Mesmo com médicos
liderando em credibilidade, 75% dos brasileiros acreditam em ao menos uma
informação controversa sobre saúde, em cenário marcado por excesso de conteúdo
e insegurança na tomada de decisão
O Edelman
Trust Barometer 2026, em edição especial sobre Confiança e Saúde, indicou que
os brasileiros tomam decisões em um ambiente fragmentado, no qual médicos e
especialistas seguem como fontes altamente confiáveis, mas passam a dividir
espaço com inteligência artificial, familiares, influenciadores, redes sociais
e experiências pessoais. O estudo mostra que 75% da população acredita em pelo
menos uma entre seis afirmações controversas sobre alimentos, vacinas e
medicamentos.
Entre elas,
destacam-se a percepção de que proteína animal é mais saudável do que vegetal
(43%), que leite cru supera o pasteurizado (32%) e que o flúor na água é
prejudicial ou não traz benefícios (30%). Também aparecem crenças de que
vacinas servem como controle populacional (29%) e que os riscos da vacinação
infantil superam os benefícios (28%).
“Os dados
desafiam a ideia de que essas percepções estejam restritas a grupos específicos
ou associadas à baixa escolaridade. O que acontece é que as pessoas estão se
acomodando mesmo e se esquecendo da responsabilidade que é se consultar com um
especialista ou procurar um serviço que de fato vai cuidar de seus problemas.
Isso vira um bibelô”, defende o advogado Thayan Fernando Ferreira, especialista em direito
de saúde e direito público, membro da Comissão de Direito Médico da OAB-MG e diretor
do escritório Ferreira Cruz Advogados.
Por outro
lado, outra pesquisa, desta vez formulada pela Associação Médica Brasileira
(AMB), em 2025, indicou que para 87% da população brasileira, os médicos são os
profissionais que mais precisam ter comprovação de atualização profissional. E
no entendimento popular isso causa desconfiança e afastamento.
Aqui, para o
advogado, o ponto de atenção passa a ser outro e esbarra na descredibilidade
das pessoas diante da Inteligência Artificial. “O desafio não se limita a
preservar a confiança nos profissionais de saúde, mas a transformá-la em
influência efetiva nas decisões. Médicos ainda lideram em temas como
diagnóstico, prevenção e tratamentos de curto prazo. No entanto, essa vantagem
diminui em assuntos como vitaminas e suplementos e se inverte em dieta e
nutrição, onde fontes leigas passam a exercer maior influência”, completa.
Isso porque,
hoje, a inteligência artificial já ocupa papel relevante, com 38% dos
entrevistados afirmando utilizá-la para decisões ou gestão de saúde, sobretudo
para esclarecer dúvidas, interpretar exames, sugerir tratamentos e oferecer uma
segunda opinião. Ainda assim, médicos e especialistas permanecem como as fontes
mais confiáveis, com índices de 79% e 78%, respectivamente. A confiança diminui
em relação a outros agentes, como amigos e familiares (58%), CEOs do setor
(46%), autoridades governamentais (43%) e jornalistas (42%).
“Para
enfrentar esse cenário, defendo o brokering de confiança como estratégia
central, ao promover a construção de pontes entre diferentes grupos,
perspectivas e fontes de informação. Se 75% da nossa população está perdida
dentro dos recursos de IA, acredito que a tendência é que os brasileiros irão
confiar mais em empresas que incentivam a cooperação na busca por soluções, sem
adotar posições ou julgar visões divergentes”, acrescenta Thayan.
Paralelo a
tudo isso, os processos judiciais envolvendo cirurgias continuam em patamar elevado
no Brasil. Dados divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) indicaram
que, até 30 de novembro de 2025, foram abertos 66.097 novos processos
relacionados a cirurgias gerais, de urgência e eletivas, número muito próximo
ao registrado em todo o ano de 2024, quando houve 68.203 ações.
“São
incertezas de todos os lados. Acho que as pessoas têm recebido informações
demais de fontes diferentes, seguras ou não, e estão perdidas com tudo isso.
Pelo visto, entre os especialistas não é diferente. De toda forma, a escolha
por fontes profissionais seguras, melhores capacitadas e com currículos mais
robustos continua sendo a melhor recomendação”, finaliza Thayan.
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