Transformações tecnológicas sempre alteraram a forma como trabalhamos. A diferença é que, desta vez, estamos diante de sistemas capazes de produzir textos, imagens, análises e respostas em poucos segundos. Isso provoca uma sensação inédita de concorrência com algo que se aproxima de processos antes considerados exclusivamente humanos.
A
discussão sobre inteligência artificial costuma girar em torno das profissões
que desaparecerão e das novas exigências do mercado de trabalho. Embora esse
debate seja importante, ele deixa em segundo plano quais capacidades humanas
precisarão ser fortalecidas desde a infância para que as próximas gerações
possam viver de forma autônoma em um mundo cada vez mais mediado por sistemas
inteligentes.
Curiosamente,
à medida que as máquinas se tornam mais eficientes, características antes
consideradas subjetivas passam a ganhar valor estratégico. Pensamento crítico,
criatividade, flexibilidade cognitiva, capacidade de colaboração e inteligência
socioemocional deixaram de ser apenas habilidades desejáveis e tornaram-se
competências essenciais.
Isso
ajuda a explicar um dado interessante: embora sejam os principais usuários
dessas ferramentas, 66% dos jovens afirmam não confiar totalmente nas respostas
geradas pela inteligência artificial (Ipsos, 2026). Mesmo entre aqueles que
cresceram cercados pela tecnologia, permanece a percepção de que informação não
é sinônimo de discernimento.
Discernimento
não nasce do acúmulo de respostas prontas, porque ele se desenvolve por meio da
experiência, da reflexão, do contato com diferentes perspectivas e da
capacidade de duvidar antes de chegar a conclusões. Trata-se de um processo que
envolve maturação intelectual e emocional, algo que não pode ser terceirizado a
uma ferramenta.
Por
essa razão, preparar crianças para o futuro não significa expô-las cada vez
mais cedo às telas ou treiná-las para competir com algoritmos. Significa
ajudá-las a desenvolver aquilo que os algoritmos não conseguem reproduzir. A
criatividade, por exemplo, não surge apenas da produção de ideias. Ela depende
de repertório, imaginação, experimentação e contato com situações reais.
Sob
a perspectiva do desenvolvimento emocional, existe ainda outro desafio.
Crianças que crescem recebendo respostas instantâneas podem ter menos
oportunidades de exercitar a espera e a elaboração do pensamento. A educação do
futuro tem menos relação com o domínio das tecnologias e mais com a preservação
de experiências humanas que favorecem a autonomia. Quanto mais avançados
forem esses sistemas, mais necessário será formar pessoas capazes
de construir critérios próprios diante de respostas vazias tão acessíveis.
Nenhuma
sociedade se sustenta apenas por velocidade ou acesso à informação. Ela
depende também da responsabilidade em projetar futuros possíveis. São essas
dimensões que conferem sentido ao conhecimento e que tornam a
educação ainda mais decisiva em tempos de transformação tecnológica.
Silmara Casadei - doutora
em Educação, psicanalista e autora de O Pequeno Mundo Criativo

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