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sábado, 11 de julho de 2026

Por que repetimos os mesmos erros? O conceito psicanalítico da compulsão à repetição nas escolhas da vida

 

Especialista desvenda os mecanismos do inconsciente que nos levam a entrar nos mesmos empregos abusivos ou escolher parceiros com os mesmos defeitos do passado, e explica como quebrar esse ciclo em análise.

 

Trocar de emprego e, meses depois, perceber que o novo ambiente reproduz os mesmos problemas do anterior. Encerrar um relacionamento desgastante para, algum tempo depois, envolver-se com alguém de perfil semelhante. Situações como essas são mais comuns do que parecem e despertam uma pergunta recorrente: por que algumas pessoas parecem repetir os mesmos padrões, mesmo quando desejam mudar? Para a psicanálise, esse fenômeno pode estar relacionado ao conceito de compulsão à repetição, mecanismo inconsciente que leva o indivíduo a reviver conflitos ainda não elaborados.

Embora o termo seja pouco conhecido fora dos consultórios, a compulsão à repetição foi descrita por Sigmund Freud para explicar a tendência humana de reviver experiências emocionalmente marcantes, mesmo quando elas provocam sofrimento. Em vez de aprender com o passado e evitá-lo, o inconsciente busca recriar situações semelhantes como uma tentativa de elaborar conflitos que permaneceram abertos.

Segundo a psicóloga especialista em ansiedade Eliane Alves, esse processo acontece de forma inconsciente e, por isso, muitas pessoas acreditam que estão apenas tendo "azar" nas escolhas. "É comum ouvir alguém dizer que sempre encontra parceiros com o mesmo comportamento ou chefes igualmente abusivos. Na maioria das vezes, não se trata de coincidência, mas da repetição de padrões emocionais construídos ao longo da vida, que continuam influenciando as decisões sem que a pessoa perceba", explica.

Esses padrões costumam ter origem nas primeiras experiências afetivas e familiares. A maneira como a criança aprendeu a lidar com amor, rejeição, reconhecimento, críticas ou abandono pode servir de modelo para relacionamentos futuros, influenciando a forma como ela escolhe parceiros, estabelece amizades, se posiciona no trabalho e enfrenta conflitos.

"Aquilo que não foi elaborado emocionalmente tende a buscar novas formas de aparecer. O inconsciente tenta resolver antigos conflitos recriando cenários parecidos, mas, sem consciência desse movimento, a pessoa acaba revivendo o sofrimento em vez de transformá-lo", afirma Eliane.

A repetição também pode estar presente em comportamentos que vão além dos relacionamentos amorosos. Pessoas que assumem responsabilidades excessivas, têm dificuldade em impor limites, aceitam ambientes profissionais tóxicos ou vivem buscando aprovação constante podem estar reproduzindo padrões desenvolvidos em outros momentos da vida, sem perceber a influência dessas experiências sobre suas escolhas atuais.

Romper esse ciclo exige mais do que força de vontade. Para a especialista, mudanças profundas acontecem quando o indivíduo consegue compreender os significados emocionais por trás das próprias escolhas. "Enquanto o padrão permanece inconsciente, ele continua conduzindo comportamentos. O autoconhecimento permite identificar essas repetições e criar novas possibilidades de resposta diante das situações da vida."

Nesse processo, a psicoterapia, especialmente a abordagem psicanalítica, oferece um espaço para que essas experiências sejam reconhecidas, compreendidas e ressignificadas. Ao entrar em contato com conteúdos antes inconscientes, o paciente amplia sua capacidade de fazer escolhas mais alinhadas às necessidades do presente, em vez de repetir respostas construídas no passado.

"Todos nós repetimos padrões em alguma medida. A diferença está em conseguir perceber quando essas repetições geram sofrimento e entender que elas podem ser transformadas. Conhecer a própria história não muda o passado, mas amplia a liberdade para construir um futuro diferente", conclui a psicóloga.

  

Fonte: Eliane Alves | Psicóloga – especialista em ansiedade.


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