Dor, sangramento, cansaço e alterações
emocionais podem fazer parte dos primeiros dias após o nascimento, mas sintomas
intensos ou persistentes precisam de avaliação
Depois de meses de acompanhamento durante a gestação, a chegada do
bebê costuma concentrar toda a atenção da família. Para a mãe, porém, começa
uma outra etapa que nem sempre recebe o mesmo espaço: a recuperação do parto. O
corpo precisa cicatrizar, os hormônios passam por mudanças importantes, o sono
fica fragmentado e, ao mesmo tempo, existe toda a adaptação à rotina de
cuidados com o recém-nascido. Saber o que é esperado nesse período e reconhecer
sinais de alerta é fundamental para que a mulher não normalize sintomas que
precisam de avaliação.
“O pós-parto é uma fase de muitas transformações e cada mulher
terá uma experiência diferente. É esperado que exista cansaço, algum
desconforto e alterações físicas e emocionais, mas isso não significa que a
mulher precise suportar dor intensa ou qualquer sintoma que esteja piorando. O
acompanhamento nesse período é tão importante quanto o pré-natal”, explica Dra.
Karina Belickas, obstetra do Hospital e Maternidade Santa Joana.
Nos primeiros dias, é comum haver sangramento vaginal, chamado
lóquio, que tende a mudar de intensidade, aspecto e odor progressivamente.
Cólicas também podem acontecer, especialmente nos primeiros 7 dias, e durante a
amamentação, quando a liberação de ocitocina contribui para a contração do
útero. Após um parto vaginal, a região do períneo pode apresentar dor ou
sensibilidade, principalmente quando houve laceração ou episiotomia. Já no caso
da cesariana, é esperado algum desconforto e sensibilidade na região da incisão
durante a cicatrização além de desconforto abdominal aos esforços devido a
sutura das 7 camadas da parede abdominal .
O importante é observar a evolução. “Uma das principais
orientações é prestar atenção ao próprio corpo. O esperado é que os sintomas
apresentem melhora progressiva. Quando uma dor aumenta em vez de diminuir,
surge febre, o sangramento fica muito intenso ou aparecem outros sintomas que
causem desconforto ou preocupação, é importante procurar atendimento médico”,
orienta a médica.
Nem tudo deve ser atribuído ao puerpério
Entre os sinais que exigem avaliação estão sangramento vaginal
muito intenso, febre, dor abdominal forte ou progressiva, secreção com odor
desagradável, dificuldade para respirar, dor no peito, desmaio ou inchaço e dor
importante em uma das pernas. Esses sintomas podem estar relacionados a
complicações que precisam de atendimento rápido.
A atenção também deve se estender à pressão arterial. Dor de
cabeça intensa, alterações visuais, dor forte na parte superior do abdômen,
falta de ar ou pressão elevada no período após o parto podem indicar
complicações hipertensivas, mesmo em que manteve a pressão controlada durante a
gestação, e não devem ser tratados simplesmente como cansaço ou consequências
da privação de sono.
A saúde emocional merece o mesmo cuidado. Oscilações de humor,
choro fácil e maior sensibilidade podem aparecer nos primeiros dias,
especialmente diante da mudança hormonal, do cansaço e da adaptação à nova
rotina. No entanto, tristeza persistente, ansiedade intensa, sensação de
incapacidade para cuidar do bebê, isolamento ou perda de interesse pelas
atividades precisam ser avaliados.
“O puerpério não é apenas uma recuperação física. Existe uma
mudança emocional muito grande e uma cobrança, muitas vezes silenciosa, para
que a mulher esteja feliz o tempo todo. Pedir ajuda não significa que ela não
esteja feliz com a chegada do bebê ou que seja uma mãe ruim. Significa
reconhecer que ela também precisa de cuidado”, afirma Dra. Karina.
Outro ponto importante é não transformar a recuperação em uma
corrida para voltar ao corpo ou à rotina anterior à gestação. O tempo
necessário varia de acordo com o tipo de parto, as condições clínicas da mulher
e possíveis intercorrências. Atividade física, retomada da vida sexual e
retorno à rotina devem acontecer de forma gradual e individualizada, conforme a
avaliação médica.
A amamentação também pode fazer parte dos desafios dessa fase.
Dor, fissuras, dificuldade na pega, ingurgitamento e dúvidas sobre a produção
de leite são situações que podem gerar ansiedade, mas não precisam ser
enfrentadas sozinhas. O suporte de profissionais capacitados pode ajudar a
tornar o processo mais confortável para mãe e bebê.
“Existe uma expectativa de que, depois do parto, a mulher
simplesmente volte ao normal. Mas o pós-parto é uma continuidade do cuidado da
gestação. O organismo passou por mudanças enormes e precisa de tempo.
Recuperação não é voltar imediatamente a ser quem era antes, mas acompanhar
como o corpo está respondendo e oferecer suporte quando necessário”, destaca a
obstetra.
A consulta pós-parto também não deve ser encarada apenas como uma
avaliação da cicatrização. O acompanhamento deve considerar saúde física e
emocional, amamentação, sono, contracepção, sexualidade, recuperação do parto e
condições de saúde que já existiam antes da gestação ou que surgiram durante
ela.
Por isso, além de observar a própria recuperação, é importante que a mulher tenha uma rede de apoio e mantenha o acompanhamento profissional após o nascimento. O puerpério é uma fase de adaptação para toda a família, mas o cuidado com quem acabou de dar à luz não deve ficar em segundo plano.
Hospital e Maternidade Santa Joana
www.santajoana.com.br
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