Há poucas semanas, a Dra. Carla Bartosch, presidente da
Sociedade Portuguesa de Anatomia Patológica, publicou um artigo
em um portal de notícias português lembrando algo frequentemente ignorado: a
especialidade que sustenta grande parte dos diagnósticos que salvam vidas - a
Patologia - permanece invisível para a maior parte da população. Ao ler o
texto, é impossível não reconhecer o espelho brasileiro. Aqui, o patologista
também é decisivo para o cuidado em saúde, mas distante do reconhecimento
público e, muitas vezes, das prioridades da gestão.
Na prática, nada acontece na jornada do paciente sem o
patologista. Um oncologista só informa o tipo de câncer, define o estadiamento,
estima agressividade tumoral e escolhe o tratamento porque, antes, outro médico
- o patologista - analisou lâminas de biópsia, interpretou alterações
celulares, integrou dados clínicos e estabeleceu o diagnóstico que orienta toda
a estratégia terapêutica. Assim, a Patologia é a especialidade que determina os
rumos do tratamento e, sobretudo, as chances de cura.
Mesmo assim, como em Portugal e em muitos países, somos poucos. A Demografia Médica 2025 mostra que o Brasil possui 4.424 patologistas, o que representa 2,08 especialistas por 100 mil habitantes. A distribuição é profundamente desigual: mais da metade está no Sudeste, enquanto o Norte reúne apenas 3,6% desses profissionais. Além disso, quase dois terços atuam nas capitais, deixando grandes áreas do interior com acesso limitado ou inexistente ao diagnóstico anatomopatológico.
Essa é uma lacuna que pesa ainda mais em um país onde a carga de câncer cresce
de forma contínua e acelerada como o Brasil, com projeções indicando que a
doença será a principal causa de morte nos próximos anos e já ocupa esse posto
em muitos municípios. Tal cenário exige diagnósticos precisos, bem estruturados
e integrados a novas tecnologias, para orientar terapias cada vez mais
complexas.
No lado brasileiro do Atlântico, o Sistema Único de Saúde
(SUS), responsável por 80% dos atendimentos oncológicos, enfrenta desafios
adicionais: infraestrutura desigual entre os serviços, dificuldade de
incorporar tecnologias essenciais (como os exames de imuno-histoquímica, de biologia
molecular e a Patologia digital) e baixa remuneração dos exames
anatomopatológicos. Esses são fatores que impactam diretamente a qualidade e a
velocidade dos diagnósticos, justamente num momento em que a complexidade das
doenças exige cada vez mais precisão.
Este ano, em diálogo direto com a Sociedade Brasileira de
Patologia (SBP), o Ministério da Saúde anunciou medidas que colocam, enfim, o
diagnóstico no centro da política oncológica. Cerca de R$ 60 milhões anuais,
via Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (PROADI-SUS),
serão destinados à modernização e qualificação de laboratórios públicos,
garantindo laudos mais rápidos e mais seguros.
E, a partir de 2026, haverá um edital com bolsas
diferenciadas para residentes de Patologia, uma iniciativa pensada para tornar
a especialidade mais atrativa aos estudantes de Medicina e estimular novos
talentos a ingressarem na área. Trata-se de um reconhecimento inédito do Estado
de que enfrentar a carência de patologistas começa ainda na graduação,
aproximando os jovens médicos de uma especialidade estratégica para o futuro da
saúde.
Tudo isso ocorre enquanto a Patologia vive uma
transformação global. Como destacou a colega portuguesa, a inteligência
artificial já auxilia na leitura de lâminas, na identificação de tumores e na
estratificação de risco oncológico. No Brasil, essa revolução também avança,
ainda que de forma desigual. Para que a IA seja um vetor de equidade, e não de
ampliação das desigualdades regionais, será indispensável investir em
infraestrutura digital e capacitação profissional contínua. A boa notícia é que
nossa comunidade científica está se preparando: a própria SBP tem expandido sua
oferta de cursos com foco em atualização científica e prática.
No fim das contas, concordo plenamente com a Dra. Carla:
a Patologia não aparece em séries de televisão, não protagoniza cenas de
emergência e raramente ocupa o imaginário popular. Mas é uma especialidade
silenciosa e decisiva, que sustenta decisões essenciais em saúde, nos
principais centros urbanos e também nas regiões mais afastadas.
Se o Brasil deseja enfrentar o câncer e tantas doenças
prevalentes, o caminho é claro: ampliar vagas de formação em Patologia,
valorizar carreiras, modernizar laboratórios públicos e distribuir especialistas
de forma mais equilibrada entre as regiões. É assim que garantimos a mais
pessoas aquilo que nossa Constituição promete: o direito à saúde.
E esse direito, convenhamos, vale muito mais do que
qualquer glamour de tela.




