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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Homem recorre ao INSS por depressão, após família perder tudo por ludopatia da esposa


Morador de Campinas, interior de São Paulo, ficou viúvo, com dois filhos para criar, sem nenhum patrimônio e com muitas dívidas deixadas em consequência da ludopatia da esposa.

Benefícios do INSS concedidos por vício em apostas cresceram 2.300%; procura por tratamento no SUS cresceu 140% em cinco anos.


Um morador de 45 anos e seus dois filhos, estão entre as milhares de vítimas dos jogos online. Quem enfrentava a ludopatia, vício incontrolável em jogos de azar e apostas, era a esposa dele, vítima da doença, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como transtorno mental. As apostas nas bets, consumiram o patrimônio da família, deixaram dívidas e a conta bancária zerada. A doença teve um desfecho trágico: a esposa e mãe não resistiu às perdas e foi encontrada sem vida.

 

O baque fez o viúvo apresentar quadro depressivo grave, ansiedade e dificuldades para dormir, sendo classificado no CID F32.2, episódio depressivo grave sem sintomas psicóticos. O  diagnóstico o levou a pedir ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) o auxílio por incapacidade, o antigo auxílio-doença. A família já fazia acompanhamento psicológico antes do falecimento da esposa, em razão do quadro de dependência dela. Depois do óbito, o viúvo e o filho menor seguem em tratamento, com acompanhamento psiquiátrico regular. “Hoje a família sobrevive com ajuda de parentes, enquanto aguardam a resposta do INSS sobre os benefícios que foram requeridos”, conta a Dra. Juliana Martins Rodrigues, advogada especialista em direito previdenciário, que acompanha o caso.


 

São Paulo tem o maior número de concessões relacionadas à ludopatia no país

 

A história não é isolada. O Brasil vive o que especialistas já chamam de epidemia silenciosa provocada pela explosão das plataformas de apostas online, as bets. Segundo o Ministério da Saúde, a procura por atendimento de saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS) relacionada a apostas cresceu quase 140% nos últimos cinco anos. O impacto também aparece nas perícias médicas do INSS. Levantamento do Instituto de Estudos Previdenciários (IEPREV), com base em dados do Ministério da Previdência Social e revelado inicialmente pelo Intercept Brasil, mostra que as concessões de auxílio por incapacidade temporária ligadas à ludopatia, transtorno reconhecido pela OMS, cresceram mais de 2.300% entre junho de 2023 e abril de 2025. São Paulo concentra o maior número de concessões relacionadas à ludopatia no país, com 95 dos 276 casos, seguido por Minas Gerais, com 39.


 

Como requerer o benefício

 

Para a advogada Dra. Juliana, provar a ligação entre o vício em apostas de um familiar e o dano sofrido por quem convive com ele exige documentação médica contínua, e não apenas o relato do paciente. "Como a família já seguia em acompanhamento psicológico, inicialmente em decorrência do quadro de saúde da esposa, depois do óbito o viúvo seguiu em tratamento, assim como o filho menor. Com isso, os médicos que o acompanham fornecem o laudo de afastamento para o trabalho", explica.

A perícia do INSS não avalia o vício em si, mas a incapacidade que ele causa. "É necessário comprovar, por meio de laudos e documentos médicos, que a pessoa se encontra incapaz para o trabalho, de forma temporária ou definitiva. O que gera direito ao afastamento é a existência, ou não, dessa incapacidade", afirma.

 

A advogada previdenciária reconhece, no entanto, que pedidos motivados por transtornos psiquiátricos costumam encontrar mais resistência do INSS do que incapacidades físicas. "Não é uma patologia visível. O médico perito precisa fazer uma perícia humana, com sensibilidade para extrair do paciente as informações necessárias para o afastamento, o que infelizmente nem sempre ocorre na prática", diz.

 

Para quem enfrenta uma situação semelhante e pretende requerer o benefício, a recomendação da advogada é reunir documentação médica desde o início. "Primeiro, é necessário ter laudo médico indicando a incapacidade, validado por um profissional habilitado. O próximo passo é reunir documentos que demonstrem o tratamento realizado, seja medicamentoso, psicológico ou em grupo de apoio. Isso vai reforçar o afastamento que o médico emitirá", orienta.



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