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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Empresas brasileiras mantêm maior exposição ao risco de crédito na América Latina, aponta Coface

Brasil lidera América Latina em prazo médio de pagamento entre empresas, enquanto atrasos seguem elevados e insolvências corporativas avançam

 

Em um ambiente econômico ainda marcado por crescimento moderado, condições financeiras restritivas e pressão sobre fluxo de caixa, as empresas brasileiras seguem muito expostas ao risco de crédito do que a média da América Latina. É o que mostra a nova Pesquisa de Pagamentos da América Latina 2026, realizada pela Coface, que identifica no Brasil um dos mercados corporativos pressionados da região em um cenário de atrasos recorrentes nos pagamentos. 

O levantamento ouviu 272 empresas de seis países latino-americanos entre abril e maio deste ano. Os dados mostram que, enquanto as empresas da região vêm adotando uma postura mais cautelosa, reduzindo o prazo médio de crédito, as companhias brasileiras mantêm condições de pagamento estáveis frente a 2025, com prazos médios relativamente mais longos. 

Em 2026, 95% das empresas latino-americanas afirmaram vender a prazo para seus clientes, percentual acima dos 88% registrados em 2025. Ao mesmo tempo, o prazo médio de pagamento caiu de 59 para 56 dias na região, indicando maior aversão ao risco e/ou aumento das pressões de liquidez. 

No Brasil, porém, esse movimento não se repetiu. As empresas brasileiras mantiveram prazo médio de pagamento de 66 dias — o maior da América Latina, ao lado da Argentina — mesmo em um cenário econômico mais desafiador e de crescente preocupação com a capacidade de pagamento no ambiente corporativo.

 


Segundo Patricia Krause, economista da Coface para a América Latina, a redução dos prazos observada na região reflete uma mudança no comportamento das empresas diante de um ambiente macroeconômico ainda desafiador. 

“As empresas continuam oferecendo crédito comercial porque essa continua sendo uma ferramenta importante de competitividade, mas passam a fazer isso de forma mais seletiva. A redução dos prazos mostra uma postura mais cautelosa, diante da necessidade de preservar liquidez e de um ambiente de risco que segue pressionado”, afirma. 

A pesquisa também mostra que os atrasos de pagamento seguem disseminados no ambiente corporativo latino-americano. Neste ano, 79% das empresas relataram atrasos nos recebimentos, acima dos 77% registrados em 2025. O dado confirma que, mesmo com empresas reduzindo prazos de crédito, a pressão sobre o caixa corporativo permanece elevada. 

 

Apesar da maior frequência dos atrasos, o tempo médio caiu de 42 dias em 2025 para 33 dias em 2026, sinalizando que as empresas têm conseguido reagir mais rapidamente na recuperação de valores e na gestão da inadimplência. 

Quando questionadas sobre o principal motivo para atrasos nos pagamentos, a inadimplência dos clientes foi o fator mais frequentemente citado pelas empresas no estudo: 63% apontaram essa como a principal razão para os atrasos. Na sequência aparecem queda da demanda, citada por 29% dos entrevistados, aumento da competição, com 26%, e custos elevados de financiamento, mencionados por 19% das empresas — fator que, segundo a Coface, tem impacto particularmente relevante no mercado brasileiro. 

Para Patricia Krause, o cenário regional continua pressionado por uma combinação de fatores macroeconômicos que dificultam a recuperação financeira das empresas. 

“A combinação de crescimento econômico mais moderado, pressões inflacionárias persistentes e espaço cada vez mais limitado para flexibilização monetária continua lançando uma sombra sobre a capacidade de solvência das empresas em toda a região”, explica. 

No Brasil, esse cenário tem se refletido diretamente no aumento das recuperações judiciais, por exemplo. Em 2025, foram registrados 2.466 pedidos, um crescimento de 13% em relação ao ano anterior e o maior nível da série histórica. 

Mesmo diante desse ambiente mais pressionado, as empresas seguem relativamente otimistas em relação ao desempenho dos próprios negócios. Quase 70% das companhias ouvidas afirmam esperar melhora em sua performance ao longo de 2026. Ainda assim, o cenário exige cautela crescente na gestão financeira. 

“Existe uma expectativa positiva em relação aos negócios, mas esse otimismo continua condicionado a um ambiente econômico ainda bastante desafiador. As empresas precisam lidar simultaneamente com crescimento mais fraco da economia, pressões inflacionárias e um cenário financeiro que continua bastante restritivo”, afirma Patricia Krause. 

Entre os principais riscos apontados pelas empresas latino-americanas para os próximos 12 meses, a desaceleração da atividade econômica lidera com 24% das respostas, seguida por alta competição, com 21%, tensões geopolíticas, com 13%, volatilidade cambial, com 8%, e custos financeiros elevados, com 7%. 

Para Ricardo Costa, diretor comercial da Coface Brasil, o ambiente atual reforça a necessidade de as empresas reverem a forma como administram concessão de crédito e exposição financeira. 

“Vender a prazo deixou de ser apenas uma condição comercial. Hoje, essa decisão precisa ser tratada como uma decisão de crédito. O prazo pode ajudar a impulsionar vendas e aumentar competitividade, mas também impacta diretamente capital de giro, fluxo de caixa e o nível de risco assumido pela empresa”, afirma.

A pesquisa mostra ainda que parte das empresas já vem reforçando mecanismos de proteção. O seguro de crédito aparece como ferramenta de gestão mais utilizada, adotado por 35% das companhias, seguido por serviços de cobrança de dívidas, com 32%, e relatórios especializados de análise de crédito, utilizados por 31% dos entrevistados. Ainda assim, 21% das empresas afirmam não utilizar nenhum mecanismo estruturado de proteção. 

“As empresas continuam sendo pressionadas a financiar sua própria cadeia comercial. Ao mesmo tempo em que precisam conceder prazo para manter competitividade, acabam ampliando sua exposição financeira e pressionando o próprio caixa. O desafio hoje é equilibrar crescimento com controle de risco”, diz Costa.

 

COFACE: FOR TRADE


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