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| Cigarro é a principal causa de câncer de pulmão, mas outros fatores são mais presentes nas mulheres serezniy |
Revisão publicada na JCO Global Oncology mostra que as mulheres estão mais expostas a fatores de risco para câncer de pulmão que vão além do tabagismo e podem ajudar a explicar o aumento da doença neste grupo. O estudo destaca que elas apresentam maior exposição passiva à fumaça do tabaco, à poluição doméstica, ao radônio e a agentes químicos no ambiente de trabalho. A pesquisa reúne cientistas de seis instituições brasileiras
O câncer de pulmão continua sendo a principal causa
de morte por câncer no mundo, mas o perfil da doença entre as mulheres vem
mudando e desafiando conceitos tradicionais. Revisão publicada na revista JCO Global
Oncology conclui que, embora o cigarro permaneça como o principal
fator de risco, há um conjunto de exposições ambientais, ocupacionais,
hormonais e genéticas que pode ajudar a explicar o aumento da incidência da
doença entre mulheres, inclusive entre aquelas que nunca fumaram.
O trabalho foi coordenado pelo Grupo Brasileiro de
Oncologia Torácica (GBOT), com a participação de várias instituições de
pesquisa médica públicas e privadas de várias regiões do Brasil. Segundo a
revisão, 16.777 brasileiras morreram de câncer de pulmão em 2022.
Além disso, o trabalho recorda que, para o triênio 2023-2025,
o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimava aproximadamente 14.540
novos casos anuais entre mulheres, fazendo da doença o quarto
câncer mais incidente neste grupo. Os pesquisadores observam ainda que,
enquanto a mortalidade por câncer de pulmão tem diminuído entre os homens em
diferentes países, a tendência entre as mulheres permanece de crescimento,
indicando a necessidade de medidas preventivas voltadas às especificidades
dessa população.
Embora o tabagismo continue sendo responsável pela
maior parte dos casos de câncer de pulmão, a revisão chama a atenção para outro
fenômeno que ganha importância. Em 2019, quase dois terços (63,2%) das mulheres
diagnosticadas com câncer de pulmão nunca haviam fumado, proporção 26,4 pontos
percentuais superior à observada entre os homens (36,8%). Para
os autores, essa diferença indica que outros fatores de risco merecem maior
atenção na prevenção e na pesquisa sobre a doença.
"Ainda que o controle do tabagismo continue
sendo a medida isolada mais importante para prevenir o câncer de pulmão, nossos
achados mostram que ele não explica, sozinho, o aumento da doença entre
mulheres. Precisamos compreender melhor outros fatores que afetam
especificamente essa população para aperfeiçoar as estratégias de
prevenção", afirma Dra. Samira
Mascarenhas, primeira autora do estudo.
OS FATORES QUE VÃO ALÉM DO
TABAGISMO
Entre esses fatores estão a exposição à fumaça do
cigarro dentro de casa, à poluição do ar provocada pela queima de lenha para
cozinhar, ao gás radônio presente em determinadas regiões do país e a agentes
químicos encontrados em algumas atividades profissionais predominantemente
femininas, como cabeleireiras, profissionais que aplicam unhas artificiais e
trabalhadoras da indústria têxtil. A revisão também reúne
evidências sobre o papel de alterações hormonais e de mutações
genéticas herdadas relacionadas ao desenvolvimento do câncer de pulmão,
demonstrando que a doença resulta da interação entre diferentes mecanismos
biológicos e ambientais.
Os pesquisadores destacam também que papéis sociais
tradicionalmente atribuídos às mulheres contribuem para aumentar parte dessas
exposições. No Brasil, elas dedicam, em média, 21,3 horas semanais às
atividades domésticas e ao cuidado de outras pessoas, praticamente o dobro do
tempo gasto pelos homens. Esse maior tempo de permanência dentro de casa
aumenta a exposição prolongada à fumaça do tabaco produzida por terceiros, aos
poluentes gerados pela combustão de lenha e carvão e ao radônio, gás radioativo
naturalmente presente no solo e reconhecido como carcinógeno.
A revisão lembra que aproximadamente 11 milhões
de domicílios brasileiros ainda utilizam lenha para cozinhar,
muitas vezes em ambientes com ventilação inadequada. A combustão desses
materiais libera partículas finas, benzeno, formaldeído e diversos compostos
reconhecidamente cancerígenos. Em nível mundial, estima-se que a poluição do ar
dentro das residências esteja relacionada a milhões de mortes prematuras todos
os anos, incluindo casos de câncer de pulmão.
Outro aspecto destacado pelos pesquisadores diz
respeito aos riscos ocupacionais. Algumas profissões exercidas
predominantemente por mulheres expõem essas trabalhadoras a substâncias
potencialmente cancerígenas. Entre elas estão cabeleireiras, frequentemente
expostas ao formaldeído utilizado em procedimentos de alisamento capilar, além
de solventes, corantes, amônia e outros compostos químicos inalados diariamente
durante a jornada de trabalho. Estudos brasileiros citados na revisão mostram
que profissionais de salões de beleza podem entrar em contato com concentrações
de formaldeído muito superiores aos limites considerados seguros pelas autoridades
sanitárias.
De acordo com Cinthya Sternberg, geneticista, gerente executiva do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) e autora correspondente do estudo, as diferenças entre homens e mulheres não podem ser atribuídas apenas ao histórico de tabagismo. “É necessário ampliar o olhar para fatores ambientais, ocupacionais e sociais que permanecem subestimados e que podem contribuir para o aumento da incidência do câncer de pulmão entre mulheres brasileiras", conclui.
DIAGNÓSTICO CHEGA TARDE PARA MUITAS MULHERES
O câncer de pulmão é a principal causa de morte por câncer no mundo e, no
Brasil, permanece entre os tumores mais letais justamente porque a maioria dos
casos é identificada em estágios avançados da doença, quando as possibilidades
de cura são menores e as opções terapêuticas mais limitadas. Entre as mulheres,
esse desafio ganha contornos próprios. Em 2022, 16.777 brasileiras morreram em
decorrência da doença e, para o triênio 2026-2028, o Instituto Nacional de
Câncer (INCA) estima 16.650 novos casos por ano entre
mulheres, de um total de 35.380 casos anuais no país.
Os autores da revisão ressaltam que esse cenário
reforça a necessidade de aperfeiçoar as estratégias de diagnóstico precoce e
ampliar o acesso à tomografia computadorizada de baixa dose para pessoas com
alto risco de desenvolver câncer de pulmão, método que já demonstrou reduzir a
mortalidade em estudos internacionais. Eles também chamam a atenção para o
desafio de reconhecer a doença em mulheres que nunca fumaram, já que sintomas
como tosse persistente, falta de ar, rouquidão e perda de peso costumam ser
inespecíficos e podem retardar o diagnóstico precoce. Na avaliação dos
pesquisadores, ampliar a vigilância epidemiológica e compreender melhor os
fatores de risco específicos dessa população são medidas fundamentais para
aperfeiçoar as políticas de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce.
https://www.gbot.med.br/

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