Pesquisar no Blog

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

PINACOTECA DE SÃO PAULO APRESENTA GRANDE EXPOSIÇÃO DEDICADA À OBRA DE ISMAEL NERY


 

Ismael Nery. Dois irmãos, 1927. Acervo da Fundação José e
Paulina Nemirovsky, em comodato com a Pinacoteca
do Estado de São Paulo.
Foto: Isabella Matheus/Pinacoteca

A mostra ocupa sete salas no 1º andar da Pina Luz e revisita a produção de uma das figuras mais singulares do modernismo brasileiro, avessa a nacionalismos e em busca da eternidade

A Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, apresenta a partir de 5 de setembro a exposição “Ismael Nery: Armadilha moderna”, dedicada ao trabalho de Ismael Nery (1900–1934), pintor, desenhista, arquiteto, decorador, cenógrafo e poeta. Ocupando as sete salas de exposição temporária do primeiro andar do edifício Pina Luz e com curadoria de Yuri Quevedo, a mostra investiga a trajetória de um dos artistas mais inquietantes do modernismo brasileiro. 

Embora frequentemente apresentado como uma figura à margem do projeto nacionalista associado ao modernismo no Brasil, Nery não esteve alheio às questões de seu tempo. Apropriou-se de linguagens como a ilustração, o cubismo e o surrealismo, alterando-as a partir de suas próprias inquietações. Em pinturas, desenhos e poemas, o corpo tornou-se o lugar onde ele investigou a instabilidade da identidade, a fusão entre os gêneros, a corrupção da matéria e o desejo religioso de superar os limites do espaço e do tempo. 

A mostra reúne cerca de 230 obras, entre desenhos, pinturas, retratos, autorretratos e composições com figuras humanas sensuais, muitas vezes andróginas, algumas ameaçadoras, que operam na fronteira entre o afeto e a violência, o desejo carnal e o trauma da finitude. 

“Somos atraídos pela figura de um pintor isolado e atormentado, distante dos debates do modernismo brasileiro. A morte anunciada, os corpos mutilados, a religiosidade, a fusão entre masculino e feminino e o desejo de destruir a própria produção parecem ajustar-se com tal perfeição que vida e obra passam a explicar uma à outra”, explica Yuri Quevedo, curador da Pinacoteca e responsável pela exposição. 

Com a morte precoce de Nery em 1934, sua produção permaneceu restrita a coleções privadas e ao círculo de amigos próximos durante décadas, sumindo de museus, escolas e revisões críticas. O reconhecimento crítico perante o público geral ocorreu somente a partir de 1965, com a inclusão de um núcleo de seus trabalhos na Sala Especial de Surrealismo e Arte Fantástica da 8ª Bienal de São Paulo. 

Desde sempre compreendido como uma das vozes mais singulares da arte brasileira, distante de seus colegas, e próximo dos contemporâneos, Nery tem sua trajetória revista pela Pinacoteca de São Paulo em uma mostra panorâmica que apresenta suas contradições, sua densidade teórica e a radicalidade de suas invenções.
 

A construção de um pensamento à margem do cânone 

Nascido em Belém do Pará, Ismael Nery se mudou para o Rio de Janeiro com a família aos nove anos de idade. O menino teve sua infância profundamente marcada pelo ambiente letrado e multifacetado de sua linhagem. As memórias da Amazônia, marcadas pelo sacerdócio teológico de seu tio-avô cônego, a clínica patológica do pai médico e os saberes de sua avó de descendência indígena, alimentaram uma sensibilidade que recusava explicações cartesianas para o mundo. 

Formado como aluno livre pela Escola Nacional de Belas Artes e com passagens pela Académie Julian, em Paris, Nery assimilou as referências da história da arte ocidental e das vanguardas para dar forma, nos anos 1920, a uma espécie de doutrina oral que batiza de "Essencialismo". 

Sua filosofia fundamentava-se no desprendimento das noções de tempo e espaço, buscando na criação o desdobramento do "eu" e a revelação de uma verdade imutável situada por trás das formas efêmeras da matéria. Essa busca traduziu-se no recorrente tema da androginia e da duplicidade. Em suas telas, corpos desprovidos de gênero definido, figuras calvas e duplos espelhados se fundem em um abraço sensual ou melancólico. 

Exemplo central desse procedimento é a obra Dois irmãos (1927), na qual a face do artista e a de sua esposa, a escritora e poeta Adalgisa Nery (1905–1980), aparecem sobrepostas e portadoras dos mesmos traços anatômicos, sugerindo manifestações complementares de um único organismo espiritual. 

Em outras obras, Nery desestrutura a anatomia das figuras humanas – expondo suas vísceras para depois reconstituí-las enquanto unidade. Em obras como Visão Interna – Agonia (1931) e Eternidade (1931), o corpo surge aberto, visceral e fragmentado: as entranhas humanas articulam-se com a paisagem e com a terra, convertendo o sofrimento em meditação sobre a mortalidade e a eternidade. 

A mostra também enfatiza a teia de relações afetivas e intelectuais que permitiu à obra de Nery sobreviver. No catálogo, um dos ensaios aborda o casamento do pintor com Adalgisa. Muito além da posição passiva de musa retratada compulsivamente em telas e desenhos, Adalgisa integrou ativamente o estilo de vida estetizado do casal e, após a morte do marido, construiu uma carreira como poeta, romancista, colunista de imprensa e deputada. 

Outro elemento histórico em foco foi a relação com intelectuais e artistas, como Mário Pedrosa e Alberto Guignard, e em especial com o poeta Murilo Mendes (1901–1975). Nery, que encarava a arte como processo iniciático e de pesquisa espiritual, costumava descartar ou abandonar seus desenhos e telas após o término. Foi Mendes quem resgatou, catalogou e preservou a maior parte do acervo do amigo, recusando-se, inclusive, a cumprir o pedido feito pelo artista no leito de morte para que sua produção fosse totalmente destruída.
 

Destaques 

A exposição “Ismael Nery: Armadilha moderna” da Pinacoteca traz destaques de seu próprio acervo, como Dois irmãos (1927), João Batista (c. 1928-1929), Figuras em azul (c.1920) e Autorretrato satânico (1925). Outras obras de destaque são Composição de mulher (1929), Perspectiva abstrata (sem data), Três figuras (1924) e Autorretrato Rio/Paris (1927). 

“Ismael Nery: Armadilha moderna” tem realização da Pinacoteca de São Paulo, APAC (Associação Pinacoteca Arte e Cultura), Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo e Ministério da Cultura, além de patrocínio de Bradesco e Vivo, na categoria Master, e Martinelli Advogados, na categoria Prata.
 

SERVIÇO 

Pinacoteca de São Paulo

Edifício Pina Luz | 1º andar

De quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h)

Período: 05.09.2026 – 31.01.2027

R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada), ingresso único com acesso aos três edifícios - válido somente para o dia marcado no ingresso

Gratuito aos sábados

2º Domingo do mês – entrada gratuita - Gratuidade Mantenedora B3 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados