Smartwatches conseguem identificar
alterações no ritmo cardíaco, mas especialista alerta que ignorar a notificação
ou tratá-la como um diagnóstico são dois erros comuns
“Ritmo cardíaco irregular
detectado.” O aviso aparece no relógio e a dúvida é quase imediata: meu coração
está com algum problema? Com a popularização dos smartwatches, alertas sobre
frequência cardíaca alta, baixa ou batimentos irregulares passaram a fazer
parte da rotina de muita gente. A tecnologia pode ajudar a perceber alterações
que antes passariam despercebidas, mas também criou um novo desafio: saber o
que fazer com essa informação.
Segundo o cirurgião cardíaco, Dr. Marcelo Sobral, presidente da Associação Brasileira de
Estimulação Cardíaca (ABEC), o primeiro ponto é não entrar em pânico, mas
também não ignorar notificações recorrentes. “O relógio pode perceber uma
alteração no ritmo cardíaco e dar um alerta importante, mas ele não fecha um
diagnóstico. Se esses avisos começam a se repetir, principalmente quando
aparecem junto com palpitação, tontura, falta de ar, fraqueza ou sensação de
desmaio, é importante procurar avaliação médica”, explica.
Os relógios mais modernos utilizam sensores para acompanhar os
batimentos e identificar padrões que fogem do esperado. Alguns modelos
conseguem inclusive registrar uma espécie de eletrocardiograma simplificado. Um
dos principais usos estudados é a identificação da fibrilação atrial, arritmia
caracterizada por batimentos irregulares e que pode aumentar o risco de
complicações como o AVC.
E os aparelhos têm mostrado bons resultados. Uma revisão publicada
em 2025 no JACC: Advances, que reuniu 26 estudos e mais de 17 mil
pacientes, encontrou sensibilidade de 95% e especificidade de 97% dos
smartwatches na identificação da fibrilação atrial. Os números mostram o
potencial da tecnologia, mas não significam que o relógio acerta sempre.
“Existe uma diferença entre o dispositivo identificar um padrão
suspeito e o médico confirmar que aquela pessoa realmente apresenta uma
arritmia. O relógio funciona como um sinal de atenção e pode fornecer
informações muito úteis, mas os dados precisam ser interpretados dentro do
contexto de cada paciente”, afirma Sobral.
Uma notificação isolada também não significa necessariamente que
exista uma doença cardíaca. Movimento durante a leitura, mau contato do sensor
com a pele e outras interferências podem prejudicar o registro. Da mesma forma,
a ausência de alertas não garante que esteja tudo bem, já que algumas arritmias
são intermitentes e podem não ser registradas pelo aparelho.
“Se a pessoa está sentindo o coração disparar ou bater de maneira
irregular, apresenta palpitações recorrentes, tontura, falta de ar ou episódios
de desmaio, ela não deve esperar o relógio confirmar que existe alguma coisa
errada. Sintoma é sintoma, independentemente do que aparece na tela”, alerta o especialista.
Quando as notificações se repetem, a orientação é guardar os
registros do aparelho e apresentá-los ao médico. Horário, frequência cardíaca e
eventuais traços feitos pelo smartwatch podem ajudar na investigação.
Dependendo do caso, exames como eletrocardiograma e Holter podem ser
necessários para confirmar ou descartar uma arritmia.
Para Sobral, a tecnologia é uma aliada quando utilizada da maneira
correta. “O smartwatch colocou informações sobre o coração no pulso de milhões
de pessoas e isso pode ajudar a perceber alterações mais cedo. Mas existe uma
regra simples: o relógio pode alertar, não diagnosticar. Se algo chamou atenção
ou existem sintomas, é hora de procurar avaliação médica”, conclui.
Associação Brasileira
de Estimulação Cardíaca - ABEC
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