Doenças de pele podem representar até 20% dos atendimentos; especialistas explicam quando as roupinhas ajudam e quando podem prejudicar cães e gatos
Com a queda brusca nas temperaturas, é natural que os tutores
busquem alternativas para aquecer os animais de estimação. As vitrines se
enchem de casacos, moletons e fantasias de inverno. No entanto, o que começa
como um gesto de cuidado e estética pode se transformar em um problema de saúde
para cães e gatos. A WeVets, maior grupo de saúde veterinária do Brasil, faz um
alerta clínico: o uso prolongado e incorreto de roupinhas está entre os fatores que podem
desencadear crises dermatológicas e desconforto físico durante o inverno.
De acordo com a World Small Animal Veterinary Association (WSAVA),
as doenças dermatológicas estão entre as condições mais frequentes na medicina
veterinária de pequenos animais, podendo representar até 20% dos atendimentos
clínicos Esse número pode chegar a até 70% dependendo da região. Em um país que
abriga cerca de 160 milhões de animais de estimação, segundo o Instituto Pet
Brasil (IPB), a adoção de cuidados inadequados durante os períodos de frio pode
impactar milhões de pets.
Ao contrário dos seres humanos, os animais possuem uma barreira
natural extremamente eficiente de proteção térmica: a pelagem e a gordura
subcutânea. Quando o tutor insere uma camada artificial de tecido sobre o corpo
do animal sem necessidade real, o microclima da pele se altera drasticamente.
O
perigo do "abafamento" e as dermatites ocultas
O erro mais frequente é manter o animal vestido por dias seguidos,
sem intervalos para que a pele respire. “O tecido em contato contínuo com o
corpo do animal retém a umidade natural da pele, reduz a ventilação e cria um
ambiente quente e úmido, principalmente se o pet tiver dermatite atópica. Esse
é o cenário ideal para a proliferação de fungos e bactérias. Quando o tutor
retira a roupa para lavar, muitas vezes se depara com quadros de dermatite,
infecções cutâneas e alergias que exigem tratamento medicamentoso”, explica
Analice Munhoz, médica veterinária na WeVets.
Além das infecções de pele, o atrito constante do tecido com os
pelos compridos provoca a formação de nós complexos, especialmente em regiões
de dobra como axilas e virilhas. Esses nós tensionam a pele, gerando dor e
desconforto e, em casos mais graves, podem exigir a remoção completa da pelagem
afetada.
Quem
realmente precisa de roupa?
A necessidade de proteção térmica varia conforme a anatomia, a
idade e o histórico de saúde do pet. Organizações veterinárias internacionais,
como a American Veterinary Medical Association (AVMA), apontam que filhotes,
idosos, animais de pequeno porte, com baixa gordura corporal ou pelagem curta
são os mais suscetíveis aos efeitos das baixas temperaturas.
A indicação clínica de uso de roupas restringe-se principalmente
a:
- Animais de pelagem muito curta ou nua: raças como Pinscher, Whippet, Galgo Italiano e o gato Sphynx
possuem menor capacidade de retenção de calor.
- Pets idosos e com doenças ortopédicas: o frio pode intensificar dores associadas à artrose e outras
alterações articulares.
- Filhotes e convalescentes: animais muito jovens ou em recuperação de cirurgias e
doenças apresentam maior dificuldade de regulação térmica.
Por outro lado, raças de pelagem dupla ou densa, como Spitz
Alemão, Husky Siberiano, Chow Chow, Golden Retriever e a maioria dos gatos de
pelo longo, normalmente não necessitam de roupas para enfrentar o inverno. Em
alguns casos, o excesso de proteção pode comprometer a função isolante natural
da pelagem.
Manual
do inverno seguro para os tutores
Para garantir o bem-estar do pet sem colocar a saúde em risco, a
especialista da WeVets recomenda:
Rodízio e escovação: retirar a roupa pelo menos duas vezes ao
dia para escovar os pelos e verificar a condição da pele. A mesma peça não deve
permanecer no animal por mais de 24 horas sem higienização. O ideal é lavar a
roupinha ao retirar do armário antes de colocar no pet, principalmente se ele
já tiver histórico de dermatite alérgica.
Tecidos adequados: optar por algodão ou soft leve, que
favorecem a troca de calor. Materiais sintéticos, lãs que soltam fiapos e peças
com adornos devem ser evitados.
Liberdade de movimento: a roupa não pode restringir a locomoção,
o ato de sentar ou as necessidades fisiológicas do pet.
Observar sinais reais de frio: tremores persistentes, busca constante por locais aquecidos, sono excessivamente encolhido e extremidades frias, como patas e orelhas, são indicativos mais confiáveis do que a percepção térmica do tutor.
“O frio existe e alguns animais realmente precisam de proteção adicional. O problema surge quando o tutor acredita que todo pet sente frio da mesma forma que um ser humano. A melhor estratégia é observar os sinais do animal e buscar orientação veterinária com um especialista, como os da equipe da WeVets, antes de transformar uma medida de conforto em um fator de risco para a saúde”, finaliza a especialista da WeVets.

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