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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

A especialidade médica essencial de que muitos ainda não ouviram falar


Há poucas semanas, a Dra. Carla Bartosch, presidente da Sociedade Portuguesa de Anatomia Patológica, publicou um artigo em um portal de notícias português lembrando algo frequentemente ignorado: a especialidade que sustenta grande parte dos diagnósticos que salvam vidas - a Patologia - permanece invisível para a maior parte da população. Ao ler o texto, é impossível não reconhecer o espelho brasileiro. Aqui, o patologista também é decisivo para o cuidado em saúde, mas distante do reconhecimento público e, muitas vezes, das prioridades da gestão.

Na prática, nada acontece na jornada do paciente sem o patologista. Um oncologista só informa o tipo de câncer, define o estadiamento, estima agressividade tumoral e escolhe o tratamento porque, antes, outro médico - o patologista - analisou lâminas de biópsia, interpretou alterações celulares, integrou dados clínicos e estabeleceu o diagnóstico que orienta toda a estratégia terapêutica. Assim, a Patologia é a especialidade que determina os rumos do tratamento e, sobretudo, as chances de cura.

Mesmo assim, como em Portugal e em muitos países, somos poucos. A Demografia Médica 2025 mostra que o Brasil possui 4.424 patologistas, o que representa 2,08 especialistas por 100 mil habitantes. A distribuição é profundamente desigual: mais da metade está no Sudeste, enquanto o Norte reúne apenas 3,6% desses profissionais. Além disso, quase dois terços atuam nas capitais, deixando grandes áreas do interior com acesso limitado ou inexistente ao diagnóstico anatomopatológico.


Essa é uma lacuna que pesa ainda mais em um país onde a carga de câncer cresce de forma contínua e acelerada como o Brasil, com projeções indicando que a doença será a principal causa de morte nos próximos anos e já ocupa esse posto em muitos municípios. Tal cenário exige diagnósticos precisos, bem estruturados e integrados a novas tecnologias, para orientar terapias cada vez mais complexas.

No lado brasileiro do Atlântico, o Sistema Único de Saúde (SUS), responsável por 80% dos atendimentos oncológicos, enfrenta desafios adicionais: infraestrutura desigual entre os serviços, dificuldade de incorporar tecnologias essenciais (como os exames de imuno-histoquímica, de biologia molecular e a Patologia digital) e baixa remuneração dos exames anatomopatológicos. Esses são fatores que impactam diretamente a qualidade e a velocidade dos diagnósticos, justamente num momento em que a complexidade das doenças exige cada vez mais precisão.

Este ano, em diálogo direto com a Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), o Ministério da Saúde anunciou medidas que colocam, enfim, o diagnóstico no centro da política oncológica. Cerca de R$ 60 milhões anuais, via Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (PROADI-SUS), serão destinados à modernização e qualificação de laboratórios públicos, garantindo laudos mais rápidos e mais seguros.

E, a partir de 2026, haverá um edital com bolsas diferenciadas para residentes de Patologia, uma iniciativa pensada para tornar a especialidade mais atrativa aos estudantes de Medicina e estimular novos talentos a ingressarem na área. Trata-se de um reconhecimento inédito do Estado de que enfrentar a carência de patologistas começa ainda na graduação, aproximando os jovens médicos de uma especialidade estratégica para o futuro da saúde.

Tudo isso ocorre enquanto a Patologia vive uma transformação global. Como destacou a colega portuguesa, a inteligência artificial já auxilia na leitura de lâminas, na identificação de tumores e na estratificação de risco oncológico. No Brasil, essa revolução também avança, ainda que de forma desigual. Para que a IA seja um vetor de equidade, e não de ampliação das desigualdades regionais, será indispensável investir em infraestrutura digital e capacitação profissional contínua. A boa notícia é que nossa comunidade científica está se preparando: a própria SBP tem expandido sua oferta de cursos com foco em atualização científica e prática.

No fim das contas, concordo plenamente com a Dra. Carla: a Patologia não aparece em séries de televisão, não protagoniza cenas de emergência e raramente ocupa o imaginário popular. Mas é uma especialidade silenciosa e decisiva, que sustenta decisões essenciais em saúde, nos principais centros urbanos e também nas regiões mais afastadas.

Se o Brasil deseja enfrentar o câncer e tantas doenças prevalentes, o caminho é claro: ampliar vagas de formação em Patologia, valorizar carreiras, modernizar laboratórios públicos e distribuir especialistas de forma mais equilibrada entre as regiões. É assim que garantimos a mais pessoas aquilo que nossa Constituição promete: o direito à saúde.

E esse direito, convenhamos, vale muito mais do que qualquer glamour de tela.

 

Dr. Gerônimo Jr. - Presidente da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP)


São Silvestre exige preparo físico e atenção redobrada para evitar lesões

Crédito da foto: Paulo Pinto
Agência Brasil

Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte (SBRATE) alerta para o risco de lesões na reta final de preparação da maior prova do país e orienta corredores sobre formas de prevenção

 

Faltando poucos dias para a Corrida Internacional de São Silvestre, a empolgação toma conta das ruas e das redes sociais. Não são apenas os atletas profissionais que se preparam para cruzar a Avenida Paulista no dia 31 de dezembro: milhares de corredores amadores também encaram o desafio como uma meta pessoal para encerrar o ano da melhor forma. Porém, com a reta final chegando, cresce o risco de lesões entre quem intensifica os treinos de última hora ou ignora sinais do corpo, e é justamente nessa fase decisiva que a atenção ao preparo físico faz toda a diferença para garantir que o grande dia seja uma experiência de superação e não de dor.

Na prática, a reta final não é sobre tentar ganhar velocidade no desespero, mas sobre consolidar tudo o que já foi construído ao longo do ano. Cada pessoa tem sua própria jornada até o dia 31 e, quando a comparação vira combustível para acelerar além do necessário, o corpo pode cobrar um preço alto. O presidente da Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte (SBRATE), Dr. João Grangeiro, reforça que “nas semanas que antecedem a São Silvestre, não é hora de aumentar o ritmo de forma brusca. O atleta amador precisa respeitar os limites do corpo, ajustar a carga de treino e priorizar uma preparação inteligente para evitar lesões que podem aparecer justamente na reta final”.

Para chegar bem no dia da prova, alguns cuidados simples podem fazer uma diferença enorme no desempenho e na prevenção de lesões. Manter os treinos leves e constantes é mais seguro do que tentar aumentar a carga de última hora; incluir alongamentos e aquecimento antes de correr prepara os músculos e articulações para o esforço; e respeitar os dias de descanso continua sendo essencial, mesmo com a ansiedade da proximidade da competição.
 

A escolha do tênis também tem um papel importante, já que modelos com bom amortecimento e estabilidade ajudam a reduzir o impacto nas articulações ao longo dos 15 km. “A preparação final deve proteger o corpo, não levar o corredor ao limite. Quando se prioriza aquecimento, descanso adequado e calçado apropriado, reduzimos o risco de lesões musculares e articulares e favorecemos um desempenho mais seguro durante todo o percurso”, reforça. 

Mais do que cruzar a linha de chegada sem dor, cuidar do corpo nessa reta final é uma forma de transformar a corrida em uma experiência positiva do início ao fim. A preparação bem-feita não só reduz o risco de lesões, como mantém o desempenho, a motivação e a confiança do corredor para enfrentar os 15 km com segurança. Ao seguir treinos orientados, respeitar o descanso e prestar atenção aos sinais do próprio corpo, a prova flui de forma mais leve e satisfatória. Quando o corredor leva os cuidados a sério, todos ganham: o atleta, que corre com mais segurança; o corpo, que responde melhor ao esforço; e o esporte, que preserva sua essência de saúde, alegria e transformação”, salienta.

 

Quem corre só pela festa 

Entre os milhares de inscritos, há também quem encare a São Silvestre como um momento de diversão, tradição ou desafio bem-humorado. São pessoas que treinam pouco ou quase nada e entram na prova apenas pelo clima festivo. Para esse grupo, a atenção deve ser redobrada, pontua o presidente da SBRATE: “Mesmo correndo “na brincadeira”, é importante respeitar o ritmo próprio, fazer pausas quando necessário e não forçar além do que o corpo está acostumado. Com alguns cuidados simples, dá para aproveitar a energia do evento sem transformar o momento em transtorno”, conclui.


Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte - SBRATE


Saúde do homem: tabus seguem impedindo busca por ajuda psicológica mesmo após o Novembro Azul

Especialista alerta que masculinidade tradicional ainda dificulta o autocuidado e o diagnóstico precoce de doenças físicas e mentais 

 

Encerrado o Novembro Azul, especialistas ressaltam que os desafios ligados à saúde emocional masculina permanecem e precisam de atenção contínua. Embora a campanha seja tradicionalmente voltada ao câncer de próstata, os dados mostram que os impactos emocionais têm peso decisivo na mortalidade dos homens. Informações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que eles vivem, em média, sete anos menos que as mulheres e estão entre os grupos que menos procuram apoio psicológico, mesmo diante de sinais evidentes de adoecimento mental.

Segundo o psicólogo Danilo Suassuna, doutor em Psicologia e diretor do Instituto Suassuna, o problema está profundamente ligado ao modelo tradicional de masculinidade. “Durante décadas, os homens foram ensinados a não expressar vulnerabilidade e a suportar dor e frustração sem buscar ajuda. Esse comportamento afeta não apenas as relações, mas a forma como lidam com o próprio corpo e a própria saúde. Muitos só procuram apoio quando a situação já se tornou insustentável”, afirma.

A OMS estima que os homens representem cerca de 75% dos suicídios no mundo, evidenciando o impacto da resistência ao cuidado emocional. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) mostra que apenas 20% procuraram atendimento psicológico no último ano, enquanto entre as mulheres esse número chega a 43%. Estudos também indicam aumento da automedicação, do consumo de álcool e da evitação de conversas sobre sentimentos como estratégias comuns para lidar com sofrimento mental.

Para Suassuna, a combinação entre pressão por produtividade, estigma e silêncio cria um ciclo de adoecimento. “A ideia de invulnerabilidade faz com que muitos neguem o que sentem. Quando o sofrimento se acumula — no trabalho, na família ou no próprio corpo — a reação mais comum é esconder, minimizar e enfrentar sozinho. Esse isolamento emocional alimenta quadros de ansiedade, depressão e estresse crônico”, explica.

O especialista aponta três barreiras que ainda afastam os homens do cuidado emocional: medo de julgamento, desconhecimento sobre o funcionamento da terapia e falta de referências masculinas que falem abertamente sobre saúde mental. Para ele, a prevenção precisa ser contínua e integrada à rotina. “É essencial criar espaços de escuta acolhedores e políticas públicas que tratem o cuidado emocional como parte natural da vida. Isso aproxima o homem do atendimento antes que ele chegue ao limite”, aponta. 

A ampliação do acesso a serviços psicológicos é vista como fator central para reduzir o número de homens que chegam tardiamente aos sistemas de saúde. Iniciativas comunitárias, ações educativas e redes de cuidado têm contribuído para democratizar o atendimento, tornando-o mais acessível e descomplicado. Suassuna reforça que prevenção médica e emocional caminham juntas. “Um homem emocionalmente equilibrado procura consultas de rotina com mais facilidade, reconhece sinais de alerta e toma decisões preventivas com mais autonomia. Saúde é um conjunto de práticas que preservam a vida, não apenas a ausência de sintomas”, conclui. 



Danilo Suassuna - psicólogo e doutor em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). Atua com adolescentes e jovens adultos, unindo ciência, escuta e presença para compreender os desafios emocionais da vida contemporânea. Autor de mais de oito livros em áreas como psicologia clínica, reprodução humana e assistência psicológica ao parto, é também presidente do Instituto Brasil Central de Educação e Saúde (IBCES) uma organização voltada à integração entre educação, saúde e cultura e fundador do Instituto Suassuna, referência na formação de psicólogos atuantes. Pelo Instituto, Danilo lidera iniciativas que ampliam o mercado de trabalho da psicologia, mostrando o bem potencial máximo da profissão na vida das pessoas. É também diretor da Editora Suassuna, que publica obras de referência na área, e coordenador da SUA Rádio, canal reconhecido pelo YouTube Health por levar conteúdo sobre saúde mental ao grande público. Sua trajetória une pesquisa, clínica e comunicação, com o propósito de tornar a psicologia mais próxima das pessoas, uma ferramenta real de transformação individual e coletiva.
Para mais informações acesse o instagram: @danilosuassuna.


Instituto Suassuna


FIV e a era das “famílias planejadas”: como a biotecnologia reprodutiva está redefinindo o desejo de ser mãe ou pai

Com crescimento anual de duas dezenas de por cento, hospitais e laboratórios reprodutivos entram no centro de uma nova agenda de natalidade. Entre inovações tecnológicas, congelamento de óvulos e políticas públicas urgentes, especialista fala de uma verdadeira revolução silenciosa na forma como concebemos família.

 

O sonho de constituir uma família, há gerações, era uma trajetória quase certa para a maioria, casamento, filhos, continuidade. No século XXI, esse enredo virou filme com múltiplas versões: casais que adiam os planos, mulheres que escolhem preservar óvulos, homens atentos à qualidade dos espermatozoides e laboratórios ganhando protagonismo. “Em meio a esse cenário, a técnica da Fertilização in Vitro (FIV) e demais tecnologias de reprodução assistida deixam de ser exceção e passam a ocupar um papel central na “agenda da fertilidade””, comenta o ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana, Dr. Orlando Monteiro. 

No Brasil, os números falam por si. O relatório oficial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostra que, em 2021, foram realizados 45.952 ciclos de FIV no país. Em paralelo, os dados de congelamento registraram mais de 154.630 óvulos congelados em 2020 e 2021. Segundo projeções da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), o setor pode crescer em média 23% ao ano até 2026.

Não se trata apenas de mais procedimentos, trata-se de uma mudança de paradigma: planejamento reprodutivo, autonomia, e o uso da tecnologia como aliada da biologia.

 

Tecnologias que ampliam o campo

Enquanto a FIV segue sendo o “carro-chefe”, outras inovações entram no radar: vitrificação de óvulos (preservação da fertilidade), diagnóstico genético pré-implantacional, criopreservação de embriões e técnicas de doação de gametas, todas com impacto direto no que se entende por “tempo certo” para a gestação.

Por exemplo: vitrificação, ou congelamento ultrarrápido, permite que óvulos sejam preservados por anos sem perda significativa de qualidade. Isso abre novas possibilidades para mulheres que ainda não querem engravidar mas desejam manter a opção aberta. 

Além disso, a expansão de técnicas de doação de óvulos ou espermatozoides, e o uso mais flexível de gametas de doador, ampliam o conceito de fertilidade para além do casal heterossexual tradicional. 

 

Incentivos à natalidade e planejamento reprodutivo

Com taxas de natalidade em declínio e o envelhecimento populacional como preocupação crescente, alguns países começam a incluir no radar políticas públicas que conectam reprodução assistida e planejamento familiar. No Brasil, embora ainda inadequadamente exploradas, essas ideias começam a emergir: desde incentivos fiscais à preservação da fertilidade até maior visibilidade para o congelamento de óvulos como ferramenta de planejamento reprodutivo. 

Essa intersecção entre saúde, biotecnologia e política pública é crucial: não se trata apenas de “ajudar quem não consegue engravidar”, mas de reconfigurar a forma como a sociedade vê o tempo da maternidade e paternidade e de dar suporte técnico, médico e filosófico à liberdade de escolha. 

Se você está considerando a maternidade ou paternidade em algum momento da vida, essas são as “novas regras” que merecem atenção:

  • Considere exames de reserva ovariana ou espermograma cedo, não espere que somente o relógio biológico te alerte.
  • Se sua meta é adiar a gestação, o congelamento de óvulos ou espermatozoides pode ser um plano real, com orientação médica adequada.
  • Procure clínicas de reprodução assistida sérias, que ofereçam transparência sobre taxas de sucesso, tecnologia usada e acompanhamento clínico.
  • Esteja consciente de que, mesmo com tecnologia, idade e saúde geral continuam sendo determinantes. A biotecnologia ajuda, mas não elimina todas as dificuldades.
  • Entenda que planejamento reprodutivo também é diálogo: com parceiro, com médico, com seus valores de vida.

O Dr. Orlando Monteiro conclui: A fertilização in vitro e as tecnologias de reprodução assistida deixaram de ser apenas “último recurso”, tornaram-se componentes centrais da nova agenda da fertilidade. Em um Brasil que precisa repensar natalidade, autonomia e tempo de vida, essas técnicas funcionam como ponte entre desejo e realidade. O que antes era sonho para poucos está se tornando opção para muitos, desde que se caminhe com ciência, ética e acesso. 

 

Dr. Orlando Monteiro (CRM/SP 73806 | CRM/MS 3256) - Ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana. Há mais de 25 anos ajudando mulheres a realizarem o sonho da maternidade. Referência em FIV, inseminação, congelamento de óvulos, histeroscopia e tratamento da endometriose, une experiência, empatia e alta tecnologia para cuidar da fertilidade de forma completa e acolhedora.

 

Como o clima afeta ouvidos, nariz e garganta — e por que as doenças respiratórias aumentam em um planeta mais quente e poluído

 

Os impactos das mudanças climáticas já são sentidos dentro dos consultórios médicos e, segundo o otorrinolaringologista Bruno Borges de Carvalho Barros da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia, o aumento da temperatura média, a concentração de poluentes e a alteração dos ciclos de chuva e umidade estão diretamente ligados à alta de doenças respiratórias e otorrinolaringológicas — como rinite alérgica, sinusite crônica e infecções de ouvido. 

“O nariz é a primeira barreira do corpo contra o ar que respiramos. Quando o ar está mais seco ou poluído, essa mucosa perde sua função de filtrar e umidificar, facilitando infecções e inflamações”, explica o médico. “É um reflexo direto das mudanças climáticas no corpo humano — e especialmente nas vias aéreas superiores.” 

Um estudo recente publicado na Environmental Research (2024) reforça a conexão: a cada aumento de 1 °C na temperatura média e elevação das partículas finas de poluição (PM2.5), cresce a incidência de rinite e sinusite em até 20% nas regiões urbanas. “Além disso, os poluentes irritam a mucosa nasal e os ácaros se proliferam em ambientes úmidos, o que agrava ainda mais os quadros alérgicos”, complementa o especialista.

 

Quando o clima muda, as alergias também mudam 

A alteração dos padrões de estações e o desequilíbrio ambiental têm criado novos ciclos de alergia. O que antes se concentrava em meses específicos, hoje se estende o ano inteiro. “As plantas florescem em épocas diferentes, os índices de pólen aumentam e a poeira urbana se acumula. O paciente que tinha rinite sazonal agora sofre o ano todo”, explica o otorrino.

Ele também observa o aumento de casos de otite média em crianças e adultos durante ondas de calor ou períodos de seca prolongada. “O ar-condicionado em excesso resseca as mucosas, e a oscilação de temperatura entre ambientes internos e externos favorece infecções do ouvido e da garganta.”

 

Como prevenir doenças em decorrência da alteração climática 

Para o especialista, enquanto o mundo busca reduzir emissões, cada pessoa precisa adotar pequenas medidas de proteção:

  • Manter a casa arejada e limpa para reduzir ácaros e fungos;
  • Usar umidificadores em dias secos;
  • Beber bastante água para hidratar as vias aéreas;
  • Buscar avaliação médica diante de sintomas persistentes de entupimento, coceira ou dor facial. 

“O que respiramos é um reflexo do planeta em que vivemos. Se o clima adoece, nós também adoecemos”, finaliza o Dr. Bruno.

 


FONTE:

Bruno Borges de Carvalho Barros - Médico especialista pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e cirurgia cervico-facial. Mestre e fellow pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Link


Férias com crianças: 5 dicas para não passar perrengue

 De remédios aos cuidados com brincadeiras na água, pediatra desenvolve check list para orientar a programação das férias em família no Verão

 

Insolação, picadas de mosquito, pele descascando, dor de barriga de desidratação, machucados, febre. Para muitos, estes são sinônimos de férias de verão. Para evitar mais um ano lidando com a dificuldade de administrar crianças durante o descanso de final e começo de ano, Dra. Anna Bohn, Pediatra pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), elaborou uma lista dos cuidados centrais para férias leves para mães, pais e cuidadores, e seguras para as crianças.

 

Faça um kit viagem 

-Remédio para febre: dipirona, paracetamol e ibuprofeno são os mais comuns. Lembrando de não intercalar propositalmente sem falar com seu médico e preferir os dois primeiros. 

-Remédio para alergias, como picadas: allegra, hixizine ou desloratadina. 

- Remédio para vômito: ondansetrona (só há versões em comprimidos, mas são fáceis de diluir), dimenidrato (costuma dar sono, mas funciona melhor para enjoo em carro, barco ou avião) 

-Corticoide (prednisolona): deve ser utilizado após indicação ou para quem já faz uso por crise de chiado por exemplo, na presença de uma crise. Para alergias intensas por comida ou picada, algumas vezes, o corticoide se faz necessário. 

-Probiótico (floratil): para diarreias, alguns probióticos têm evidência de melhora dos episódios e intensidade. 

-Soro fisiológico para lavagem nasal com seringa e inalação (levar inalador portátil) 

-Antibiótico: fica reservado para viagens distantes, para lugares isolados ou no exterior. Nunca utilizar por conta própria e usar só em situações de emergência. 

 

Como usar o protetor solar e exposição solar segura 

Dra. Anna lembra que, antes dos 6 meses de idade, não está liberado o uso de protetor, assim como também não é recomendada a exposição ao sol. "Use chapéus, roupas compridas e deixe o bebê em locais com sombra", indica ela. 

Entre os 6 meses e os 2 anos, ela recomenda evitar exposição solar entre 10h e 16h. "Ao sair ao sol, passe protetor solar 30 minutos antes e escolha filtros minerais, ou seja, produtos com substâncias inorgânicas chamadas de filtros físicos, que possuem menos efeitos colaterais e riscos de alergia", recomenda a pediatra. 

Além disso, ela lembra que repassar o filtro a cada 2 horas é tão essencial quanto a primeira passada do dia e deve acontecer também levando em conta o tempo dentro d’água. "Não existem filtros totalmente à prova d’água", informa a Dra. Anna, sugerindo que os cuidadores deem o exemplo e repassem o protetor em si mesmos para que as crianças vejam e, em seguida, passem nelas.

 

Atenção dentro da água 

Piscina e mar são sinônimos de férias de verão. Entretanto, é nessa época que os acidentes aumentam muito. A indicação da pediatra é de jamais deixar as crianças desacompanhadas no mar ou na piscina, mesmo que elas saibam nadar. "Se for utilizar boia, certifique-se de que é do tipo colete ou aquelas que têm suporte na parte anterior do tronco. Boias somente de braços não são seguras, pois podem escapar e deixar a criança totalmente sem suporte", explica ela. 

"Oriente as crianças a não tomarem água do mar ou da piscina, pelo grande risco de contaminação com germes", sugere a Dra. Anna, ao lembrar também do cuidado com as ondas do mar e os mares agitados, que levam ao risco de afogamento. "Muitas vezes, há correntezas embaixo d’água, que podem facilmente derrubar uma criança ou até mesmo adulto".

 

Uso de repelente 

Repelentes são indicados a partir de 6 meses com segurança, informa a especialista, adicionando que, por outro lado, eles não protegem totalmente contra picadas. "Nessa idade, o número de aplicações é restrito por conta do risco de absorção das substâncias e alergias. Há divergências entre os fabricantes, mas não se deve passar de uma ou duas aplicações ao dia", orienta ela. A outra opção é usar roupas compridas, caso haja muitos mosquitos. 

Mosquiteiros em berços e carrinhos é o que ela sugere para a proteção dos bebês menores, contando também com a ajuda de velas de citronela ou lâmpadas com armadilhas para mosquitos. "Repelentes de tomada não são indicados pelo risco de sintomas respiratórios associados", pondera.

 

Hidratação no calor 

Apesar de todas as brincadeiras envolvendo água, o verão exige atenção extra com a hidratação do corpo, principalmente frente aos episódios de ondas de calor que estamos vivendo. "Com tudo isso, as crianças estão em maior risco de desidratação, queimaduras e insolações", lembra a Dra. Anna. Sua recomendação nesse sentido é que mães, pais e cuidadores ofereçam sempre água gelada várias vezes ao dia porque ela ajuda a regular a temperatura e a melhorar a indisposição do excesso de calor. "Crianças nem sempre percebem que estão com sede e nem sempre pedem água, principalmente enquanto estão brincando", justifica a médica. 

Em complemento à hidratação interna, ela indica também que as crianças sejam convidadas a fazer pausas na sombra. 

 

DRA ANNA DOMINGUEZ BOHN - CRM SP 150 572 - RQE 106869/ 1068691. Registro pela Sociedade Brasileira de Pediatria Registro de Terapia Intensiva Pediátrica pela Associação de Medicina Intensiva. Graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Residência em Pediatria e Terapia Intensiva Pediátrica pela Universidade de São Paulo. Curso de especialização em cardiointensivismo pelo Hospital SICK KIDS, Universidade de Toronto. Pós-graduação em Síndrome de Down pelo CEPEC - FMABC (centro de pesquisa e estudos) MBA em gestão de saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein Vice-presidente do Núcleo de Estudos da criança e adolescente com deficiência, Sociedade Paulista de Pediatria. 2018-2023



Calor, sol intenso e rotina ao ar livre: Dezembro Laranja reforça alerta sobre o aumento dos casos de Câncer de Pele

Dezembro Laranja é uma campanha voltada à
conscientização sobre o câncer de pele 
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Campanha destaca a importância do diagnóstico precoce e da proteção contínua durante o verão

 

A chegada de dezembro marca o início do verão e, com ele, dias mais longos, temperaturas elevadas e maior circulação em ambientes externos. O cenário favorece o lazer e as atividades ao ar livre, mas também intensifica a exposição solar, um dos principais fatores associados ao aumento dos casos de câncer de pele nesta época do ano. 

Nesse contexto, o Dezembro Laranja se destaca como uma das iniciativas de conscientização voltadas à prevenção e ao diagnóstico precoce da doença. A relevância da campanha aumenta diante dos indicadores recentes. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), o câncer de pele representa cerca de 33% de todos os diagnósticos oncológicos no país. A expectativa é que o Brasil ultrapasse 229 mil novos casos até o fim de 2025. 

“Muita gente ainda subestima os riscos da exposição solar e acredita que pequenos descuidos não fazem diferença. A soma desses hábitos ao longo dos anos é determinante para o aumento dos casos. Tornar a proteção solar parte da rotina e buscar avaliação médica diante de qualquer alteração na pele são atitudes simples que ajudam a evitar formas avançadas da doença”, afirma Diocésio Andrade, oncologista.


Fatores que elevam o risco

Algumas condições aumentam a chance de desenvolvimento da doença, como a exposição prolongada ao sol entre 10h e 16h, histórico familiar, pele clara, presença de múltiplas pintas, queimaduras solares prévias e o uso de câmaras de bronzeamento. 

“Manchas ou feridas que não cicatrizam em até quatro semanas, pintas que mudam de cor ou formato e lesões elevadas com crosta ou sangramento recorrente precisam ser avaliadas rapidamente, porque podem representar sinais iniciais do câncer de pele”, diz Diocésio Andrade, oncologista. 

A neoplasia se divide em dois grandes grupos. Os tumores não melanoma são os mais frequentes no Brasil e costumam estar associados à exposição solar acumulada ao longo dos anos. Já o melanoma, menos comum, apresenta maior potencial de agressividade e pode surgir como uma mancha ou pinta que muda de cor, formato ou tamanho ao longo do tempo.
 

Prevenção

“O uso diário de protetor solar com fator 30 ou superior, a reaplicação ao longo do dia, a preferência por sombra, o uso de chapéus, roupas adequadas e óculos com proteção UV e o cuidado de evitar o sol no horário de maior intensidade são alguns tipos de prevenção”, ressalta Diocésio. 

A atenção constante e o diagnóstico precoce continuam sendo determinantes, sobretudo no tipo melanoma. “O principal caminho para combater o câncer de pele é evitar que ele se desenvolva. Além disso, prestar atenção às mudanças na pele e procurar ajuda logo no início aumenta muito as chances de um tratamento bem-sucedido”, acrescenta o oncologista.


Pessoas 50+ com doenças crônicas estão mais expostas a complicações por Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e Herpes Zoster

 Condições como Diabetes e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) aumentam a vulnerabilidade a agentes infecciosos, como o VSR, elevando a chance de internações prolongadas e óbito. Portadores de DPOC têm até 13 vezes mais risco de hospitalização por VSR, e pessoas com diabetes, até 6,4 vezes mais.2,3,8

 

O sistema imunológico de adultos com 50 anos ou mais passa por um processo de enfraquecimento natural, chamado de imunossenescência, que diminui gradualmente a sua capacidade de se defender de agentes infecciosos.1 Essa alteração associada a condições crônicas de saúde, como diabetes, Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), asma, insuficiência cardíaca, e outras doenças cardiovasculares, pode levar a complicações mais frequentes por doenças infecciosas.2,3 Nesses casos, a combinação do envelhecimento com as comorbidades cria um cenário de alto risco para complicações sérias, como as causadas pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e pelo herpes zoster. 1-4

Com a proximidade do Dia Mundial do Diabetes (14 de novembro)5 e do Dia Mundial da DPOC (19 de novembro)6, especialistas reforçam a necessidade de conscientização e prevenção para esse público. 

“A partir dos 50 anos, a capacidade de combater vírus e bactérias é reduzida, tornando os adultos mais vulneráveis a doenças graves. E quando se tem alguma doença crônica, esse risco pode ser ainda maior. O VSR pode ser um gatilho perigoso para o agravamento do quadro de saúde. A infecção pode descompensar doenças crônicas, mesmo que estejam controladas” 1,3,11, explica a geriatra e clínica geral Maisa Kairalla (CRM 102136-SP), médica do núcleo de Geriatria do Hospital Sírio Libanês, presidente da comissão de Imunização da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), membro da Câmara técnica de Geriatria do CREMESP (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) e membro do ILC Brasil, ponto focal imunização. 

No Brasil, uma análise de 10 anos (2013-2023) mostrou que idosos com comorbidades, infectados pelo VSR, tiveram altas taxas de admissão em UTI e letalidade. A taxa média de letalidade foi de 25,9%, variando de 21% em 2013 a 30,7% em 2017. Entre os casos, 71,5% apresentavam pelo menos uma condição crônica, sendo doenças cardiovasculares as mais comuns com 64,2%, seguido de diabetes com 32% e doenças pulmonares com 26,5%.7 

Outros estudos reforçam que o risco de hospitalização por VSR é drasticamente elevado em adultos mais velhos com comorbidades: portadores de DPOC com 65 anos ou mais têm até 13 vezes mais chances de internação por VSR.8 A DPOC afeta 210 milhões de pessoas no mundo e é a quinta causa de morte no Brasil.6 Já pessoas com 65 anos ou mais com diabetes (que atinge mais de 13 milhões de brasileiros segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes) têm até 6,4 vezes mais risco de hospitalização.5,8 

O alerta se estende ao herpes zoster, popularmente conhecido como "cobreiro". esta doença é a reativação do mesmo vírus da catapora, o varicela-zoster, que permanece adormecido no sistema nervoso e pode reaparecer de forma imprevisível anos após a infecção inicial, principalmente em adultos mais velhos ou com comprometimento imunológico, como é o caso de quem vive com doenças crônicas.4,9  

A doença pode causar dor intensa e prolongada e impactar significativamente a qualidade de vida. Sua principal complicação é a neuralgia pós-herpética, uma dor crônica que pode persistir por mais de 90 dias após o desaparecimento das lesões e que pode durar anos.4,9,10 

"Adultos com doenças crônicas pulmonares, cardiovasculares e diabetes precisam ter uma visão ampla sobre sua imunidade. O envelhecimento natural e essas comorbidades enfraquecem as defesas do organismo, proporcionando a maior incidência de infecções respiratórias virais graves inclusive pelo VSR, bem como a maior incidência de herpes zoster . Importante salientar que estas doenças podem ser prevenidas por vacinação" 1-4, conclui Kairalla.


Material dirigido ao público em geral. Por favor, consulte o seu médico.


GSK
Para mais informações, visite GSK

 

Referências:

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Geriatria: Guia de vacinação (2022/2023). Disponível em: . Acesso em: outubro/2025;
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES. Vírus sincicial respiratório (VSR). Disponível em: <Link>. Acesso em: outubro/2025;
  3. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Respiratory Syncytial Virus Infection (RSV). RSV in Adults. Disponível em: . Acesso em: outubro/2025;
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Herpes (Cobreiro). Disponível em: <Link> Acesso em: outubro/2025;
  5. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde. 14/11 Dia Mundial do Diabetes. Disponível em: <Link>. Acesso em: outubro/2025;
  6. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde. “Conheça sua função pulmonar” : 20/11 – Dia Mundial da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica – DPOC. Disponível em: <Link>. Acesso em: outubro/2025;
  7. VERAS, Bruna Medeiros Gonçalves de; MICHELIN, Lessandra; PINTO, Thatiana; GUZMAN-HOLST, Adriana; PUNGARTNIK, Paula; BERRA, Thaís Zamboni; PIRES-MATHEUS, Gustavo; SILVA, Rosemeri Maurici da. *Respiratory syncytial virus disease burden in older adults with and without comorbidities: a decade of hospitalization data in Brazil (2013–2023);
  8. BRANCHE AR, Saiman L, Walsh EE, et al. Incidence of respiratory syncytial virus infection among hospitalized adults, 2017–2020. ClinInfect Dis. 2022;74(6):1004-1011. doi:10.1093/cid/ciab595;
  9. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Prevention of herpes zoster: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP). MMWR, v. 57, RR-5, p. 1-30, 2008;
  10. LUKAS, K. et al. The impact of herpes zoster and post-herpetic neuralgia onquality of life: patient-reported outcomes in six European countries. J Public Health, 20:441-451, 2012
  11. DOHERTY, T. M. et al. Vaccination programs for older adults in an era of demographic change. European Geriatric Medicine, v. 9, n. 3, p. 289–300, 19 mar. 2018.


Mudanças climáticas: emergência de saúde pública

Especialista da Inspirali explica como a crise já vem afetando diretamente a população

 

Com o fim da COP-30, muitas resoluções e novos questionamentos viraram pauta em todo o mundo no que diz respeito a crise climática. Já considerada uma crise de saúde pública, as mudanças do clima chamam atenção também de autoridades médicas e da população. Para entender a relação entre os efeitos do clima e a saúde, a Inspirali, ecossistema que atua na gestão de 15 escolas médicas em diversas regiões do Brasil, convidou a Dra. Marlana Kusama, pediatra e professora na UniSul. Confira:

 

1. - Como as mudanças climáticas afetam a nossa saúde?

R: As mudanças climáticas afetam a saúde humana por meio de ondas de calor, poluição do ar,
eventos extremos, contaminação alimentar e expansão de doenças transmissíveis. Artigos publicados na OMS, o IPCC e o Lancet Countdown apontam impactos crescentes e necessidade urgente de adaptação.

 

2. Há riscos ou alertas de surgimento de novos tipos de vírus por conta das mudanças climáticas?

R: O aquecimento global altera habitats, estressa ecossistemas e intensifica o contato entre humanos, animais silvestres e vetores, aumentando a probabilidade de spillover (transmissão de vírus de animais para humanos). O risco cresce, embora novos surtos dependam também de práticas humanas e vigilância sanitária.

 

3. Das enfermidades já existentes, acredita que podem piorar por conta do clima?

R: Doenças transmitidas por vetores como dengue, zika, chikungunya e malária tendem a se expandir para novas regiões. Já doenças transmitidas por água e alimentos, como em enchentes e secas, aumentam casos de diarreias, leptospirose e surtos relacionados a água contaminada. Incêndios florestais e poluentes agravam quadros respiratórios e cardiovasculares. Também existe o estresse térmico, que é quando ondas de calor aumentam mortalidade e internações por doenças cardíacas, renais e metabólicas. E, não menos importante, temos o impacto na saúde mental, pois eventos extremos impactam ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.

 

4. - Devemos nos preparar para algum novo surto?

R: A preparação inclui vigilância integrada (clima-saúde-vetores), fortalecimento de laboratórios e serviços de saúde, protocolos para ondas de calor e enchentes e redução de riscos ambientais como desmatamento.

 

5. Em relação a saúde da população, existe alguma região mais propensa a sofrer por conta do clima?

R: Sim, por exemplo, países tropicais e subtropicais são sinônimo de grandes cidades expostas ao efeito de ilha de calor. Já países de baixa renda e pequenas ilhas (SIDS) possuem comunidades próximas a áreas de risco climático e baixa infraestrutura.

 

6. - Existe algum preparo diferenciado para os futuros médicos por conta da nova realidade climática?

R: Escolas médicas começam a incluir “Saúde Planetária” no currículo, para identificação de doenças sensíveis ao clima, manejo clínico de calor extremo, vigilância epidemiológica e sustentabilidade em serviços de saúde.

 

7- Há planos de algum novo protocolo de atendimento que identifique manifestações causadas pelo clima?

R: Existem diretrizes para calor extremo, incêndios e surtos pós-desastres, mas ainda faltam protocolos padronizados que integrem clima de forma sistemática na anamnese e nas ações de vigilância.

 

8 - Em termos de saúde, estamos preparados para estas constantes mudanças do clima, que tendem a piorar com o passar do tempo?

R: Os sistemas de saúde não estão plenamente preparados. O financiamento para adaptação climática é insuficiente. Indicadores de exposição (calor, poluição, incêndios) aumentam mais rápido do que a capacidade de resposta dos países.

 

9 - Existe algum estudo que relacione as mudanças climáticas com a saúde da população?

R: Sim. Estudo da Organização Mundial da Saúde – OMS constata 250.000 mortes adicionais/ano previstas entre 2030–2050 por causas relacionadas ao clima. A Lancet Countdown constata aumento global de mortalidade por calor e expansão de áreas adequadas para transmissão de dengue. IPCC AR6 relata que entre 3 a 3.6 bilhões de pessoas vivem em regiões altamente vulneráveis às mudanças climáticas. Podemos concluir que as mudanças climáticas já são uma emergência de saúde pública. Fortalecer sistemas de saúde, prever riscos climáticos, educar profissionais e reduzir vulnerabilidades sociais é essencial para reduzir vulnerabilidades sociais no presente e futuro.


Flutuação hormonal afeta imunidade de mulheres, mas exercício físico pode mitigar o efeito

Inconsistência de métodos usados para controlar os hormônios
sexuais fazem com que haja os resultados mais diversos e,
por consequência, inconclusivos, diz pesquisadora
(imagem: 
Rawpixel.com/Freepik)
Foi o que apontou artigo de revisão publicado por pesquisadores da Unesp; segundo os autores, porém, ainda não há consenso sobre os reais impactos do ciclo menstrual, da perimenopausa e da menopausa porque parte dos estudos adota metodologia inadequada

 

 As oscilações hormonais ao longo da vida das mulheres são um dos fatores que mais influenciam o sistema imunológico. Como em uma gangorra, a variação de estrogênio e progesterona incidem em nível celular, alterando o perfil imunológico e inflamatório. É nos dias que antecedem o período menstrual (fase lútea), por exemplo, que a atividade inflamatória é mais intensa. Na menopausa, a queda dos hormônios sexuais promove um estado pró-inflamatório.

Apesar do entendimento sobre a relação entre oscilações hormonais e sistema imunológico ter avançado, ainda não há consenso entre os cientistas sobre os reais impactos do ciclo menstrual, da perimenopausa e da menopausa na imunidade das mulheres. E o motivo para isso é banal: a falta de caracterização adequada do ciclo menstrual em uma parte dos estudos sobre o tema.

Foi o que demonstrou um trabalho de revisão realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Presidente Prudente, apoiado pela FAPESP. Ao revisar os principais estudos pulicados sobre o tema, os pesquisadores constataram que muitos deles ainda se baseiam em métodos simplificados, como o uso de aplicativos de celular, para definir em que fase do ciclo menstrual a mulher se encontra.

“De acordo com a principal diretriz internacional, métodos simplificados apenas nos informam se a pessoa está em período menstrual ou não, e isso não é suficiente para fazer estudos científicos. É preciso utilizar uma combinação de métodos para identificar se ela está na fase folicular, ovulatória ou lútea, pois em cada uma dessas etapas ocorrem variações da progesterona e do estrogênio, hormônios que têm implicações distintas para o sistema imunológico”, explica Barbara de Moura Antunes, pesquisadora que conduziu o estudo.

Antunes explica que essa lacuna metodológica tem gerado resultados contraditórios nas pesquisas sobre o tema. “A inconsistência e a diferença dos métodos utilizados para controlar os hormônios sexuais fazem com que tenhamos os resultados mais diversos e, por consequência, inconclusivos. E isso não preenche lacunas do conhecimento, apenas gera mais confusão e desinformação”, conta.

Para a pesquisadora, a falta de consenso e de rigor nas pesquisas vem de um problema anterior: a falta de inserção de aspectos da mulher nos estudos científicos. “Por muitos anos se preconizou que tanto ensaios clínicos quanto estudos de experimentação animal fossem realizados apenas com homens ou animais machos. Mas acontece que o corpo feminino vive em constante flutuação hormonal, diferentemente do masculino, que mantém níveis mais estáveis ao longo da vida. Ignorar essa dinâmica compromete a compreensão da saúde da mulher”, afirma.

O estudo de revisão publicado na revista Maturitas abre uma nova linha de pesquisa que pretende investigar de modo mais aprofundado essa relação e o impacto do exercício físico nesses diferentes cenários ao longo da vida da mulher.

A equipe responsável pelo artigo agora se prepara para uma nova etapa: a realização de um estudo original com mulheres brasileiras que promete preencher essas lacunas. “O nível de atividade física ou o condicionamento físico, associado com as flutuações hormonais, impacta na resposta inflamatória? Existe um tipo ideal de exercício físico quando falamos de imunidade? As variáveis do treinamento deveriam ser ajustadas ao longo do tempo? Qual o impacto dessa oscilação hormonal na mulher sedentária, ativa e treinada? Tudo isso pretendemos investigar no intuito de ampliar a compreensão sobre a saúde de metade da população", conta a pesquisadora para a Agência FAPESP.

A pesquisa será dividida em duas fases. A primeira vai analisar mulheres em idade reprodutiva (entre 18 e 35 anos), classificadas por níveis de aptidão cardiorrespiratória. O intuito será investigar como as diferentes fases do ciclo menstrual modulam a resposta inflamatória. Já a segunda fase incluirá mulheres na pré-menopausa, menopausa e pós-menopausa, também divididas por níveis de condicionamento físico, para avaliar os efeitos do declínio hormonal.

Antunes explica que até agora o que se sabe nessa área é que, durante a vida reprodutiva da mulher, os níveis de estradiol (um tipo específico de estrogênio) e progesterona oscilam ao longo do ciclo menstrual, influenciando diretamente o sistema imunológico. Essas flutuações hormonais afetam células imunes, como monócitos e linfócitos, que possuem receptores para hormônios sexuais e, consequentemente, respondem a esse estímulo produzindo citocinas – proteínas sinalizadoras que regulam a inflamação.

Ela conta que da menstruação até a ovulação (final da fase folicular), o estrogênio está em alta e a progesterona em baixa, favorecendo uma resposta anti-inflamatória e melhor desempenho físico e cognitivo. Já na fase lútea, que antecede a menstruação, o cenário se inverte: o estrogênio cai e a progesterona sobe, tornando o organismo mais suscetível à inflamação, ao cansaço, com maior percepção de fadiga e possível atraso na recuperação muscular.

Os estudos conduzidos pelo grupo mostram que na fase folicular há maior presença de marcadores anti-inflamatórios e protetivos à saúde (como IL-1ra e HDL-c), enquanto na fase lútea predominam marcadores pró-inflamatórios (como TNF-α e IL-6).

“Com o envelhecimento, especialmente na menopausa, ocorre um declínio acentuado do estradiol, o que está associado a diversos problemas de saúde, como doenças cardiovasculares, perda de massa muscular [sarcopenia], osteoporose e alterações no metabolismo lipídico."

Os estudos analisados mostraram ainda que o exercício físico, mesmo não revertendo a queda do estradiol, atua como uma ferramenta poderosa para prevenir e tratar os efeitos negativos do envelhecimento. “Ele melhora a produção de citocinas anti-inflamatórias, fortalece músculos e ossos e ajuda a manter a saúde geral da mulher em todas as fases da vida."

O artigo Immunometabolic insights into women's health across all ages pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0378512225005274.

 

Maria Fernanda Ziegler

Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/flutuacao-hormonal-afeta-imunidade-de-mulheres-mas-exercicio-fisico-pode-mitigar-o-efeito/56598



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