Especialista da Mind Makers destaca a importância do desenvolvimento de habilidades como letramento digital e pensamento computacional para preparar crianças e adolescentes para um mundo cada vez mais conectado
O avanço da Inteligência Artificial (IA) e das plataformas digitais tem ampliado as discussões sobre as competências necessárias para crianças e adolescentes em um mundo cada vez mais conectado. A ferramenta já faz parte da rotina de 65% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos que usam a internet, segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, apurada pelo CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil). E ainda: 59% usam IA para pesquisas escolares. Nesse cenário, alfabetizar no século XXI deve considerar mais do tradicional “bê-a-bá” de ler e escrever: é preciso também desenvolver o letramento digital, a capacidade de compreender, avaliar e utilizar de forma crítica as informações disponíveis nas redes.
Segundo Victor Haony, assessor pedagógico da Mind Makers, o conceito de letramento digital não deve ser confundido apenas com o domínio de ferramentas de informática. “Estamos em uma era digital, em que, ao nascer, a criança já está imersa em tecnologias, telas e fontes de informações das mais diversas. Esse estímulo precisa ser controlado e ensinado desde a infância”, explica.
Para o especialista, duas competências são fundamentais nesse processo: o pensamento computacional - habilidade de decompor problemas, identificar padrões, organizar informações, criar sequências de passos e testar soluções - e o letramento digital. Enquanto o primeiro está relacionado à construção de soluções eficazes para problemas complexos, o segundo envolve o uso da tecnologia de maneira crítica e analítica. “São essas as duas competências fundamentais que precisamos desenvolver com os jovens. A educação tem o papel de construção cidadã e a tecnologia é parte fundamental nesse processo nos dias de hoje”, afirma.
IA como aliada
A popularização da Inteligência Artificial também traz novos desafios para a educação. Embora ferramentas de IA possam facilitar pesquisas, correções textuais e traduções, Haony alerta para o risco de que a tecnologia passe a substituir processos importantes de reflexão e aprendizagem. “A IA surge como solução de muitos problemas e criação de outros. Ela soluciona pesquisas que precisam de mais de uma fonte, apresenta correções textuais, traduções, mas com isso corremos o risco de ‘parar de pensar’”, afirma.
Na avaliação do especialista, a IA deve ser utilizada para tornar as pessoas mais eficazes, e não como uma substituta de conhecimentos e habilidades básicas. A qualidade das respostas obtidas também depende da capacidade do usuário de formular perguntas, fornecer informações e avaliar criticamente o que recebe.
Por isso, competências tradicionais como leitura, escrita, interpretação de texto e raciocínio matemático continuam fundamentais. “A eficácia e o ‘acerto’ nas respostas dependem de treino, olhar crítico e repertório. Por esse motivo, devemos seguir ensinando a ler, escrever, interpretar texto, fazer contas. Esse ‘padrão’ que dá certo não deve ser deixado de lado”, explica.
Tecnologia deve complementar, e não substituir, a educação
Para que essa transformação aconteça, a escola precisa acompanhar o universo em que os alunos estão inseridos. Na visão de Haony, professores devem estar alinhados às tecnologias e às experiências que fazem parte da vida cotidiana dos jovens, não apenas para estabelecer uma conexão com eles, mas para aproximar a instituição de ensino da realidade. “Uma preparação focada apenas em solucionar exercícios de vestibular não é, de fato, uma formação cidadã. Não os prepara para o mundo fora da escola”, afirma.
Principal desafio
Em um cenário no qual é possível encontrar respostas para praticamente qualquer pergunta em poucos segundos, manter crianças e adolescentes envolvidos com processos de reflexão e construção de conhecimento torna-se ainda mais importante.
Para Haony, a facilidade de acesso à informação não significa necessariamente conhecimento, já que é preciso desenvolver repertório e capacidade crítica para avaliar aquilo que é encontrado. O especialista defende ainda que experiências que envolvem escrita manual, raciocínio e atividades fora das telas continuem presentes na rotina dos estudantes.
Como famílias podem estimular o pensamento crítico
Nesse processo, a participação dos pais e responsáveis também é fundamental. Para Haony, o primeiro passo é estabelecer diálogo com os filhos e manter uma relação próxima com a escola. Além do diálogo, o especialista recomenda a criação de momentos de lazer longe das telas, com atividades que estimulem as crianças a raciocinarem, como jogos de tabuleiro, perguntas e respostas e brincadeiras que envolvam estratégia e raciocínio. “Participar é estar de fato com seu filho em todos os processos”, destaca.
A proposta também pode ser aplicada a situações simples do cotidiano. Uma atividade como pedir à criança que ajude a montar um sanduíche, por exemplo, pode se transformar em um exercício de pensamento computacional. Depois de realizar a tarefa, os pais podem pedir que ela explique o passo a passo utilizado, estimulando a organização do raciocínio e a capacidade de explicar processos.
Mais do que buscar novas fórmulas para ensinar crianças e adolescentes a lidarem com a tecnologia, é possível resgatar atividades simples que sempre fizeram parte do desenvolvimento infantil.

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