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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Muito além da nota: o que o Ideb não consegue medir sobre o ensino integral


O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do ensino médio da rede pública estadual chegou a 4,3 em 2025, o melhor resultado da série histórica do indicador. Esse número, porém, mistura em um único cálculo todos os modelos de jornada escolar do país, dos modelos regulares aos de tempo integral. Quando olhamos para dentro dele, aparece um dado que merece mais atenção do que recebeu até agora: as escolas 100% integrais, com jornada de 9 horas diárias, atingiram Ideb de 4,9 em 2025, o maior patamar registrado nos últimos anos. 

Isso acontece em um momento em que essas escolas estão deixando de ser exceção e se tornando acessíveis a um maior número de estudantes brasileiros. Hoje, 20,6% das matrículas do ensino médio no Brasil já são em escolas com jornada 100% integral, ou seja, 1 a cada 5 estudantes já têm acesso a uma política pública considerada essencial para o desenvolvimento do Brasil. A escola que era pontual há poucos anos, hoje atende parcela relevante de uma geração inteira e, mesmo assim, segue entregando o melhor resultado de aprendizagem do sistema. É esse crescimento, com qualidade sustentada em escala, que precisa entrar no centro do debate sobre o Ideb 2025, não apenas a média nacional. 

Aprofundando nos números, é possível visualizar o que eles representam na prática. As escolas 100% integrais registraram as maiores notas de proficiência em Língua Portuguesa (288,4) e Matemática (286,2) do Saeb 2025, com diferença de 14,2 e 17,6 pontos, respectivamente, em relação às escolas parciais. Esses dados nos mostram que um estudante onde todas as turmas estão em tempo integral de 9h aprende o equivalente a 2,8 anos a mais do que um estudante da escola parcial, considerando a média de Língua Portuguesa e Matemática. E essa é uma diferença de trajetória educacional que move os caminhos da formação dos nossos jovens. 

Mesmo diante do avanço, sabemos que ainda há muito a ser feito, o que significa que a recomposição das aprendizagens perdidas nos últimos anos é uma estratégia estrutural que as redes de ensino vão precisar sustentar por vários anos. E é aqui que o tempo integral se torna insubstituível. Não existe recomposição de aprendizagem sem tempo pedagógico disponível para fazê-la acontecer. A escola que tem poucas horas por dia já usa todo esse tempo para cumprir o currículo mínimo. A escola de tempo integral tem a jornada necessária para, ao mesmo tempo, avançar no currículo e recuperar o que ficou para trás. 

E os benefícios vão além: a escola 100% integral também registra a menor taxa de abandono do país: 1,3%, o que representa 2 vezes menor do que nas escolas parciais. Um estudante que não abandona a escola trilha um caminho inteiramente diferente do de um colega que sai do sistema no meio do processo, e essa diferença não cabe em uma única nota de proficiência. 

Com isso, é justo afirmar que o Ensino Médio Integral, quando implementado com qualidade, entrega mais aprendizagem, mas também um valor que não é medido pelos índices. Esse impacto extrapola o que as avaliações podem medir, como a redução de até 51% na taxa de homicídios de jovens entre 15 e 19 anos, a redução de até 114 casos de gravidez na adolescência a cada mil novas matrículas no EMI e o aumento de 17 pontos percentuais de chance de egressos do EMI ingressarem no ensino superior. Ademais, a renda média de um estudante do tempo integral, depois de formado, é 14% maior.
 

Qualidade que não depende da renda do estado

A expansão do tempo integral no Brasil não aconteceu de maneira uniforme e é exatamente essa desigualdade de ponto de partida que torna o resultado de 2025 ainda mais relevante. Os dados mostram algo que contraria uma expectativa comum: o resultado do Ensino Médio Integral não está restrito aos estados com mais recursos. 

Estados com PIB per capita mais baixo, como Ceará, Piauí e Pernambuco, registraram notas médias de Ideb nas escolas 100% integrais acima da média nacional, alcançando 5,1, 5,0 e 4,9 respectivamente. Esse desempenho supera o de estados com muito mais capacidade econômica, que figuram entre os estados com piores resultados de aprendizagem do Ensino Médio.  

O caso do Piauí é o que mais chama atenção nesse cenário. O estado universalizou o Ensino Médio Integral no último ano, tornando a política uma regra, e não a exceção, em sua rede. Mesmo partindo de um contexto econômico mais desafiador em comparação aos demais estados observados, alcançou nota 5,0 nas escolas 100% integrais em 2025. Esse resultado não é um acaso. É consequência de um investimento contínuo em educação de qualidade, sustentado ao longo do tempo, e mostra que a expansão consistente do tempo integral depende também de escolhas e prioridades de política pública, e não apenas da disponibilidade de recursos. 



 Ideb 2025 das escolas 100% integrais por estado, cruzado com PIB per capita. Fonte: Inep, Ideb 2025; IBGE, Contas Regionais 2023


Pernambuco e Ceará também mostram que esse resultado não veio de uma experiência pontual em poucas unidades. Estes estados já expandiram a oportunidade de acesso ao ensino médio em uma escola 100% integral para cerca de 40 mil estudantes cada, o que evidencia capacidade de sustentar qualidade mesmo em escala.

Ideb 2025 por tipo de escola (100% integral x parcial/regular) e PIB per capita. Fonte: Inep, Ideb 2025; IBGE, Contas Regionais 2023

Diante desse cenário, a pergunta que temos repetido nos últimos anos, se o tempo integral funciona, já vem sendo respondida pelas evidências e pelos próprios números do Ideb 2025. A pergunta que interessa ao Brasil agora é saber quais critérios vamos usar para acompanhar a qualidade dessa política enquanto ela continua chegando a mais estudantes, em mais estados, com pontos de partida muito diferentes entre si. 

O Ideb é a bússola que confirma que o tempo integral segue na direção certa. É importante somar a esse dado as dificuldades de cada território e a distância que ainda falta percorrer. O próximo capítulo dessa política é garantir que a qualidade da implementação e a integralidade da proposta avancem junto com a expansão da política.
 



Ana Paula Pereir - Diretora Executiva do Instituto Sonho Grande

Maria Slemenson - Superintendente do Instituto Natura Brasil


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