade de construir novas formas de conduzir a vida no presente. Hoje, adultos autistas podem contar com intervenções e estratégias individualizadas, desenvolvidas com o acompanhamento de psiquiatras, psicólogos, neuropsicólogos e outros especialistas, que podem auxiliar na organização da rotina, no manejo de dificuldades emocionais e sociais, na adaptação do ambiente e no desenvolvimento de recursos para lidar com situações desafiadoras. 

“Além dos benefícios individuais, o diagnóstico pode repercutir positivamente na dinâmica familiar. Quando pais identificam características semelhantes às de um filho diagnosticado com TEA ou TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), por exemplo, o processo de avaliação pode ampliar a compreensão sobre as necessidades de cada integrante da família. Esse olhar mais atento favorece relações mais ajustadas, comunicação mais clara e estratégias que considerem as particularidades de adultos e crianças”, pontua Alexandre. 

Mais do que estabelecer um diagnóstico, reconhecer uma condição como o TEA pode representar um importante instrumento de compreensão, autoconhecimento e cuidado. Mesmo quando essa descoberta acontece após muitos anos de dúvidas e desafios, ela pode abrir caminho para intervenções mais direcionadas, estratégias de manejo e escolhas que respeitem as características, necessidades e potencialidades de cada pessoa. 

“Receber um diagnóstico de TEA na vida adulta não representa ter chegado tarde, mas, sim, a oportunidade de contar com novas informações e recursos para compreender a própria trajetória, ampliar a qualidade de vida e construir formas mais conscientes e adequadas de lidar com os desafios do cotidiano”, acrescenta Valverde.



Alexandre Valverde - Médico Psiquiatra. Foi diagnosticado com Autismo e Altas Habilidades/Superdotação após adulto. Ingressou, aos 17 anos, na faculdade de medicina psiquiátrica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Desde pequeno, já notava a facilidade que possuía em identificar comportamentos em terceiros, sendo o sexto psiquiatra da família. Atualmente, Alexandre atende os pacientes em seu consultório de forma presencial e remota. Ele procura auxiliar no processo de cura e conhecimento, procurando tornar o caminho leve e empático com as pessoas que o procuram, para isso, ele utiliza os métodos da psiquiatria e também artísticos como danças, teatro, fotografia e pinturas.
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Estrogênio e progesterona na menopausa: dois hormônios essenciais, mas com funções diferentes

 

Especialista explica por que a terapia hormonal precisa considerar as necessidades individuais de cada mulher e o papel de cada hormônio no tratamento.

 

A transição para o fim da vida fértil afeta de forma direta o bem-estar e a saúde feminina, atingindo cerca de 80% das mulheres no Brasil com sintomas como ondas de calor intensas, insônia e oscilações severas de humor, segundo dados da Associação Brasileira de Climatério (Sobrac). Diante desse cenário, a busca por tratamentos que aliviem os desconfortos da menopausa traz à tona um debate constante nos consultórios: a diferença crucial entre a atuação do estrogênio e da progesterona na terapia de reposição hormonal.

 

Embora muitas pessoas tratem o tratamento como uma fórmula única e padronizada, o equilíbrio entre as duas substâncias exige uma análise minuciosa da anatomia e do histórico de saúde de cada paciente. O primeiro elemento atua como o principal responsável por combater as alterações vasomotoras, preservar a massa óssea, proteger o sistema cardiovascular e manter a lubrificação dos tecidos. No entanto, sua ação precisa ser cuidadosamente monitorada para evitar complicações estruturais.

 

"O estrogênio é a substância que devolve a vitalidade e alivia aqueles sintomas clássicos que tanto impactam a rotina e a autoestima da mulher. No entanto, quando ele é administrado isoladamente em quem ainda possui o útero, ocorre um estímulo contínuo no revestimento interno do órgão, o que pode aumentar significativamente o risco de desenvolvimento de hiperplasia e de neoplasias na região", pontua o ginecologista Dr. Zarnowski, especialista em endometriose.

 

É exatamente para conter essa proliferação celular que a progesterona entra na prescrição médica. A combinação adequada dos dois componentes garante que o tecido uterino permaneça protegido e saudável, permitindo que a paciente aproveite todos os benefícios sistêmicos da terapia sem colocar a saúde em risco. Já as mulheres que passaram por procedimentos cirúrgicos para a remoção do órgão, por outro lado, costumam seguir protocolos distintos, nos quais o uso do protetor endometrial nem sempre se faz necessário.

 

Essa diferenciação anatômica reforça a importância de fugir de soluções genéricas ou de orientações baseadas no relato de terceiros. A escolha da via de administração, seja por meio de géis, adesivos transdérmicos ou comprimidos orais , bem como a definição das dosagens exatas, deve levar em consideração fatores como idade, tempo de início dos sintomas, histórico familiar de doenças crônicas e até a presença de condições ginecológicas prévias.

 

"Cada organismo responde de maneira única às oscilações e à queda na produção hormonal. Não existe uma receita pronta ou um tratamento universal para essa fase da vida. O verdadeiro segredo da medicina personalizada está em entender detalhadamente a necessidade de cada corpo, ajustando as combinações e as dosagens com critério para garantir total segurança e qualidade de vida a longo prazo", conclui o médico.

 



Fonte: Dr. Michael Zarnowski — Ginecologista especialista em Endometriose
@drmichaelzarnowski


Violência contra médicos cresce 68% em uma década e acende alerta para saúde mental dos profissionais

   Com 12 agressões por dia, insegurança nos serviços de saúde impacta a saúde mental dos profissionais e motiva projetos de lei com penas mais rígidas. 

 

A violência nos ambientes de saúde ganhou destaque com um levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM), que mostrou que o volume de agressões contra médicos aumentou 68% na última década, evidenciando condições precárias de segurança em locais destinados justamente ao cuidado e à preservação da vida. 

 

Em 2024, foram registrados 4.562 boletins de ocorrência relacionados a episódios de violência contra médicos, o equivalente a cerca de 12 casos por dia, ou um registro a cada duas horas. Segundo o CFM, trata-se do maior número da série histórica analisada. Ainda no período, além das ocorrências presenciais, 256 registros, correspondentes a 6% do total, envolveram calúnia, injúria, difamação e ameaças praticadas contra médicos na internet, em redes sociais ou aplicativos de mensagens.

 

O médico e professor de psiquiatria da Afya Faculdade de Medicina de Itajubá, Dr Jorge Tostes, explica que a exposição frequente a ameaças, agressões e situações de violência durante o atendimento pode afetar a saúde mental dos médicos tanto no curto quanto no médio e longo prazo. 

 

“O estresse e o trauma também podem levar ao burnout, com irritabilidade, maior reatividade emocional e comportamental ou, ao contrário, distanciamento e frieza nas relações pessoais e com os pacientes. Por fim, o estresse crônico, o sentimento de vulnerabilidade e a ansiedade recorrente podem culminar em outros transtornos mentais e doenças físicas, como depressão e abuso de álcool, drogas e medicamentos”.

 

Alinhado com o especialista, o estudo “Qualidade de Vida dos Médicos”, divulgado no ano passado pela Afya, mostrou que 45% dos médicos apresentam algum transtorno de saúde mental A ansiedade aparece entre os principais problemas relatados pelos profissionais entrevistados: cerca de 40% dos médicos participantes declararam ter diagnóstico do transtorno, e 23,3% afirmaram ter apresentado sintomas nos 12 meses anteriores à pesquisa. O levantamento também apontou que 58,2% já vivenciaram algum grau de esgotamento relacionado ao trabalho.

 

Dr. Jorge Tostes destaca que, em ambientes médicos como os prontos-socorros, o nível de estresse já é elevado. “Lidar com vidas em risco é difícil, especialmente em serviços lotados, com poucos profissionais e recursos escassos. Nesse contexto, a sensação de insegurança, pressão e vulnerabilidade pode agravar problemas de saúde mental, como ansiedade, depressão e burnout. Entre os sinais de alerta estão irritabilidade, reações desproporcionais de raiva, desatenção, erros em situações simples, distanciamento emocional, sentimentos de inutilidade e culpa, além de cansaço constante e sono inadequado”, complementa o médico psiquiatra.

 

Novas leis de apoio ao médico 

 

O Senado Federal aprovou no mês passado o Projeto de Lei nº 2.672/2025 que prevê o endurecimento das penas para crimes cometidos contra profissionais da saúde e da educação no exercício de suas funções ou em razão delas. Como o texto foi alterado pelos senadores, a matéria retornará à Câmara dos Deputados para nova análise.

 

A advogada e coordenadora de Direito da Afya Sete Lagoas, Dra Tereza Cristina Sader Vilar, informa que o texto aprovado pelo Senado prevê o aumento das penas para lesão corporal, ameaça, crimes contra a honra, constrangimento ilegal, incitação ao crime e desacato, além de mudanças importantes para os casos de homicídio e lesão corporal grave ou seguida de morte contra profissionais da saúde.

 

“Há ainda uma mudança de grande relevância: nas circunstâncias previstas, esses crimes passam a ser tratados como hediondos, ou seja, recebem um tratamento penal mais rigoroso. Mas é importante ressaltar que o endurecimento penal não substitui políticas de segurança, prevenção e gestão de conflitos dentro dos estabelecimentos de saúde”.

 

De acordo com o CFM, desde 2013, foram contabilizados quase 40 mil boletins de ocorrência envolvendo médicos vítimas de ameaça, injúria, desacato, lesão corporal, difamação, furto e outros crimes em ambientes de saúde. A dimensão do problema também aparece na distribuição regional dos registros. São Paulo concentrou 832 boletins de ocorrência em 2024, seguido pelo Paraná, com 767 casos. Minas Gerais apareceu na terceira posição entre os estados com maior número de registros.

 

A advogada ressalta que a primeira orientação é não apagar nada e não responder impulsivamente. Em situações de ameaça, agressão ou ofensa virtual, é fundamental preservar as provas, fazer capturas de tela e guardar mensagens, links, vídeos, áudios, nomes de usuários, datas e horários. 


“Em caso de agressão física, o profissional deve procurar atendimento médico, documentar a lesão e registrar o boletim de ocorrência. E, principalmente, não entre em uma discussão pública com o agressor. O profissional deve deixar a investigação e a responsabilização para os canais adequados”, conclui.



5 sinais de que sua rotina está fazendo mal à sua saúde mental e o que fazer

Especialista da Starbem explicam como identificar quando o cansaço deixa de ser pontual e começa a afetar sono, relações, produtividade e qualidade de vida

 

Nem sempre o adoecimento emocional começa com uma crise. Muitas vezes, ele aparece de maneira silenciosa, incorporado à rotina até que determinados comportamentos passem a parecer normais: acordar cansado todos os dias, perder a paciência com facilidade, não conseguir se concentrar, deixar de encontrar amigos ou sentir que nunca existe tempo suficiente para descansar. 

Em uma rotina marcada por excesso de estímulos, pressão por produtividade e dificuldade de desconexão, distinguir um período de cansaço de sinais de sofrimento emocional pode ser um desafio. Segundo Ticiana Paiva, doutora em Psicologia e Head de Psicologia da Starbem, um dos principais pontos de atenção é observar quando uma mudança de comportamento começa a comprometer diferentes áreas da vida. 

“Nem todo período difícil significa que alguém está adoecendo. O alerta aparece quando o desconforto deixa de ser pontual e começa a modificar a forma como a pessoa dorme, trabalha, se relaciona e aproveita a própria vida”, explica.

 

1. Você acorda cansado mesmo depois de dormir

O primeiro sinal pode parecer exclusivamente físico, mas o cansaço persistente também pode estar relacionado à sobrecarga emocional. Dificuldade para relaxar, pensamentos acelerados e preocupações constantes podem prejudicar a recuperação proporcionada pelo sono.


2. Pequenas coisas começam a provocar irritação

Quando a tolerância diminui e situações corriqueiras passam a provocar reações desproporcionais, vale observar o contexto. A irritabilidade pode ser uma manifestação de sobrecarga emocional.


3. Você começa a se afastar das pessoas

Recusar constantemente convites, deixar de responder mensagens ou perder o interesse em atividades que antes proporcionavam prazer pode indicar que a rotina está cobrando um preço emocional.


4. A concentração desaparece

Esquecer compromissos, ter dificuldade para terminar tarefas ou sentir que a cabeça está sempre ocupada podem ser sinais de que o excesso de demandas está ultrapassando a capacidade de recuperação.


5. Você não consegue mais “desligar”

Mesmo longe do trabalho, a pessoa continua pensando em problemas, respondendo mensagens mentalmente ou planejando o dia seguinte. O corpo pode estar parado, mas o cérebro continua funcionando em modo de alerta. 

Para Ticiana, identificar esses sinais não significa necessariamente concluir que existe um transtorno. O objetivo é perceber mudanças antes que elas se tornem maiores. “O cuidado começa quando a pessoa consegue reconhecer que alguma coisa mudou. A pergunta não deve ser apenas ‘eu estou dando conta?’, mas também ‘qual é o preço que estou pagando para dar conta?’”, afirma. 

Entre as estratégias que podem ajudar estão recuperar horários de sono, estabelecer limites de disponibilidade, retomar atividades prazerosas, reduzir estímulos e manter vínculos sociais. Quando os sinais persistem ou passam a interferir significativamente na vida, a recomendação é buscar avaliação profissional.


Depressão nutricional: como a falta de nutrientes pode afetar o humor e a disposição?

Deficiências de vitaminas e minerais podem contribuir para sintomas como cansaço, desânimo e falta de energia; endocrinologista explica como nutrientes participam da produção de neurotransmissores e por que a investigação deve considerar todo o organismo.


Cansaço persistente, desânimo, dificuldade de concentração, irritabilidade e falta de energia costumam ser associados imediatamente à depressão ou ao excesso de estresse. Embora esses sintomas mereçam atenção à saúde mental, eles também podem aparecer quando o organismo enfrenta carências de vitaminas, minerais e aminoácidos envolvidos no metabolismo energético e no funcionamento do sistema nervoso.

 

A depressão é uma condição complexa que atinge cerca de 5,7% dos adultos no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Fatores genéticos, sociais, emocionais, ambientais e biológicos podem participar do quadro. Por isso, a expressão “depressão nutricional” não corresponde a um diagnóstico médico, mas pode chamar atenção para alterações nutricionais e metabólicas capazes de provocar ou agravar manifestações semelhantes.

 

Segundo o endocrinologista e metabologista Dr. Rafael Fantin, os nutrientes atuam na síntese, na liberação e no metabolismo dos neurotransmissores, substâncias relacionadas à regulação do humor, da energia, da motivação, da concentração e do sono. “Isso não significa substituir o tratamento psiquiátrico, mas ampliar a avaliação. Se investigamos apenas os neurotransmissores e desconsideramos o ambiente metabólico e nutricional necessário para seu funcionamento, podemos estar observando somente uma parte do problema”, explica.

 

Entre os neurotransmissores relacionados à disposição estão a dopamina, associada à motivação e à energia, e a noradrenalina, que participa dos mecanismos de foco e atenção. A produção dessas substâncias depende de aminoácidos obtidos pela alimentação e de diferentes nutrientes que auxiliam as reações do organismo.

 

Ferro e vitaminas B6, B9 e B12 estão entre os nutrientes que participam dessas vias. A vitamina D também exerce funções no sistema nervoso. Quando existem deficiências reais, podem surgir fadiga, fraqueza, alterações cognitivas e queda da disposição. A falta de ferro, por exemplo, pode comprometer o transporte de oxigênio e provocar anemia, enquanto a deficiência de vitamina B12 pode estar associada a cansaço, formigamentos, problemas de memória e outras alterações neurológicas.

 

A diferenciação entre uma carência nutricional, depressão e outras condições começa por uma avaliação clínica detalhada. Alterações da tireoide, distúrbios do sono, anemia, processos inflamatórios, problemas intestinais e outras disfunções endócrinas ou metabólicas podem compartilhar sintomas. Acontecimentos como luto, demissão, separação e períodos de estresse intenso também podem afetar o estado emocional.

 

“Na maioria das vezes, não encontramos uma única causa. O paciente pode apresentar fatores nutricionais, hormonais, metabólicos, emocionais e ambientais atuando simultaneamente. Precisamos identificar essas alterações, corrigi-las quando necessário e acompanhar a resposta antes de ampliar a investigação”, afirma Rafael Fantin.

 

Conforme o histórico e os sintomas, podem ser avaliados níveis de ferro, zinco, magnésio e vitaminas D, C e do complexo B. Em situações específicas, o médico também pode solicitar um aminograma para observar aminoácidos circulantes, como triptofano, fenilalanina, tirosina e glutamina, que funcionam como matérias-primas para diferentes vias do organismo.

 

O especialista ressalta, entretanto, que nenhum desses resultados revela isoladamente quanto neurotransmissor está sendo produzido no cérebro. “O exame precisa ser interpretado em conjunto com os sintomas, a alimentação, a absorção intestinal, as medicações utilizadas e as demais condições clínicas. Um resultado fora da referência não explica sozinho o estado emocional de uma pessoa”, esclarece.

 

A suplementação por conta própria também pode provocar novos desequilíbrios. Doses elevadas de zinco por períodos prolongados podem reduzir a absorção de cobre. O excesso de ferro pode se acumular nos tecidos, enquanto a utilização inadequada de vitamina D pode causar complicações relacionadas ao aumento do cálcio no sangue. Mesmo vitaminas do complexo B devem ser avaliadas de maneira conjunta, de acordo com a necessidade individual.

 

“Não é verdade que, quanto maior a quantidade de nutrientes, melhor será o resultado. Precisamos identificar o que realmente está em falta, escolher a dose adequada e definir por quanto tempo a reposição será necessária. Misturar várias substâncias indiscriminadamente pode resultar em alto custo, baixa resposta e risco de novos problemas”, alerta.

 

Além da suplementação, quando indicada, o tratamento deve investigar a qualidade da alimentação e possíveis dificuldades de absorção. Cirurgias bariátricas, doenças intestinais, dietas muito restritivas e o uso prolongado de alguns medicamentos podem interferir no aproveitamento dos nutrientes. A saúde intestinal também participa dessa avaliação por sua relação com a absorção, a microbiota, a inflamação e a comunicação entre intestino e cérebro.

 

Para Rafael Fantin, o cuidado precisa incluir ainda sono adequado, atividade física, controle do estresse e da ansiedade, alimentação variada e acompanhamento da saúde metabólica e emocional. “Corrigir uma carência pode melhorar a disposição quando ela faz parte da origem dos sintomas, mas vitaminas não substituem o tratamento da depressão. O objetivo é compreender todos os fatores envolvidos e oferecer um cuidado completo, individualizado e seguro”, conclui. 

 



Fonte: Dr. Rafael Fantin — Endocrinologista e Metabologista, especialista em saúde integrada, performance metabólica e nutrigenômica.
@dr.rafaelfantin

 

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