Para muitos profissionais, o maior desafio é conseguir transformar o conhecimento técnico e complexo em uma explicação simples e acessível
"Ana,
eu entendi o que você quis dizer no vídeo mas receio que o seu paciente não
entenderá”.
Foi assim
que começou a minha conversa com Ana, uma cirurgiã-dentista experiente. A fala
dela estava carregada de jargões da profissão sem tradução e focada em aspectos
técnicos.
Mas não é
difícil apenas para a Ana.
O desafio
de transformar um conhecimento complexo em explicação simples tem um nome
conhecido: a “maldição do conhecimento”, um viés cognitivo que explica a
dificuldade de imaginar a mente de alguém que não possui o mesmo conhecimento
que o seu.
Um bom
exercício de percepção desse viés é tentar explicar a um idoso não
familiarizado com a tecnologia como baixar um aplicativo. Ou contar uma obra de
Shakespeare para uma criança de 8 anos. São duas maneiras de entender o que a
psicóloga Elizabeth Newton identificou em 1990. Em seu estudo, ela dividiu pessoas
em dois grupos: um de “batucadores” e o outro de “ouvintes”.
Tarefa
simples: os batucadores tinham de batucar na mesa algumas músicas conhecidas,
como ‘Parabéns pra Você’.
Otimistas,
os batucadores estimaram que 50% das faixas seriam adivinhadas pelos ouvintes.
Mas a taxa de sucesso foi bem menor: de 120 músicas tocadas, apenas três foram
identificadas corretamente.
É que
quando você já sabe qual é a música, fica fácil ouvi-la na sua cabeça.
Quando
pensamos na comunicação, a premissa é a mesma. E o cuidado para evitar não ser
compreendido por excesso de “tequiniquês”, necessário.
Por isso,
vai falar para grupos grandes e diversos? Tem uma apresentação na semana que
vem para colegas da empresa? Considere que o público não sabe “qual é a
música”. Esforce-se para ser simples, claro, objetivo e, principalmente
acessível. A recomendação também vale se o público for técnico. Até mesmo esses
profissionais tendem a sofrer com a sobrecarga cognitiva e se sentirem cansados
com uma enxurrada de expressões complexas.
Na dúvida, simplifique
Algumas
estratégias são eficazes para simplificar:
1 - Comece
pelo fim. Responda-se: quando eu terminar de falar, o que eu
quero que o meu ouvinte saia sabendo e/ou fazendo? Utilize os primeiros minutos
para deixar isso claro, e informe o tempo que irá levar.
2 - Uma
criança de oito anos entenderia? Conhecida como Técnica
Feynman, essa estratégia foca na extrema simplificação. Fale em voz alta o que
irá dizer e elimine completamente os jargões técnicos. Se for preciso
mantê-los, responda-se como é possível "traduzi-los" rapidamente após
falar.
3 - Abuse das
analogias. Usar o que o público já sabe para explicar algo que
ele ainda não conhece torna qualquer explicação diferenciada e conectada com a
audiência. Vale explorar temas da construção civil, gastronomia ou esporte.
Exemplo: Warren Buffet dizia que uma excelente empresa é como um castelo
econômico com um fosso largo ao redor. Este fosso representa tudo o que protege
a empresa de seus concorrentes.
Além de
Buffet, Jeff Bezos, Steve Jobs e outros grandes líderes contemporâneos
multiplicaram seu conhecimento e suas fortunas usando premissas assim. Sem medo
de parecerem “menos inteligentes”.
A
propósito, é ilusão aceitar que somente a maldição do conhecimento pode
explicar os discursos complexos e abstratos. A linguagem também é um símbolo de
poder e status. Para muitos profissionais inteligentes, aumentar a clareza é
perder ambos.
De uma vez por todas, pare de falar para
parecer inteligente e comece a falar para ser útil.
Giovana Pedroso - TEDx Speaker, jornalista e especialista em comunicação

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