Um mês após o entusiasmo gerado pelo daraxonrasibe em pacientes com câncer de pâncreas metastático durante a ASCO 2026, especialistas reunidos no Congresso Internacional de Câncer Gastrointestinal da Sociedade Europeia de Oncologia (ESMO GI 2026) mostraram que outro desafio é definir quais pacientes devem ser operados imediatamente e quais se beneficiam de quimioterapia antes da cirurgia. A decisão passa a considerar não apenas a anatomia do tumor, mas sua biologia e as condições clínicas do paciente
O tratamento do câncer de pâncreas vive um momento de intensa
transformação. Durante o Congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica
(ASCO 2026) os resultados do daraxonrasibe em pacientes com doença metastática
e mutação em KRAS G12C despertaram entusiasmo ao demonstrar respostas inéditas
para um grupo historicamente associado a um prognóstico desfavorável. Um mês
depois, o Congresso Internacional de Câncer Gastrointestinal da Sociedade
Europeia de Oncologia (ESMO GI 2026), realizado em Munique, na Alemanha, voltou
os holofotes para outro cenário igualmente desafiador, que é o tratamento dos
pacientes com câncer de pâncreas localizado, ou seja, restrito ao órgão.
Uma das principais sessões do congresso
concentrou-se em uma questão que continua dividindo especialistas sobre qual é
o melhor momento para operar pacientes com câncer de pâncreas localizado e
quando iniciar a quimioterapia antes da cirurgia, estratégia conhecida como
neoadjuvância. Os debates mostraram que essa decisão depende de muito mais
fatores do que o tamanho do tumor ou de seu contato com vasos sanguíneos. Os
especialistas defenderam que a definição de doença localizada precisa ir além
da anatomia e incorporar informações sobre a biologia do tumor e o estado
clínico do paciente para orientar a escolha terapêutica.
Segundo o cirurgião oncológico Felipe José
Fernández Coimbra, secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica
(WSSO), diretor do Instituto Integra, líder do Centro de Referência em Tumores
do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center e diretor de Relações
Internacionais da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), essa
mudança de perspectiva representa um dos avanços mais importantes discutidos no
encontro.
"A discussão mostrou que definir um câncer de
pâncreas como localizado não significa, necessariamente, que ele seja uma
doença verdadeiramente localizada do ponto de vista biológico. Hoje sabemos que
a anatomia é apenas uma parte dessa avaliação”, contextualiza Coimbra. Essa
diferença, segundo ele, ajuda a compreender um dos maiores paradoxos do
adenocarcinoma ductal de pâncreas (PDAC), o tipo mais comum da doença.
Embora aproximadamente 50% dos pacientes não apresentem
metástases visíveis nos exames de imagem no momento do diagnóstico, apenas uma
pequena parcela alcança controle duradouro da doença após o tratamento. Os
dados apresentados no ESMO GI mostram que, entre os pacientes submetidos à
cirurgia, somente cerca de 5% permanecem vivos e sem recorrência dez anos
depois. Quando considerados todos os casos diagnosticados, isso significa que
apenas cerca de 1% dos pacientes apresentam uma doença efetivamente curável com
as terapias atualmente disponíveis. Segundo Coimbra, esses números indicam que
muitos tumores aparentemente restritos ao pâncreas já podem ter disseminado
células cancerígenas pelo organismo em quantidade ainda insuficiente para serem
detectadas pelos exames convencionais.
MUITO ALÉM DA ANATOMIA
Tradicionalmente, a possibilidade de cirurgia era
definida principalmente pela localização do tumor e pelo seu grau de
envolvimento com os vasos sanguíneos próximos ao pâncreas. Quanto menor esse
comprometimento, maiores eram as chances de o paciente seguir diretamente para
a operação. No congresso, porém, os especialistas defenderam que essa análise
anatômica, isoladamente, já não é suficiente para definir a melhor estratégia
terapêutica.
Entre os temas, foi discutida a adoção do chamado
modelo ABC, que amplia a forma de avaliar o câncer de pâncreas localizado. Além
da posição e da extensão do tumor, os médicos passam a considerar dois outros
fatores: a agressividade da doença, estimada por meio do marcador tumoral
CA19-9, um exame de sangue frequentemente utilizado no acompanhamento desses
pacientes e as condições gerais de saúde da pessoa para receber o tratamento.
A proposta foi avaliada em um estudo internacional
com 1.835 pacientes e mostrou que pessoas com níveis elevados de CA19-9 (acima
de 500 U/mL) ou com pior estado geral apresentam prognóstico menos favorável,
independentemente do tamanho ou da localização do tumor. Segundo os
pesquisadores, essa abordagem permite identificar com maior precisão quem tende
a se beneficiar da cirurgia e quem pode precisar de outra estratégia
terapêutica.
"O grande avanço apresentado no congresso foi
mostrar que não basta analisar onde o tumor está. Precisamos entender também
como ele se comporta biologicamente e qual é a condição clínica daquele
paciente. Essa combinação permite selecionar melhor quem realmente pode se
beneficiar da cirurgia e quem deve iniciar o tratamento sistêmico
primeiro", afirma Coimbra.
Essa abordagem busca evitar cirurgias de grande
porte em pacientes cuja biologia tumoral indique elevado risco de recidiva
precoce e, ao mesmo tempo, identificar aqueles que podem obter maior benefício
de uma ressecção após resposta favorável ao tratamento sistêmico.
CIRURGIA PRIMEIRO OU
QUIMIOTERAPIA ANTES
Foi justamente nesse ponto que surgiram algumas das
principais controvérsias apresentadas durante o ESMO GI 2026. Para pacientes
classificados como borderline ressecáveis, existe consenso crescente de que
iniciar o tratamento com quimioterapia reduz o risco de morte em comparação com
a cirurgia realizada como primeira etapa do tratamento, conforme demonstrado
por uma metanálise de estudos clínicos randomizados.
Já entre os pacientes considerados ressecáveis
desde o diagnóstico, as evidências permanecem conflitantes. O estudo NORPACT-1, de fase 2, realizado em centros escandinavos,
comparou pacientes tratados inicialmente com quimioterapia FOLFIRINOX seguida
de cirurgia com aqueles submetidos primeiro à operação e, posteriormente, ao
tratamento complementar.
Apesar de a estratégia neoadjuvante ter
proporcionado melhores resultados patológicos, como maior frequência de
retirada completa do tumor e ausência de comprometimento linfonodal, a
sobrevida global em 18 meses foi superior entre os pacientes operados
inicialmente: 73% contra 60%. Por outro lado, o estudo asiático CISPD-1, de fase 3, apresentou resultados em sentido
oposto. Os pacientes que receberam quimioterapia antes da cirurgia tiveram
melhor sobrevida livre de eventos e melhor sobrevida global quando comparados
àqueles operados logo após o diagnóstico. De acordo com Felipe Coimbra, a
divergência entre os estudos demonstra que ainda não existe uma estratégia
capaz de atender todos os pacientes e que a escolha do tratamento deve ser
individualizada.
QUAL ESQUEMA DE QUIMIOTERAPIA
ESCOLHER
Além da sequência entre cirurgia e quimioterapia,
outra dúvida discutida durante o ESMO GI 2026 foi qual esquema de tratamento
oferece os melhores resultados antes da operação. Os estudos apresentados até o
momento mostram que ainda não existe um regime claramente superior. No ensaio
clínico SWOG S1505, por exemplo, pacientes tratados com FOLFIRINOX apresentaram resultados
semelhantes aos daqueles que receberam a combinação de gencitabina e
nab-paclitaxel, sem diferença significativa na sobrevida global. Conclusão
parecida foi observada no estudo PREOPANC-2, de fase 3, que comparou FOLFIRINOX com uma estratégia baseada em gencitabina
associada à radioterapia, também sem demonstrar vantagem consistente de uma
abordagem sobre a outra.
O cenário muda novamente entre os pacientes com
doença localmente avançada. O estudo NEOPAN, de fase 3, não confirmou benefício de sobrevida do FOLFIRINOX em
relação à gencitabina isolada, contrariando expectativas criadas por pesquisas
anteriores. Já o estudo CASSANDRA, também de fase 3, trouxe resultados considerados
promissores ao avaliar um esquema mais intensivo, conhecido como PAXG, composto
por cisplatina, nab-paclitaxel, capecitabina e gencitabina. Nesse estudo, o
regime apresentou melhor sobrevida livre de eventos quando comparado ao
mFOLFIRINOX.
Na avaliação de Coimbra, esses resultados mostram
que a evolução do tratamento do câncer de pâncreas depende tanto da descoberta
de novas terapias quanto da definição da melhor estratégia para utilizar os
tratamentos já disponíveis. "Não estamos discutindo apenas qual
medicamento utilizar, mas qual sequência terapêutica oferece maior benefício
para cada paciente. Essa talvez seja hoje uma das principais fronteiras do
tratamento do câncer de pâncreas localizado."
REAVALIAÇÃO APÓS A QUIMIOTERAPIA
AJUDA A INDIVIDUALIZAR O TRATAMENTO
Outro avanço destacado durante a sessão foi a
importância do reestadiamento após a terapia sistêmica. Em vez de decidir pela
cirurgia apenas com base nos exames realizados no diagnóstico, os especialistas
defenderam uma nova avaliação depois da quimioterapia para verificar como o
tumor respondeu ao tratamento. Essa reavaliação leva em consideração fatores
como o aparecimento de metástases, o tamanho residual do tumor e a evolução dos
níveis do marcador tumoral CA19-9.
Com base nessas informações, pesquisadores
desenvolveram um modelo capaz de estratificar os pacientes de acordo com o
risco de evolução da doença. Os resultados mostraram diferenças expressivas de
prognóstico: enquanto pacientes classificados no grupo de maior risco
apresentaram sobrevida global em três anos de aproximadamente 6%, aqueles com
características mais favoráveis alcançaram taxas próximas de 66%.
Na avaliação de Coimbra, essa estratégia representa
um avanço importante porque permite selecionar com maior precisão os pacientes
que realmente poderão se beneficiar da cirurgia. "O objetivo é evitar
operações de grande porte em pacientes cuja doença já demonstra comportamento
biológico muito agressivo e, ao mesmo tempo, ampliar as chances de cura
daqueles que respondem bem ao tratamento inicial. A decisão deixa de depender
apenas da anatomia e passa a incorporar a resposta à quimioterapia e a biologia
do tumor”, afirma
Os pesquisadores também apresentaram uma
calculadora clínica baseada nesse modelo, desenvolvida para auxiliar médicos na
tomada de decisão após a terapia sistêmica e facilitar a incorporação dessa
estratégia à prática clínica. "Estamos caminhando para um modelo em que a
decisão terapêutica será cada vez mais personalizada. A anatomia continua sendo
importante, mas já não é suficiente. Integrar informações clínicas,
laboratoriais e biológicas permite selecionar melhor os pacientes e aumentar as
chances de oferecer o tratamento certo no momento certo", conclui Coimbra.

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