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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Neurociência da sexualidade ganha espaço na formação de profissionais que cuidam de pacientes com câncer

Minicurso mostra como compreender os impactos neurobiológicos e emocionais da doença, pode transformar o cuidado oncológico


Falar sobre sexualidade ainda é um desafio nos consultórios e hospitais, principalmente quando o assunto envolve pacientes em tratamento ou recuperação do câncer. Embora os avanços da medicina tenham ampliado as chances de cura e sobrevida, aspectos como desejo, autoestima, intimidade e identidade continuam recebendo pouca atenção durante a assistência.

É justamente essa lacuna que motivou a enfermeira, mestre e doutora em Saúde da Mulher e Oncologia, Íris Bazílio, a desenvolver o minicurso "A Neurociência da Sexualidade: Qualidade de Vida Após o Câncer", voltado a profissionais da saúde interessados em compreender como fatores neurobiológicos, emocionais e relacionais interferem na recuperação e na qualidade de vida dos pacientes.

Com 28 anos de atuação na enfermagem, ela pesquisa os impactos da sexualidade feminina no contexto oncológico, atua no Instituto Nacional do Câncer (INCA) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de ter criado um ambulatório pioneiro voltado à sexualidade de mulheres com câncer de mama.

"Quando fazemos essa pergunta, não estamos falando apenas de sexo. Estamos dizendo ao paciente: 'Eu vejo você inteiro. Não apenas o seu câncer'. É exatamente nesse momento que a ciência encontra a humanidade", afirma Íris Bazílio.


Muito além dos efeitos físicos

Ao longo do curso, os participantes percorrem desde os fundamentos da neurociência da sexualidade até os impactos que quimioterapia, cirurgia e hormonioterapia provocam não apenas no organismo, mas também na autoestima, na imagem corporal, no desejo e na forma como o paciente se relaciona consigo mesmo e com o outro.

Outro ponto de destaque é a discussão sobre como experiências traumáticas anteriores podem influenciar a resposta sexual após o diagnóstico do câncer. A proposta é ampliar o olhar dos profissionais para além dos sintomas físicos, reconhecendo que cada paciente traz consigo uma história que também precisa ser considerada durante o tratamento.

A capacitação ainda apresenta estratégias baseadas em evidências científicas, como práticas integrativas, mindfulness e outras intervenções capazes de auxiliar na redução da ansiedade, do estresse e de sintomas que comprometem a intimidade e a qualidade de vida, sempre como complemento ao tratamento convencional.


Um novo olhar para a prática clínica

A enfermeira oncológica do Instituto Nacional de Câncer (INCA), Natália Moreira, participou do minicurso e destaca que a abordagem apresentada trouxe uma perspectiva inédita, mesmo para quem já estuda sexualidade no contexto do câncer. "Minha área de estudo é a sexualidade humana e o câncer, mas nunca havia estudado pela perspectiva da neurociência. Achei inovador", afirma.

Segundo ela, compreender a influência dos traumas na forma como cada paciente vivencia a sexualidade foi um dos conteúdos mais marcantes. "Esse entendimento me fez estar mais atenta e sensível em como as mulheres com câncer vivenciam sua sexualidade e ao que pode estar oculto nessa experiência", relata.

Natália também acredita que o aprendizado deve refletir diretamente nos atendimentos no dia a dia. "Não adianta o profissional mencionar o tema apenas para dizer que foi mencionado. É preciso estudo, aprofundamento, reflexão e capacitação. A neurociência traz uma nova perspectiva de cuidado", destaca.


Um tema que precisa sair do silêncio

Apesar dos avanços da oncologia, a sexualidade ainda permanece cercada por tabus dentro dos serviços de saúde. Para Natália, esse cenário está diretamente ligado à escassez de formação específica durante a graduação e à pouca discussão sobre o assunto nos ambientes de assistência.

"Nosso atendimento ainda está muito voltado para a doença, para os efeitos colaterais e para a cura. Precisamos ir além e olhar o paciente de forma integral", observa a enfermeira.

É justamente esse o propósito das capacitações desenvolvidas pela Dra. Íris Bazílio: incentivar profissionais da saúde a incorporarem a sexualidade como parte essencial do cuidado oncológico, reconhecendo que qualidade de vida também significa preservar identidade, vínculos afetivos e bem-estar após o câncer. 

Esse e outros cursos fazem parte das ações do Instituto Íris Bazílio, que reúne atividades de ensino, pesquisa e capacitação voltadas a profissionais da saúde. Mais informações estão disponíveis no site irisbazilio.com, no Instagram @iris.bazilio e no canal da especialista no YouTube.


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