"Feridas que
não cicatrizam, manchas na boca e dificuldade para engolir estão entre os
sinais de alerta; homens concentram a maioria dos casos e ainda chegam tarde ao
diagnóstico"
Uma ferida na boca que não cicatriza. Uma mancha
branca que apareceu na língua. Uma área avermelhada na gengiva que parece não
desaparecer. Um sangramento sem explicação. Para muita gente, esses sinais são
tratados como algo passageiro, uma afta, uma irritação ou consequência de uma
mordida. O problema é quando esses sintomas persistem.
O câncer de boca pode se manifestar inicialmente
por alterações que não provocam dor e que, justamente por isso, acabam sendo ignoradas.
No Brasil, a doença merece atenção especial entre os homens: segundo
estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2023-2025,
foram previstos 15.100 novos casos de câncer da cavidade oral por ano, sendo
10.900 em homens e 4.200 em mulheres.
Ou seja, aproximadamente 72% dos casos estimados
estão entre os homens. A diferença ajuda a explicar por que falar sobre saúde
bucal também é falar sobre prevenção masculina. E há outro agravante: o câncer
de boca está associado a fatores de risco que continuam presentes na população,
principalmente o tabagismo e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
“Um dos grandes desafios é fazer com que as
pessoas entendam que uma alteração na boca que persiste precisa ser examinada,
mesmo que não esteja doendo. O cirurgião-dentista pode identificar sinais que
merecem investigação e encaminhar o paciente para o profissional adequado.
Quanto antes uma alteração suspeita for percebida e investigada, melhor”,
afirma afirma Carla Sarni, cirurgiã-dentista e CEO da Sorridents.
O que observar dentro da própria boca
Diferentemente de algumas doenças em que o sintoma
mais evidente é a dor, o câncer de boca pode começar de maneira
silenciosa.
Segundo o INCA, os principais sinais e sintomas
que devem ser investigados incluem feridas na boca ou nos lábios que não
cicatrizam por mais de 15 dias, manchas ou placas vermelhas ou esbranquiçadas,
nódulos, sangramento sem causa conhecida, dor persistente, rouquidão e
dificuldade para falar, mastigar ou engolir.
Também podem ocorrer alterações como sensação de
algo preso na garganta, dificuldade para movimentar a língua ou aumento de
volume no pescoço. Isso não significa que uma afta ou uma mancha na boca seja
câncer. A maioria das alterações desse tipo tem outras causas. O ponto de
atenção é a persistência.
“Não é preciso entrar em pânico diante de uma afta
ou de uma alteração na boca. O que merece atenção é quando aquela lesão não
apresenta a evolução esperada. Se uma ferida permanece por mais de duas
semanas, por exemplo, não é recomendável simplesmente continuar esperando. É
importante procurar avaliação profissional”, explica Carla.
Por que os homens estão mais
expostos?
A incidência maior no público masculino está relacionada, entre outros
fatores, à maior exposição histórica a fatores de risco. O tabagismo é o
principal fator de risco para o câncer de boca. O consumo de bebidas alcoólicas
também aumenta o risco e, quando associado ao tabaco, potencializa esse
efeito. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabaco mata mais
de 8 milhões de pessoas por ano no mundo e é responsável por uma parcela
importante das mortes por câncer. A organização também aponta que o consumo de
álcool está associado a diversos tipos de câncer, incluindo os da cavidade
oral.
No Brasil, o cenário do tabagismo mudou
significativamente nas últimas décadas, mas o problema ainda está longe de
desaparecer. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, do IBGE, mostraram
que 12,8% dos adultos brasileiros com 18 anos ou mais eram usuários de produtos
derivados do tabaco.
O álcool também merece atenção. De acordo com a
mesma pesquisa, 26,4% dos adultos haviam consumido bebida alcoólica uma ou mais
vezes por semana. “O câncer de boca não deve ser visto apenas como uma
doença relacionada ao cigarro. Existem vários fatores envolvidos. Mas tabaco e
álcool são dois fatores de risco importantes e que podem ser modificados.
Quando falamos de prevenção, precisamos justamente olhar para aquilo que está
sob o controle da pessoa e, ao mesmo tempo, não deixar de investigar alterações
que aparecem”, afirma a cirurgiã-dentista.
A dor pode não ser o primeiro
sinal
Um dos motivos que tornam o câncer de boca particularmente preocupante
é a possibilidade de a doença evoluir inicialmente sem sintomas intensos. Uma
revisão publicada no periódico Cancers, que analisou fatores
relacionados ao diagnóstico tardio de câncer oral, aponta que a demora do
paciente em procurar atendimento diante dos primeiros sinais está entre os
fatores que podem contribuir para o diagnóstico em estágios mais avançados.
É nesse ponto que a consulta odontológica de rotina ganha importância. Durante o exame clínico, o cirurgião-dentista observa dentes, gengivas, língua, assoalho da boca, palato, bochechas e outras estruturas da cavidade oral. Uma alteração suspeita pode ser identificada mesmo quando o paciente não procurou o profissional especificamente por causa dela.
Mas existe uma diferença importante entre
identificar uma alteração suspeita e diagnosticar câncer. O
cirurgião-dentista pode reconhecer sinais clínicos que exigem investigação e
encaminhar o paciente para avaliação especializada. A confirmação diagnóstica
depende de investigação médica e, quando indicada, de exames complementares e
análise anatomopatológica de material coletado por biópsia.
“É importante deixar claro que o papel do dentista
é identificar uma alteração que foge do padrão e encaminhar para investigação.
Não se trata de olhar uma lesão e afirmar que é câncer. O diagnóstico precisa
seguir o caminho adequado, com avaliação clínica, exames e, quando necessário,
biópsia. O que o acompanhamento odontológico permite é não deixar uma alteração
potencialmente importante passar despercebida”, ressalta a especialista.
O exame que começa com uma pergunta simples
Para o paciente, o exame pode parecer simples. Para o profissional, porém, envolve uma avaliação sistemática. Além de observar visualmente a cavidade oral, o dentista pode questionar há quanto tempo determinada alteração está presente, se houve mudança de tamanho ou aparência, se existe dor, sangramento ou dormência e quais são os hábitos do paciente relacionados a tabaco e álcool. Esse histórico é importante porque ajuda o profissional a diferenciar alterações comuns de situações que precisam de investigação.
E existe um detalhe que pode fazer diferença: a
boca pode ser examinada antes de apresentar sintomas. É por isso que consultas
odontológicas periódicas não devem ser vistas apenas como uma oportunidade para
tratar cáries, fazer limpeza ou avaliar a necessidade de algum procedimento
estético. “Uma consulta preventiva é também um momento de olhar para a
saúde bucal como um todo. O paciente pode chegar pensando em uma avaliação dos
dentes e o profissional encontrar uma alteração na mucosa que precisa ser
acompanhada. Isso não significa que toda consulta vai encontrar um problema,
mas significa que existe uma oportunidade de observar aquilo que o próprio
paciente talvez não consiga enxergar”, diz Carla.
Os cinco sinais que merecem
atenção
Embora nenhuma dessas manifestações signifique, isoladamente, que a pessoa tenha câncer, o aparecimento persistente deve motivar avaliação profissional:
- Ferida
que não cicatriza
Lesões na boca ou nos lábios que permanecem por mais de 15 dias precisam ser avaliadas. - Mancha
branca ou vermelha
Áreas esbranquiçadas ou avermelhadas na boca, especialmente quando persistentes, devem ser examinadas. - Sangramento
sem causa aparente
Sangramentos que não estejam associados a uma causa conhecida merecem investigação. - Nódulo
ou aumento de volume
Caroços ou áreas endurecidas na boca ou no pescoço devem ser avaliados. - Dificuldade
para mastigar, engolir ou falar
Alterações persistentes nessas funções podem ser sinais de que existe algo que precisa ser investigado.
Também merecem atenção sintomas como dormência na
boca ou nos lábios, dor persistente, rouquidão e sensação de algo preso na
garganta. Reduzir os principais fatores de risco é uma das estratégias mais
importantes para diminuir as chances de desenvolver câncer de boca.
Parar de fumar é uma delas. Evitar o consumo
excessivo de bebidas alcoólicas também. A combinação entre tabaco e álcool
merece atenção especial porque os efeitos dos dois fatores são potencializados
quando ocorrem juntos. A proteção dos lábios contra a exposição solar
também faz parte da prevenção, especialmente para pessoas que permanecem
frequentemente expostas ao sol. O câncer de lábio é considerado dentro do grupo
dos cânceres da cavidade oral e pode estar associado à exposição prolongada à
radiação ultravioleta.
Além disso, manter boa higiene bucal, ter
alimentação equilibrada e realizar consultas odontológicas periódicas ajudam a
preservar a saúde da boca e aumentam as oportunidades de identificar
alterações.
No entanto, não existe uma recomendação para que
toda a população assintomática seja submetida indiscriminadamente a exames
sofisticados para procurar câncer de boca. O principal instrumento no
consultório odontológico é o exame clínico, realizado de forma sistemática e
associado à avaliação do histórico do paciente.
O melhor momento para olhar pode ser antes do
sintoma, uma vez que o câncer de boca é uma doença que ainda chega tarde demais
aos serviços de saúde em parte dos casos. E quanto mais avançado o tumor no
momento do diagnóstico, mais complexa tende a ser a abordagem terapêutica.
Por isso, a prevenção não deveria começar quando
surge a dor. Para os homens, o recado ganha ainda mais força. A combinação
entre maior incidência, fatores de risco modificáveis e menor adesão histórica
ao acompanhamento preventivo cria uma equação que merece ser enfrentada com
informação.
A consulta odontológica, nesse contexto, não
substitui uma avaliação médica nem funciona como garantia de que um câncer será
descoberto precocemente. Mas pode ser uma importante porta de entrada para que
uma alteração suspeita seja percebida, investigada e encaminhada no tempo
adequado.
“Talvez a principal mensagem seja muito simples:
conhecer a própria boca e não ignorar mudanças persistentes. O dentista não
está ali apenas para tratar o que dói. Ele também está ali para observar,
orientar e encaminhar quando identifica algo que precisa de uma investigação
mais aprofundada”, conclui Carla.
A regra é simples: se uma alteração na boca
persiste, não espere ela doer para procurar ajuda.
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