Ciúme, limites, transparência e expectativas precisam ser negociados pelo casal; psicóloga explica por que abrir a relação sem diálogo pode intensificar conflitos já existentes.
Uma análise de 35 estudos, envolvendo
quase 25 mil pessoas, identificou níveis semelhantes de satisfação entre
relacionamentos monogâmicos e consensualmente não monogâmicos. O resultado
indica que nenhum modelo é, por si só, garantia de felicidade. A qualidade da
relação depende de fatores como consentimento, comunicação, confiança e
compatibilidade entre os envolvidos.
Quando a possibilidade de abrir o
relacionamento surge durante uma crise, porém, ela pode ser apresentada como
uma tentativa de recuperar o desejo, evitar uma separação ou solucionar
insatisfações antigas. Segundo a psicóloga e sexóloga Dra. Walkíria Fernandes,
especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia Comportamental
Integrativa para Casais, mudar o acordo não elimina os problemas anteriores.
“Se o casal já enfrenta mentiras,
ressentimentos, dificuldades sexuais ou falta de diálogo, a abertura pode
ampliar essas fragilidades. Novas pessoas entram na dinâmica, mas os conflitos
que não foram enfrentados continuam presentes”, explica.
Antes da decisão, é necessário
compreender se os dois realmente desejam experimentar esse modelo ou se uma das
partes está concordando por medo de perder o relacionamento. Aceitar sob
pressão, para agradar o parceiro ou impedir uma traição, não representa um
consentimento construído com liberdade.
Também precisam ser discutidos limites
relacionados ao envolvimento emocional e sexual, formas de proteção contra
infecções sexualmente transmissíveis, frequência dos encontros, privacidade,
compartilhamento de informações e possibilidade de rever o acordo. “Não basta
dizer que está permitido ficar com outras pessoas. Cada integrante pode ter uma
compreensão diferente sobre o que essa abertura significa, e as diferenças
aparecem quando os limites não foram definidos”, afirma Walkíria.
O ciúme também não desaparece
automaticamente porque houve concordância. Ele pode revelar medo de
substituição, insegurança, comparação ou necessidade de previsibilidade. A
especialista orienta que o sentimento seja conversado sem acusações, mas
ressalta que nenhum combinado deve exigir que alguém suporte sofrimento
constante apenas para demonstrar maturidade ou liberdade.
Outro alerta é utilizar a abertura para
legitimar um interesse que já existia sem que o parceiro soubesse. Quando a
proposta vem acompanhada de urgência, chantagem emocional ou regras que
favorecem apenas uma pessoa, o acordo deixa de ser equilibrado. Da mesma
maneira, esconder encontros ou descumprir limites continua sendo uma quebra de
confiança, mesmo dentro de uma relação aberta.
“Relacionamentos não monogâmicos podem
ser saudáveis quando correspondem aos valores e desejos dos envolvidos. O
problema é tratá-los como remédio para uma relação que perdeu confiança, diálogo
ou intimidade. Antes de mudar o formato, o casal precisa compreender o que está
tentando resolver e se ambos possuem segurança para fazer essa escolha”,
conclui a psicóloga.
Fonte: Dra.
Walkíria Fernandes — psicóloga e sexóloga, especialista em Terapia
Cognitivo-Comportamental e Terapia Comportamental Integrativa para Casais.
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