Segundo a psicóloga Lívia Barreto, da Mental One, a dinâmica das
plataformas de apostas ativa mecanismos cerebrais ligados à recompensa imediata
e pode aumentar o risco de comportamento compulsivo.
As plataformas de apostas esportivas se
popularizaram no Brasil e passaram a fazer parte da rotina de milhões de
pessoas. Presentes nas redes sociais, patrocinando grandes clubes de futebol e
acessíveis com apenas alguns cliques, elas transformaram uma prática que antes
era mais restrita em uma experiência digital disponível a qualquer momento.
Para a psicóloga Lívia Barreto, da Mental
One, o fenômeno vai muito além da facilidade de acesso. Segundo ela, o formato
das bets reúne elementos capazes de estimular intensamente o sistema de
recompensa do cérebro, favorecendo um ciclo de repetição difícil de interromper.
"O universo das apostas sempre
existiu. A diferença é que hoje ele chega ao celular com uma aparência muito
mais leve e acessível. A pessoa não precisa sair de casa, nem se expor. Com
poucos cliques, consegue apostar a qualquer hora do dia, o que reduz barreiras
e torna esse comportamento muito mais frequente", explica.
De acordo com a especialista, um dos
principais mecanismos envolvidos nesse processo é o chamado reforço
intermitente, um padrão psicológico em que as recompensas
acontecem de forma imprevisível.
"Você ganha uma vez, perde várias,
depois volta a ganhar. Como não existe uma lógica previsível, o cérebro
permanece esperando que a próxima tentativa seja a vencedora. Esse é um dos
mecanismos de aprendizagem mais potentes que conhecemos e ajuda a explicar por
que tantas pessoas têm dificuldade para interromper esse comportamento."
Esse processo também está diretamente
relacionado à liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de
prazer, motivação e expectativa de recompensa.
"A cada aposta existe uma expectativa muito grande de ganhar. Mesmo quando isso não acontece, o cérebro continua alimentando a esperança da próxima recompensa. Essa busca constante pela sensação de prazer imediato pode fazer com que a pessoa entre em um ciclo de repetição cada vez mais intenso", afirma Lívia.
Segundo a psicóloga, esse comportamento
também reflete uma característica da sociedade atual, marcada pela busca por
recompensas rápidas e estímulos constantes.
"Vivemos em uma cultura que estimula respostas
imediatas. As bets oferecem exatamente isso: uma possibilidade de recompensa
instantânea, sem grandes esforços. Quanto mais nos acostumamos com esse tipo de
estímulo, mais difícil pode se tornar encontrar satisfação em experiências que
exigem tempo, construção e presença."
Isso não significa que toda pessoa que
aposta desenvolverá uma compulsão. No entanto, quando as apostas passam a
ocupar espaço excessivo na rotina, geram prejuízos financeiros, afetam
relacionamentos ou se tornam uma tentativa frequente de aliviar ansiedade,
estresse ou frustrações, é importante buscar ajuda profissional.
"Mais do que combater o comportamento, precisamos entender
o que a pessoa está tentando encontrar naquela aposta. Muitas vezes, o jogo
acaba preenchendo um vazio emocional ou oferecendo uma sensação de recompensa
que ela não consegue experimentar em outras áreas da vida. O tratamento passa
justamente pela construção de conexões mais saudáveis, significativas e
duradouras", conclui Lívia Barreto.
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