O Índice de Desenvolvimento da Educação
Básica (Ideb) do ensino médio da rede pública estadual chegou a 4,3 em 2025, o
melhor resultado da série histórica do indicador. Esse número, porém, mistura
em um único cálculo todos os modelos de jornada escolar do país, dos modelos
regulares aos de tempo integral. Quando olhamos para dentro dele, aparece um
dado que merece mais atenção do que recebeu até agora: as escolas 100%
integrais, com jornada de 9 horas diárias, atingiram Ideb de 4,9 em 2025, o maior
patamar registrado nos últimos anos.
Isso acontece em um momento em que
essas escolas estão deixando de ser exceção e se tornando acessíveis a um maior
número de estudantes brasileiros. Hoje, 20,6% das matrículas do ensino médio no
Brasil já são em escolas com jornada 100% integral, ou seja, 1 a cada 5
estudantes já têm acesso a uma política pública considerada essencial para o
desenvolvimento do Brasil. A escola que era pontual há poucos anos, hoje atende
parcela relevante de uma geração inteira e, mesmo assim, segue entregando o
melhor resultado de aprendizagem do sistema. É esse crescimento, com qualidade
sustentada em escala, que precisa entrar no centro do debate sobre o Ideb 2025,
não apenas a média nacional.
Aprofundando nos números, é possível
visualizar o que eles representam na prática. As escolas 100% integrais
registraram as maiores notas de proficiência em Língua Portuguesa (288,4) e
Matemática (286,2) do Saeb 2025, com diferença de 14,2 e 17,6 pontos, respectivamente,
em relação às escolas parciais. Esses dados nos mostram que um estudante onde
todas as turmas estão em tempo integral de 9h aprende o equivalente a 2,8 anos
a mais do que um estudante da escola parcial, considerando a média de Língua
Portuguesa e Matemática. E essa é uma diferença de trajetória educacional que
move os caminhos da formação dos nossos jovens.
Mesmo diante do avanço, sabemos que
ainda há muito a ser feito, o que significa que a recomposição das
aprendizagens perdidas nos últimos anos é uma estratégia estrutural que as
redes de ensino vão precisar sustentar por vários anos. E é aqui que o tempo
integral se torna insubstituível. Não existe recomposição de aprendizagem sem
tempo pedagógico disponível para fazê-la acontecer. A escola que tem poucas
horas por dia já usa todo esse tempo para cumprir o currículo mínimo. A escola
de tempo integral tem a jornada necessária para, ao mesmo tempo, avançar no
currículo e recuperar o que ficou para trás.
E os benefícios vão além: a escola 100%
integral também registra a menor taxa de abandono do país: 1,3%, o que
representa 2 vezes menor do que nas escolas parciais. Um estudante que não
abandona a escola trilha um caminho inteiramente diferente do de um colega que
sai do sistema no meio do processo, e essa diferença não cabe em uma única nota
de proficiência.
Com isso, é justo afirmar que o Ensino
Médio Integral, quando implementado com qualidade, entrega mais aprendizagem,
mas também um valor que não é medido pelos índices. Esse impacto extrapola o
que as avaliações podem medir, como a redução de até 51% na taxa de homicídios
de jovens entre 15 e 19 anos, a redução de até 114 casos de gravidez na
adolescência a cada mil novas matrículas no EMI e o aumento de 17 pontos
percentuais de chance de egressos do EMI ingressarem no ensino superior.
Ademais, a renda média de um estudante do tempo integral, depois de formado, é
14% maior.
Qualidade que não
depende da renda do estado
A expansão do tempo integral no Brasil
não aconteceu de maneira uniforme e é exatamente essa desigualdade de ponto de
partida que torna o resultado de 2025 ainda mais relevante. Os dados mostram
algo que contraria uma expectativa comum: o resultado do Ensino Médio Integral
não está restrito aos estados com mais recursos.
Estados com PIB per capita mais baixo,
como Ceará, Piauí e Pernambuco, registraram notas médias de Ideb nas escolas
100% integrais acima da média nacional, alcançando 5,1, 5,0 e 4,9
respectivamente. Esse desempenho supera o de estados com muito mais capacidade
econômica, que figuram entre os estados com piores resultados de aprendizagem
do Ensino Médio.
O caso do Piauí é o que mais chama
atenção nesse cenário. O estado universalizou o Ensino Médio Integral no último
ano, tornando a política uma regra, e não a exceção, em sua rede. Mesmo
partindo de um contexto econômico mais desafiador em comparação aos demais
estados observados, alcançou nota 5,0 nas escolas 100% integrais em 2025. Esse
resultado não é um acaso. É consequência de um investimento contínuo em
educação de qualidade, sustentado ao longo do tempo, e mostra que a expansão
consistente do tempo integral depende também de escolhas e prioridades de
política pública, e não apenas da disponibilidade de recursos.
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| Ideb 2025 das escolas 100% integrais por estado, cruzado com PIB per capita. Fonte: Inep, Ideb 2025; IBGE, Contas Regionais 2023 |
Pernambuco e Ceará também mostram que
esse resultado não veio de uma experiência pontual em poucas unidades. Estes
estados já expandiram a oportunidade de acesso ao ensino médio em uma escola
100% integral para cerca de 40 mil estudantes cada, o que evidencia capacidade
de sustentar qualidade mesmo em escala.
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| Ideb 2025 por tipo de escola (100% integral x parcial/regular) e PIB per capita. Fonte: Inep, Ideb 2025; IBGE, Contas Regionais 2023 |
Diante desse cenário, a pergunta que temos repetido nos últimos anos, se o tempo integral funciona, já vem sendo respondida pelas evidências e pelos próprios números do Ideb 2025. A pergunta que interessa ao Brasil agora é saber quais critérios vamos usar para acompanhar a qualidade dessa política enquanto ela continua chegando a mais estudantes, em mais estados, com pontos de partida muito diferentes entre si.
O Ideb é a bússola que confirma que o tempo integral segue na direção
certa. É importante somar a esse dado as dificuldades de cada território e a
distância que ainda falta percorrer. O próximo capítulo dessa política é
garantir que a qualidade da implementação e a integralidade da proposta avancem
junto com a expansão da política.
Ana Paula Pereir - Diretora Executiva do Instituto Sonho Grande
Maria Slemenson - Superintendente do Instituto Natura Brasil


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