As férias escolares, que deveriam representar um período de descanso, descobertas e convivência familiar, vêm se transformando em uma maratona de telas para muitas crianças.
Sem
a rotina da escola e diante da dificuldade de conciliar trabalho e cuidados com
os filhos, pais e responsáveis recorrem a celulares, tablets e televisores como
uma solução prática para preencher o tempo livre. O problema é que essa
dependência crescente pode ter impactos importantes no desenvolvimento
infantil.
Diversos
estudos associam o excesso de exposição aos dispositivos digitais a prejuízos
na linguagem, na atenção, na qualidade do sono e na interação social,
especialmente nos primeiros anos de vida. A Organização Mundial da Saúde
recomenda que crianças pequenas tenham o momento sedentário diante de telas
bastante limitado e destaca a importância de atividades físicas, brincadeiras e
interações reais para um desenvolvimento saudável.
No
entanto, a solução não está em simplesmente proibir os eletrônicos. Retirar o
tablet sem oferecer alternativas costuma gerar conflito e frustração. A questão
central é substituir o período de conexão por experiências mais
significativas.
As
férias são uma oportunidade valiosa para isso. Criar uma agenda de possibilidades
como viagens em família ou, mesmo se não conseguir pausar o
trabalho, elaborar uma programação que as motive, fortalecem vínculos humanos,
boa convivência e bem-estar emocional.
Brincadeiras
e esportes ao ar livre, dia da culinária, do cinema, da montagem de
brinquedos a partir do reaproveitamento de materiais, dos passeios
culturais, do piquenique no parque, da leitura, jogos de
tabuleiro, práticas artísticas e até a participação em tarefas domésticas
estimulam o entusiasmo, a criatividade, a autonomia e habilidades
socioemocionais. São experiências que nenhum algoritmo consegue
reproduzir.
Outro
ponto fundamental é o exemplo dos adultos. É difícil convencer uma criança a
largar o celular quando os próprios pais passam grande parte do dia conectados.
O uso saudável da tecnologia começa dentro de casa, com regras claras para toda
a família e momentos de convivência livres de dispositivos.
Também
é importante abandonar a ideia de que a tecnologia é a vilã da história. A
Academia Americana de Pediatria tem enfatizado que a qualidade do uso importa
tanto quanto a quantidade. O desafio não é eliminar as telas, mas
equilibrá-las com atividades que promovam aprendizado, movimento, gerem
memórias afetivas a partir do contato com o mundo real.
A
infância é um período curto demais para ser vivida apenas no campo
virtual. Ao final das férias, dificilmente uma criança lembrará das horas
gastas assistindo vídeos ou deslizando o dedo no celular. Mas ela certamente
guardará na memória a diversão em família, o passeio de bicicleta, a cabana
montada na sala, o cineminha feito em casa com pipoca, a receita preparada em
família, a descoberta de um novo mundo dentro de um livro, ou a
aventura na natureza.
É
importante destacar que o estudo pessoal não deve ser esquecido. Antes de
voltar às aulas, é bom realizar uma revisão, praticar exercícios e algumas
leituras para ativar a mente e prepará-la para o retorno escolar.
Acredito
que o maior desafio das férias escolares não seja ocupar o tempo das crianças:
o essencial é ajudá-las a redescobrir que a vida acontece muito além do
ambiente digital, com criatividade e vivências especiais. Enquanto isso,
nós, adultos, reaprendemos a ser mais presentes também.
Silmara Casadei - doutora em Educação, psicanalista e
escritora, autora de O Pequeno Mundo Criativo.

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