Difícil encontrar
alguém que nunca tenha sentido dor de cabeça. O sintoma é tão comum que, muitas
vezes, acaba sendo tratado como algo corriqueiro. Mas intensidade, localização,
duração, frequência e sintomas associados podem indicar que se trata de
diferentes tipos de cefaleia e reconhecer essas características é importante
para chegar ao diagnóstico correto.
A classificação
internacional da International Headache Society (IHS) reúne mais de uma
centena de diagnósticos e subtipos de cefaléia. De forma geral, as dores de
cabeça são divididas em primárias, quando a própria cefaleia é a condição, e
secundárias, quando a dor é consequência de outra doença ou alteração. Entre as
formas primárias mais conhecidas estão a enxaqueca, a cefaléia tensional e a
cefaléia em salvas.
Enxaqueca:
quando a dor vem acompanhada de outros sintomas
A enxaqueca
costuma provocar uma dor pulsante ou latejante, de intensidade moderada a
forte, que pode durar de quatro horas a até três dias quando não tratada.
Geralmente, a dor é unilateral, embora também possa ocorrer dos dois lados da
cabeça.
Sensibilidade à
luz e aos sons, náuseas e vômitos estão entre os sintomas que podem acompanhar
as crises. Em algumas pessoas, a enxaqueca é precedida pela chamada aura,
um conjunto de sintomas neurológicos transitórios. Alterações visuais, como
pontos brilhantes, linhas em zigue-zague ou áreas de perda visual, são
manifestações frequentes, mas também podem ocorrer formigamentos e alterações
da fala.
Estresse,
alterações hormonais, privação de sono, determinados alimentos e mudanças
climáticas podem atuar como gatilhos em algumas pessoas. Por isso, identificar
os fatores associados às crises também faz parte da avaliação médica.
Dor de cabeça
tensional: a sensação de aperto
A cefaleia
tensional é uma das formas mais comuns de dor de cabeça e costuma ser descrita
como uma pressão ou sensação de aperto na cabeça, em vez de uma dor pulsante.
Geralmente, é
bilateral e apresenta intensidade leve a moderada. Pode surgir após períodos de
estresse ou fadiga e estar associada à tensão dos músculos do pescoço e dos
ombros.
Diferentemente da
enxaqueca, a cefaleia tensional normalmente não provoca náuseas ou vômitos.
Algumas pessoas, porém, podem apresentar sensibilidade à luz ou aos sons.
Cefaleia em
salvas: uma das dores mais intensas
Menos frequente, a
cefaleia em salvas se caracteriza por uma dor extremamente intensa, geralmente
de um único lado e localizada ao redor ou atrás de um dos olhos.
As crises costumam
durar entre 15 minutos e três horas e podem ocorrer várias vezes ao dia durante
determinados períodos, chamados de “salvas”, que podem durar semanas ou meses.
Depois, podem existir períodos de remissão sem crises.
Durante a dor,
podem aparecer sintomas do mesmo lado, como olho vermelho ou lacrimejamento,
congestão nasal, coriza, queda da pálpebra, contração da pupila e sudorese
facial. A pessoa também pode apresentar inquietação ou agitação durante a
crise.
Cefaleia
crônica: quando a frequência das crises chama atenção
Cefaleia crônica
não é necessariamente um tipo específico de dor, mas uma classificação
relacionada à frequência. De acordo com os critérios internacionais, diferentes
formas de cefaléia podem apresentar padrão crônico.
No caso da
enxaqueca crônica, o quadro é caracterizado por dor de cabeça em pelo menos 15
dias por mês, durante mais de três meses, sendo que em pelo menos oito desses
dias a dor apresenta características de enxaqueca ou responde aos critérios
para enxaqueca.
Outro ponto
importante é o uso frequente de medicamentos para controlar as crises. O
consumo excessivo de analgésicos ou medicamentos específicos para enxaqueca
pode estar associado ao aumento da frequência das dores e à chamada cefaleia
por uso excessivo de medicamentos.
Dor na nuca
ou na testa: a localização dá pistas, mas não fecha o diagnóstico
A região em que a
cabeça dói pode ajudar na avaliação, mas não é suficiente, sozinha, para
determinar a causa. E a dor na nuca, por exemplo, pode estar relacionada à
tensão muscular, postura, fadiga ou cefaléia tensional. Também pode estar
associada a alterações da região cervical e a outros tipos de cefaléia.
Já a dor na testa
pode ocorrer em quadros de cefaléia tensional. Outras causas também são
possíveis, especialmente quando existem sintomas associados, como congestão
nasal, secreção ou alterações visuais Por isso, tentar identificar a causa
apenas pela localização da dor pode levar a interpretações equivocadas. O
médico considera o conjunto de características do quadro.
Quando uma
dor de cabeça pode ser sinal de alerta?
Nem toda dor de
cabeça indica um problema grave. Na maioria dos casos, as cefaleias primárias
não estão relacionadas a uma doença estrutural do cérebro. Porém, uma dor nova,
muito intensa ou que muda de padrão precisa ser avaliada.
Entre os
principais sinais de alerta estão:
- dor
que começa de forma súbita e extremamente intensa;
- dor
que piora progressivamente ao longo do tempo;
- dor
acompanhada de febre e rigidez na nuca;
- alterações
visuais súbitas;
- fraqueza
em um lado do corpo;
- dificuldade
para falar ou outros sintomas neurológicos;
- dor
desencadeada ou agravada por tosse ou esforço;
- dor
associada a alterações importantes de posição;
- início
de uma nova dor de cabeça após os 50 anos;
- nova
cefaleia em pessoas com histórico de câncer ou alterações do sistema
imunológico.
Nessas situações,
principalmente quando os sintomas surgem de maneira abrupta ou estão associados
a alterações neurológicas, é importante procurar atendimento médico.
Dor de cabeça
constante precisa de exame?
Não
necessariamente. Para muitas cefaleias primárias típicas, como enxaqueca sem
sinais de alerta e cefaleia tensional, o diagnóstico é essencialmente clínico.
A história do paciente e o exame neurológico são fundamentais e, quando não
existem sinais de alerta, exames de imagem podem não ser necessários. Quando há
suspeita de uma causa secundária, entretanto, o médico pode solicitar exames
complementares. A escolha depende dos sintomas e da hipótese diagnóstica.
Entre os exames
que podem ser utilizados estão:
Ressonância
magnética do crânio: permite uma
avaliação detalhada das estruturas do cérebro e pode ser indicada para
investigar diferentes alterações neurológicas.
Tomografia
computadorizada do crânio:
é especialmente importante em determinadas situações de emergência, como na
investigação de uma possível hemorragia intracraniana.
Exames de
sangue: podem auxiliar na
investigação de infecções, processos inflamatórios e outras condições
sistêmicas.
Punção
lombar: em situações
específicas, pode ser necessária para analisar o líquido cefalorraquidiano e
investigar infecções ou outras condições.
A decisão sobre
qual exame realizar deve ser individualizada pelo médico a partir da história
clínica e do exame físico e neurológico. Segundo o Dr. Nelson Fortes,
neurorradiologista do Alta Diagnósticos, a indicação de exames de imagem deve
estar relacionada à avaliação clínica. “Nem toda pessoa que apresenta dor de
cabeça precisa fazer uma ressonância ou uma tomografia. Quando existem sinais
de alerta ou uma mudança importante no padrão da dor, os exames podem ser
fundamentais para investigar possíveis causas secundárias.”
Qual médico
procurar?
O neurologista é o
especialista indicado para avaliar dores de cabeça frequentes, intensas,
recorrentes, associadas a outros sintomas ou que não respondem ao tratamento
inicial.E a consulta deve investigar características como localização,
intensidade, duração, frequência, tipo da dor, fatores que desencadeiam ou
aliviam as crises e sintomas associados. Manter um registro das crises também
pode ajudar o médico a identificar padrões.
“Uma das
informações mais importantes para o diagnóstico é entender o padrão da dor. A
localização é apenas uma parte da avaliação. Precisamos saber quando ela
começa, quanto tempo dura, com que frequência acontece, qual é a intensidade e
quais sintomas aparecem junto”, explica Diogo Haddad Neurologista Alta
Diagnósticos e do Hospital Nove de Julho e coordenador do Núcleo de Memória do
Alta Diagnósticos
Mais do que tentar
descobrir a causa apenas pela região em que a cabeça dói, observar o padrão das
crises e os sintomas associados é fundamental para chegar ao diagnóstico
adequado e definir a melhor estratégia de tratamento.
Referências científicas
HEADACHE CLASSIFICATION COMMITTEE OF THE INTERNATIONAL HEADACHE SOCIETY (IHS). The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia, v. 38, n. 1, p. 1-211, 2018. DOI: 10.1177/0333102417738202.
KOWACS, F. et al. Consensus of the Brazilian Headache Society on the treatment of chronic migraine. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v. 77, n. 7, p. 509-520, 2019.
DIENER, H. C. et al. Management of medication overuse (MO) and medication overuse headache (MOH) S1 guideline. Neurological Research and Practice, v. 4, article 37, 2022. DOI: 10.1186/s42466-022-00200-0.
Nenhum comentário:
Postar um comentário