Mais de um quarto dos estudantes brasileiros relata humilhações recorrentes; especialista orienta como reconhecer mudanças de comportamento e agir diante de falas sobre morte
O
suicídio entre adolescentes e jovens adultos aumentou 38% nas Américas entre 2000
e 2021, mais que o dobro do avanço registrado na população geral, de 17%. Em
2021, 18.157 pessoas de 10 a 24 anos morreram por suicídio na região. O
crescimento mais acentuado ocorreu justamente entre crianças e adolescentes de
10 a 14 anos, segundo estudo publicado em maio de 2026 na revista científica The
Lancet Regional Health – Americas.
No
Brasil, dados divulgados neste ano pelo IBGE também mostram um avanço do
bullying. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, a PeNSE 2024, revelou que
27,2% dos estudantes de 13 a 17 anos sofreram provocações ou humilhações de
colegas duas vezes ou mais nos 30 dias anteriores ao levantamento. Em 2019,
eram 23%. Entre as meninas, o índice chegou a 30,1%.
Os
números reforçam, neste Setembro Amarelo, a necessidade de preparar as escolas
para identificar situações de violência e sofrimento emocional. Embora o
suicídio seja um fenômeno complexo e multifatorial, o ambiente escolar pode
ajudar a perceber mudanças, acolher o estudante e acionar a família e os
serviços especializados.
“Não
existe um sinal isolado que funcione como um alarme. Muitos adolescentes
escondem o que estão vivendo porque acreditam que envolver um adulto pode
piorar a situação ou fazer com que sejam vistos como frágeis. O que a escola
precisa aprender a reconhecer é a ruptura de padrão, quando a criança era de um
jeito e passa a agir de outro”, explica Mariana Ruske, pedagoga e especialista
em Neurociência da Senses Montessori School.
Isolamento,
irritabilidade, queda repentina no rendimento, faltas seletivas, resistência em
ir à escola, dores recorrentes sem causa clínica, materiais quebrados ou
desaparecidos e abandono de atividades antes prazerosas merecem atenção. Outro
comportamento possível é o estudante passar a se esconder durante o intervalo em
locais como banheiro, biblioteca ou secretaria.
“A
tristeza na adolescência nem sempre se apresenta como tristeza. Muitas vezes,
ela aparece como irritação, mau humor e reatividade, comportamentos que
costumam afastar os adultos justamente quando o adolescente mais precisa de
aproximação”, afirma Mariana.
A
PeNSE 2024 constatou que 42,9% dos estudantes se sentiram irritados, nervosos
ou mal-humorados por qualquer coisa. Entre as meninas, o percentual foi de
58,1%. A satisfação com a própria imagem corporal também caiu de 70,2%, em
2015, para 58%, em 2024. Aparência do rosto, do corpo e do cabelo permanece
entre os principais motivos relatados para o bullying.
Bullying não deve ser tratado como uma briga entre iguais
A
especialista explica que três características ajudam a diferenciar um conflito
pontual de bullying: intenção de causar dano, repetição e desequilíbrio de
poder. Quando esses elementos estão presentes, colocar vítima e agressor frente
a frente para “resolver a situação” pode aumentar o sofrimento.
“Conflitos
entre estudantes podem ser mediados. No bullying, não há uma relação
equilibrada. Obrigar um pedido público de desculpas, expor a vítima ou mudá-la
de turma como primeira medida pode transmitir a mensagem de que ela é o
problema”, alerta.
Ao
identificar uma ocorrência, a escola deve ouvir os envolvidos separadamente,
comunicar as famílias, registrar datas, locais, relatos e possíveis
testemunhas, além de acompanhar o caso. Os registros são importantes porque
ajudam a reconhecer a repetição que caracteriza a intimidação sistemática.
A
atuação também deve incluir o estudante que pratica o bullying.
“Responsabilizar é necessário, mas apenas rotular e expulsar não muda o
comportamento. Em alguns casos, quem agride também vive situações de violência
ou sofrimento e precisa de avaliação e acompanhamento”, acrescenta.
O que fazer quando um aluno fala sobre morte?
Toda
fala sobre morte, vontade de desaparecer, automutilação ou falta de sentido
para continuar vivendo deve ser levada a sério. O adulto precisa permanecer ao
lado do estudante, ouvir sem julgamentos e não prometer segredo.
“A
primeira atitude é ficar. Não mudar de assunto, não moralizar e não deixar o
aluno sozinho. É importante dizer que ele fez bem em contar e explicar que
outras pessoas precisarão participar para ajudá-lo”, orienta Mariana.
A
escola deve registrar o relato e comunicar a família no mesmo dia,
preferencialmente de forma presencial, encaminhar o estudante para avaliação
especializada e escolher uma pessoa de referência para acompanhá-lo. Se houver
suspeita de violência ou risco dentro de casa, a rede de proteção, incluindo o
Conselho Tutelar, deve ser acionada.
“A
escola não faz tratamento. Ela observa, acolhe, comunica, encaminha e continua
presente. O professor também não pode receber sozinho a responsabilidade de
conduzir um caso que exige ajuda especializada”, reforça a pedagoga.
A
legislação brasileira prevê serviços de Psicologia e Serviço Social nas redes
públicas de educação básica e instituiu, em 2024, a Política Nacional de
Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares. Na prática, porém, a cobertura
ainda é limitada. Segundo a PeNSE 2024, apenas 47,7% dos estudantes
frequentavam escolas com algum tipo de suporte psicológico para casos de
bullying e violência.
Para
Mariana, palestras e campanhas pontuais não são suficientes. A prevenção
precisa envolver educação emocional desde a infância, diálogo permanente com as
famílias, formação dos profissionais, regras claras, registro das ocorrências e
fortalecimento do sentimento de pertencimento.
“Prevenção
não é apenas colocar um laço amarelo no mural durante setembro. Ela aparece na
forma como a escola reage a uma humilhação, acompanha uma mudança de
comportamento e constrói relações nas quais o estudante percebe que tem valor,
é ouvido e fará falta se não estiver ali”, conclui.
Serviço de ajuda:
Em situações de risco imediato, procure atendimento de urgência ou ligue para o
Samu pelo 192. O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito
pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Mariana
Ruske - Pedagoga da Senses Montessori School
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