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| Ismael Nery. Dois irmãos, 1927. Acervo da Fundação José e Paulina Nemirovsky, em comodato com a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Foto: Isabella Matheus/Pinacoteca |
A mostra ocupa sete salas no 1º andar da Pina Luz e revisita a produção de uma das figuras mais singulares do modernismo brasileiro, avessa a nacionalismos e em busca da eternidade
A Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria
da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo,
apresenta a partir de 5 de setembro a exposição “Ismael Nery: Armadilha
moderna”, dedicada ao trabalho de Ismael Nery (1900–1934), pintor, desenhista,
arquiteto, decorador, cenógrafo e poeta. Ocupando as sete salas de exposição
temporária do primeiro andar do edifício Pina Luz e com curadoria de Yuri
Quevedo, a mostra investiga a trajetória de um dos artistas mais inquietantes
do modernismo brasileiro.
Embora
frequentemente apresentado como uma figura à margem do projeto nacionalista associado
ao modernismo no Brasil, Nery não esteve alheio às questões de seu tempo.
Apropriou-se de linguagens como a ilustração, o cubismo e o surrealismo,
alterando-as a partir de suas próprias inquietações. Em pinturas, desenhos e
poemas, o corpo tornou-se o lugar onde ele investigou a instabilidade da
identidade, a fusão entre os gêneros, a corrupção da matéria e o desejo
religioso de superar os limites do espaço e do tempo.
A
mostra reúne cerca de 230 obras, entre desenhos, pinturas, retratos, autorretratos
e composições com figuras humanas sensuais, muitas vezes andróginas, algumas
ameaçadoras, que operam na fronteira entre o afeto e a violência, o desejo
carnal e o trauma da finitude.
“Somos
atraídos pela figura de um pintor isolado e atormentado, distante dos debates
do modernismo brasileiro. A morte anunciada, os corpos mutilados, a
religiosidade, a fusão entre masculino e feminino e o desejo de destruir a
própria produção parecem ajustar-se com tal perfeição que vida e obra passam a
explicar uma à outra”, explica Yuri Quevedo, curador da Pinacoteca e
responsável pela exposição.
Com
a morte precoce de Nery em 1934, sua produção permaneceu restrita a coleções
privadas e ao círculo de amigos próximos durante décadas, sumindo de museus,
escolas e revisões críticas. O reconhecimento crítico perante o público geral
ocorreu somente a partir de 1965, com a inclusão de um núcleo de seus trabalhos
na Sala Especial de Surrealismo e Arte Fantástica da 8ª Bienal de São Paulo.
Desde
sempre compreendido como uma das vozes mais singulares da arte brasileira,
distante de seus colegas, e próximo dos contemporâneos, Nery tem sua trajetória
revista pela Pinacoteca de São Paulo em uma mostra panorâmica que apresenta
suas contradições, sua densidade teórica e a radicalidade de suas invenções.
A construção de um pensamento à margem do cânone
Nascido
em Belém do Pará, Ismael Nery se mudou para o Rio de Janeiro com a família aos
nove anos de idade. O menino teve sua infância profundamente marcada pelo
ambiente letrado e multifacetado de sua linhagem. As memórias da Amazônia,
marcadas pelo sacerdócio teológico de seu tio-avô cônego, a clínica patológica
do pai médico e os saberes de sua avó de descendência indígena, alimentaram uma
sensibilidade que recusava explicações cartesianas para o mundo.
Formado
como aluno livre pela Escola Nacional de Belas Artes e com passagens pela
Académie Julian, em Paris, Nery assimilou as referências da história da arte
ocidental e das vanguardas para dar forma, nos anos 1920, a uma espécie de
doutrina oral que batiza de "Essencialismo".
Sua
filosofia fundamentava-se no desprendimento das noções de tempo e espaço,
buscando na criação o desdobramento do "eu" e a revelação de uma
verdade imutável situada por trás das formas efêmeras da matéria. Essa busca
traduziu-se no recorrente tema da androginia e da duplicidade. Em suas telas,
corpos desprovidos de gênero definido, figuras calvas e duplos espelhados se
fundem em um abraço sensual ou melancólico.
Exemplo
central desse procedimento é a obra Dois irmãos (1927), na
qual a face do artista e a de sua esposa, a escritora e poeta Adalgisa Nery
(1905–1980), aparecem sobrepostas e portadoras dos mesmos traços anatômicos,
sugerindo manifestações complementares de um único organismo espiritual.
Em
outras obras, Nery desestrutura a anatomia das figuras humanas – expondo suas
vísceras para depois reconstituí-las enquanto unidade. Em obras como Visão
Interna – Agonia (1931) e Eternidade (1931), o corpo surge aberto,
visceral e fragmentado: as entranhas humanas articulam-se com a paisagem e com
a terra, convertendo o sofrimento em meditação sobre a mortalidade e a
eternidade.
A
mostra também enfatiza a teia de relações afetivas e intelectuais que permitiu
à obra de Nery sobreviver. No catálogo, um dos ensaios aborda o casamento do
pintor com Adalgisa. Muito além da posição passiva de musa retratada
compulsivamente em telas e desenhos, Adalgisa integrou ativamente o estilo de
vida estetizado do casal e, após a morte do marido, construiu uma carreira como
poeta, romancista, colunista de imprensa e deputada.
Outro
elemento histórico em foco foi a relação com intelectuais e artistas, como
Mário Pedrosa e Alberto Guignard, e em especial com o poeta Murilo Mendes
(1901–1975). Nery, que encarava a arte como processo iniciático e de pesquisa
espiritual, costumava descartar ou abandonar seus desenhos e telas após o
término. Foi Mendes quem resgatou, catalogou e preservou a maior parte do
acervo do amigo, recusando-se, inclusive, a cumprir o pedido feito pelo artista
no leito de morte para que sua produção fosse totalmente destruída.
Destaques
A
exposição “Ismael Nery: Armadilha moderna” da Pinacoteca traz destaques de seu
próprio acervo, como Dois irmãos (1927), João Batista (c.
1928-1929), Figuras em azul (c.1920) e Autorretrato satânico
(1925). Outras obras de destaque são Composição
de mulher (1929), Perspectiva abstrata (sem data), Três figuras
(1924) e Autorretrato Rio/Paris (1927).
“Ismael
Nery: Armadilha moderna” tem realização da Pinacoteca de São Paulo, APAC
(Associação Pinacoteca Arte e Cultura), Secretaria da Cultura, Economia e
Indústria Criativas do Estado de São Paulo e Ministério da Cultura, além de
patrocínio de Bradesco e Vivo, na categoria Master, e Martinelli Advogados, na
categoria Prata.
SERVIÇO
Pinacoteca de São Paulo
Edifício
Pina Luz | 1º andar
De
quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h)
Período: 05.09.2026 – 31.01.2027
R$
40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada), ingresso único com acesso aos três edifícios
- válido somente para o dia marcado no ingresso
Gratuito
aos sábados
2º
Domingo do mês – entrada gratuita - Gratuidade Mantenedora B3

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