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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Vape e fertilidade: uso de cigarro eletrônico pode comprometer planos de quem quer ter filhos

Popular entre os jovens, o vape pode ter efeitos que vão além dos pulmões — incluindo possíveis impactos na fertilidade


O cigarro eletrônico ganhou espaço, especialmente entre os jovens, impulsionado pela percepção de que seria uma alternativa mais moderna e menos nociva ao cigarro convencional. Mas, para quem planeja ter filhos, essa ideia merece atenção. Embora as evidências científicas sobre os impactos do vape na fertilidade ainda estejam em construção, uma pesquisa recente publicada no periódico Fertility and Sterility e outros estudos já levantam preocupações sobre possíveis efeitos na qualidade dos espermatozoides, na função ovariana e em outros marcadores relacionados à saúde reprodutiva. 

No Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, a Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) chama atenção para uma dimensão ainda pouco discutida do uso de cigarros eletrônicos: o impacto que o hábito pode ter sobre homens e mulheres que pretendem engravidar ou iniciar um tratamento de reprodução assistida. 

“Um dos principais mitos que ainda precisamos esclarecer é o de que o vape seria uma opção segura ou neutra para quem deseja engravidar. O fato de ele não envolver a mesma combustão do cigarro convencional e, em alguns aspectos, poder apresentar menor risco não significa que seja inofensivo para a reprodução”, afirma Dra. Fernanda Imperial, membro da Associação Brasileira de Reprodução Assistida.
 

O risco vai além da nicotina 

A preocupação não está restrita à nicotina. O aerossol produzido pelos cigarros eletrônicos pode conter metais pesados, como chumbo, cádmio, níquel e cromo, além de compostos carbonílicos, aldeídos, aromatizantes, propilenoglicol e glicerina. Quando aquecidos, esses componentes podem gerar substâncias tóxicas, algumas das quais ainda são pouco estudadas especificamente em relação à reprodução humana. 

“A nicotina continua sendo o componente mais estudado, mas o potencial risco reprodutivo vai além dela. Mesmo formulações sem nicotina apresentam substâncias que podem interferir na saúde reprodutiva, e estudos experimentais já identificaram alterações em parâmetros relacionados à fertilidade”, explica a médica. 

Em homens, as evidências disponíveis apontam para possíveis alterações na concentração e na motilidade dos espermatozoides, além de impactos sobre a testosterona e a integridade do DNA espermático. Entre as mulheres, pesquisas recentes têm investigado uma possível associação entre o uso de cigarros eletrônicos e alterações na reserva ovariana. Um estudo transversal publicado em 2026 no periódico Fertility and Sterility, que analisou dados de mais de 16 mil mulheres, identificou redução de 5,6% nos níveis do hormônio antimülleriano (AMH) entre usuárias diárias e ocasionais de vape em comparação com não usuárias. O AMH é um dos marcadores utilizados na avaliação da reserva ovariana. 

A comparação com o cigarro convencional também precisa ser feita com cuidado. Um estudo recente com casais submetidos à fertilização in vitro encontrou maior taxa de nascidos vivos e menor taxa de abortamento espontâneo entre usuários de vape quando comparados a fumantes de cigarros convencionais. 

Para a Dra. Fernanda Imperial, o resultado não deve ser interpretado como um sinal verde para o uso de cigarros eletrônicos por quem deseja engravidar. 

“Os resultados sugerem que o vape pode ser menos prejudicial do que o cigarro convencional em alguns desfechos específicos, mas isso é muito diferente de afirmar que ele seja seguro para a fertilidade. O próprio estudo mostra que outros fatores já conhecidos, como os níveis de FSH e o número de embriões, continuam tendo maior peso nos resultados”, explica.
 

Interromper o uso deve fazer parte do planejamento reprodutivo 

Diante das evidências atuais, a recomendação é que homens e mulheres incluam a interrupção do vape entre os cuidados do planejamento reprodutivo. 

“No planejamento de uma gravidez ou de um tratamento de reprodução assistida, abandonar o cigarro eletrônico deve ser considerado, da mesma forma que outras mudanças de hábitos voltadas à saúde reprodutiva. Sempre que possível, a cessação deve acontecer alguns meses antes da tentativa de engravidar”, orienta a médica. 

No caso dos homens, a recomendação leva em consideração, entre outros fatores, o tempo necessário para a formação dos espermatozoides, processo que dura aproximadamente de 74 a 90 dias. Já entre as mulheres, embora não seja possível afirmar que a interrupção do vape reverta uma eventual perda de reserva ovariana, abandonar o hábito é importante também para reduzir riscos relacionados à gestação. 

“Recomendações como interromper o uso três ou seis meses antes são baseadas principalmente na fisiologia reprodutiva e na extrapolação de conhecimentos sobre outras exposições”, pondera. 

Para a especialista, a principal mensagem é evitar a falsa segurança associada aos dispositivos. “Ser potencialmente menos prejudicial do que o cigarro convencional é diferente de ser seguro. Para quem pretende engravidar, o melhor cenário é não tratar o vape como uma alternativa neutra para a saúde reprodutiva”, conclui a Dra. Fernanda Imperial.
 

Associação Brasileira de Reprodução Assistida - SBRA


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