Especialista
da Inspirali explica como a crise já vem afetando diretamente a população
Com o fim da COP-30, muitas resoluções e novos
questionamentos viraram pauta em todo o mundo no que diz respeito a crise
climática. Já considerada uma crise de saúde pública, as mudanças do clima
chamam atenção também de autoridades médicas e da população. Para entender a
relação entre os efeitos do clima e a saúde, a Inspirali, ecossistema que atua
na gestão de 15 escolas médicas em diversas regiões do Brasil, convidou a Dra.
Marlana Kusama, pediatra e professora na UniSul. Confira:
1. - Como as mudanças climáticas afetam a
nossa saúde?
R: As mudanças climáticas afetam a saúde humana por meio
de ondas de calor, poluição do ar,
eventos extremos, contaminação alimentar e expansão de doenças transmissíveis.
Artigos publicados na OMS, o IPCC e o Lancet Countdown apontam impactos
crescentes e necessidade urgente de adaptação.
2. Há riscos ou alertas de surgimento de
novos tipos de vírus por conta das mudanças climáticas?
R: O aquecimento global altera habitats, estressa
ecossistemas e intensifica o contato entre humanos, animais silvestres e
vetores, aumentando a probabilidade de spillover (transmissão de vírus
de animais para humanos). O risco cresce, embora novos surtos dependam também
de práticas humanas e vigilância sanitária.
3. Das enfermidades já existentes, acredita
que podem piorar por conta do clima?
R: Doenças transmitidas por vetores como dengue, zika,
chikungunya e malária tendem a se expandir para novas regiões. Já doenças
transmitidas por água e alimentos, como em enchentes e secas, aumentam casos de
diarreias, leptospirose e surtos relacionados a água contaminada. Incêndios
florestais e poluentes agravam quadros respiratórios e cardiovasculares. Também
existe o estresse térmico, que é quando ondas de calor aumentam mortalidade e
internações por doenças cardíacas, renais e metabólicas. E, não menos
importante, temos o impacto na saúde mental, pois eventos extremos impactam
ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.
4. - Devemos nos preparar para algum novo
surto?
R: A preparação inclui vigilância integrada
(clima-saúde-vetores), fortalecimento de laboratórios e serviços de saúde, protocolos
para ondas de calor e enchentes e redução de riscos ambientais como
desmatamento.
5. Em relação a saúde da população, existe
alguma região mais propensa a sofrer por conta do clima?
R: Sim, por exemplo, países tropicais e subtropicais são
sinônimo de grandes cidades expostas ao efeito de ilha de calor. Já países de
baixa renda e pequenas ilhas (SIDS) possuem comunidades próximas a áreas de
risco climático e baixa infraestrutura.
6. - Existe algum preparo diferenciado para
os futuros médicos por conta da nova realidade climática?
R: Escolas médicas começam a incluir “Saúde Planetária”
no currículo, para identificação de doenças sensíveis ao clima, manejo clínico
de calor extremo, vigilância epidemiológica e sustentabilidade em serviços de
saúde.
7- Há planos de algum novo protocolo de
atendimento que identifique manifestações causadas pelo clima?
R: Existem diretrizes para calor extremo, incêndios e
surtos pós-desastres, mas ainda faltam protocolos padronizados que integrem
clima de forma sistemática na anamnese e nas ações de vigilância.
8 - Em termos de saúde, estamos preparados
para estas constantes mudanças do clima, que tendem a piorar com o passar do
tempo?
R: Os sistemas de saúde não estão plenamente preparados.
O financiamento para adaptação climática é insuficiente. Indicadores de
exposição (calor, poluição, incêndios) aumentam mais rápido do que a capacidade
de resposta dos países.
9 - Existe algum estudo que relacione as
mudanças climáticas com a saúde da população?
R: Sim. Estudo da Organização Mundial da Saúde – OMS
constata 250.000 mortes adicionais/ano previstas entre 2030–2050 por causas
relacionadas ao clima. A Lancet Countdown constata aumento global de
mortalidade por calor e expansão de áreas adequadas para transmissão de dengue.
IPCC AR6 relata que entre 3 a 3.6 bilhões de pessoas vivem em regiões altamente
vulneráveis às mudanças climáticas. Podemos concluir que as mudanças climáticas
já são uma emergência de saúde pública. Fortalecer sistemas de saúde, prever
riscos climáticos, educar profissionais e reduzir vulnerabilidades sociais é
essencial para reduzir vulnerabilidades sociais no presente e futuro.
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