Popular entre os jovens, o vape pode ter efeitos que vão além dos pulmões — incluindo possíveis impactos na fertilidade
O cigarro eletrônico ganhou espaço, especialmente
entre os jovens, impulsionado pela percepção de que seria uma alternativa mais
moderna e menos nociva ao cigarro convencional. Mas, para quem planeja ter
filhos, essa ideia merece atenção. Embora as evidências científicas sobre os
impactos do vape na fertilidade ainda estejam em construção, uma pesquisa
recente publicada no periódico Fertility and Sterility e outros estudos já
levantam preocupações sobre possíveis efeitos na qualidade dos espermatozoides,
na função ovariana e em outros marcadores relacionados à saúde reprodutiva.
No Dia
Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, a Associação
Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) chama atenção para
uma dimensão ainda pouco discutida do uso de cigarros eletrônicos: o impacto
que o hábito pode ter sobre homens e mulheres que pretendem engravidar ou
iniciar um tratamento de reprodução assistida.
“Um
dos principais mitos que ainda precisamos esclarecer é o de que o vape seria
uma opção segura ou neutra para quem deseja engravidar. O fato de ele não
envolver a mesma combustão do cigarro convencional e, em alguns aspectos, poder
apresentar menor risco não significa que seja inofensivo para a reprodução”,
afirma Dra. Fernanda Imperial, membro da Associação Brasileira de Reprodução
Assistida.
O
risco vai além da nicotina
A
preocupação não está restrita à nicotina. O aerossol produzido pelos cigarros
eletrônicos pode conter metais pesados, como chumbo, cádmio, níquel e cromo,
além de compostos carbonílicos, aldeídos, aromatizantes, propilenoglicol e
glicerina. Quando aquecidos, esses componentes podem gerar substâncias tóxicas,
algumas das quais ainda são pouco estudadas especificamente em relação à
reprodução humana.
“A
nicotina continua sendo o componente mais estudado, mas o potencial risco
reprodutivo vai além dela. Mesmo formulações sem nicotina apresentam
substâncias que podem interferir na saúde reprodutiva, e estudos experimentais
já identificaram alterações em parâmetros relacionados à fertilidade”, explica
a médica.
Em
homens, as evidências disponíveis apontam para possíveis alterações na
concentração e na motilidade dos espermatozoides, além de impactos sobre a
testosterona e a integridade do DNA espermático. Entre as mulheres, pesquisas
recentes têm investigado uma possível associação entre o uso de cigarros
eletrônicos e alterações na reserva ovariana. Um estudo transversal publicado
em 2026 no periódico Fertility and Sterility, que analisou dados de mais de 16
mil mulheres, identificou redução de 5,6% nos níveis do hormônio antimülleriano
(AMH) entre usuárias diárias e ocasionais de vape em comparação com não
usuárias. O AMH é um dos marcadores utilizados na avaliação da reserva
ovariana.
A
comparação com o cigarro convencional também precisa ser feita com cuidado. Um
estudo recente com casais submetidos à fertilização in vitro encontrou maior
taxa de nascidos vivos e menor taxa de abortamento espontâneo entre usuários de
vape quando comparados a fumantes de cigarros convencionais.
Para a
Dra. Fernanda Imperial, o resultado não deve ser interpretado como um sinal
verde para o uso de cigarros eletrônicos por quem deseja engravidar.
“Os
resultados sugerem que o vape pode ser menos prejudicial do que o cigarro
convencional em alguns desfechos específicos, mas isso é muito diferente de
afirmar que ele seja seguro para a fertilidade. O próprio estudo mostra que
outros fatores já conhecidos, como os níveis de FSH e o número de embriões,
continuam tendo maior peso nos resultados”, explica.
Interromper
o uso deve fazer parte do planejamento reprodutivo
Diante
das evidências atuais, a recomendação é que homens e mulheres incluam a
interrupção do vape entre os cuidados do planejamento reprodutivo.
“No
planejamento de uma gravidez ou de um tratamento de reprodução assistida, abandonar
o cigarro eletrônico deve ser considerado, da mesma forma que outras mudanças
de hábitos voltadas à saúde reprodutiva. Sempre que possível, a cessação deve
acontecer alguns meses antes da tentativa de engravidar”, orienta a médica.
No
caso dos homens, a recomendação leva em consideração, entre outros fatores, o
tempo necessário para a formação dos espermatozoides, processo que dura
aproximadamente de 74 a 90 dias. Já entre as mulheres, embora não seja possível
afirmar que a interrupção do vape reverta uma eventual perda de reserva
ovariana, abandonar o hábito é importante também para reduzir riscos
relacionados à gestação.
“Recomendações
como interromper o uso três ou seis meses antes são baseadas principalmente na
fisiologia reprodutiva e na extrapolação de conhecimentos sobre outras
exposições”, pondera.
Para a
especialista, a principal mensagem é evitar a falsa segurança associada aos
dispositivos. “Ser potencialmente menos prejudicial do que o cigarro
convencional é diferente de ser seguro. Para quem pretende engravidar, o melhor
cenário é não tratar o vape como uma alternativa neutra para a saúde
reprodutiva”, conclui a Dra. Fernanda Imperial.
Associação Brasileira de Reprodução Assistida - SBRA
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