Narciso não
tem culpa, afinal, não compreendia que apreciava a própria figura, ao ver-se
refletido na água. Ademais, cumpria um castigo divino: apaixonar-se pelo
próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado com sua bela imagem, procurando-a
nas águas de um rio, dedicou-se a ela até definhar. Após sua morte, Afrodite o
transformou em flor: Narciso.
Trago da
Wikipédia: “O narcisismo tem o seu nome derivado de Narciso e ambos derivam da
palavra grega narke (entorpecido), de onde também vem a palavra narcótico.
Assim, para os gregos, Narciso simbolizava a vaidade e a insensibilidade, visto
que ele era emocionalmente entorpecido às solicitações daqueles que se
apaixonaram pela sua beleza.
Mas Narciso
não simboliza apenas mera negatividade: ‘o mito de Narciso representa (senão
para os gregos ao menos para nós) o drama da individualidade’; ‘ele mostra,
isto sim, a profundidade de um indivíduo que toma consciência de si mesmo’ em
si mesmo e perante si mesmo, ou seja, no lugar onde experimenta os seus dramas
humanos”.
O
narcisismo, pois, é saudável; é visto como doentio só quando exacerbado, quer
dizer, quando a apreciação de alguém por si mesmo está demais da conta: há quem
não vá ao médico porque está convencido de doença alguma lhe alcançará; muita
gente não atinge seus desideratos e conclui que o insucesso decorre de
perseguição de “todo mundo”.
Seja na
grandeza, seja na desventura, o narcisista coloca-se em posição de importância
particular, assim, em exemplo, admitir-se doente feriria a própria imagem,
havida acima do comum. Igualmente, a adversidade que lhe obstaculize: não será
a que atinge a massa geral; tem-se em relevância tamanha que “as pessoas”
desejam magoá-lo.
No nosso
país de muitas crenças, algumas crendices narcísicas: não faz muito tempo,
viam-se discos voadores. Mirava-se o Céu e lá estava o que ninguém enxergava
sendo avistado por seres “especiais”, “sensíveis”. Nada grave, afinal conceber
na imaginação não machuca. Com menos adeptos a tais visões, a questão dos
OVNIs, hoje, é menos frequentada.
Menos
frequentada, porém não menos reunida em pessoas com autoatribuídas condições
especiais no mundo. Daí, ainda se delira, falsificam-se histórias, ou crê-se em
haver sido abduzido por extraterrestres; claro, só humanos com destacada
importância chamariam a atenção de alienígenas a ponto de fazerem-se objeto de
interesse, quiçá de estudo.
Outro tipo
narcisista é o que está seguro da conspiração do Universo para ordenar-se de
maneira tal a servir-lhe aos interesses. “O Universo conspira, entende? Ele
devolve o que se faz por ele: energia boa”. É de pensar: “fazer pelo Universo”
com tal e tamanho resultado que ele inteiro, agradecido, devolverá o benefício.
Não é pouca coisa, pois não?
Há quem
seja servido pelos astros: os astros se ordenarão para si. O Céu está em
movimento, com mais ou menos velocidade, porém, algumas pessoas especiais
promovem alinhamentos astrológicos que, de tal forma dispostos, os corpos
celestes fazem-se agentes da ambição do narcísico. Grandeza assim, só para uma
mente especial, a mente narcísica.
Há os
“evoluídos”: creem que estamos todos na Terra para evoluir; que há quem já
evoluiu bastante. “Naturalmente”, quem crê em tal progressividade coloca-se
como já progredido, titular de um bom lugar na “escala de evolução”; desta vida
de “aprendizado” ressurgirá como um “espírito de luz”. Alguém se reconhece como
irrelevante alma obscura? Nunca.
Há uma
diversidade muito grande de narcisistas no campo da religião. Para o que está
em pecado, o “demônio em pessoa me atentou”. Assim, o iníquo narcisista, sendo
ele quem é, errou porque o “senhor das trevas” saiu das profundezas do Inferno
e ocupou-se particularmente dele. Não é qualquer anjo caído que o alcança, é o
próprio Lúcifer que lhe veio.
Agora,
sobressaído é o religioso cristão em glória: ele crê numa divindade que criou o
Céu e a Terra e está acima de todas as coisas. Seu deus é ubíquo, onisciente, atemporal.
É incognoscível, não cabe na consciência humana. Todavia, o narcisista cristão
jacta-se: “deus é fiel”; põe seu deus a seu serviço. Não é coisa pequena.
Narciso, por menos, virou flor.
Doutor em Direito pela UFSC
Psicanalista e Jornalista.
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