A testosterona nunca esteve tão em evidência.
Impulsionada pelas redes sociais e pela busca por resultados rápidos na
academia, ela passou a ser vista por muitos homens como um atalho para ganhar
músculos, melhorar a aparência e aumentar a disposição. O problema é que
testosterona não é suplemento. É hormônio. E hormônio interfere em praticamente
todo o organismo.
Nos últimos anos, temos assistido a uma
banalização preocupante do seu uso. A ideia de que existe uma solução simples
para cansaço, perda de libido ou insatisfação com o próprio corpo tem levado
homens jovens e adultos a recorrerem à testosterona sem necessidade clínica e
sem acompanhamento médico adequado.
Isso é especialmente grave porque o uso
indiscriminado dessas substâncias está longe de ser inofensivo. Os riscos
incluem trombose, alterações do colesterol, hipertensão, problemas hepáticos,
arritmias, insuficiência cardíaca e até morte súbita. Estudos citados pela
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia mostram que usuários de
anabolizantes apresentam uma taxa de mortalidade até três vezes maior que a da
população geral.
Outro aspecto que costuma surpreender os
pacientes é o impacto na fertilidade. Ao receber testosterona de forma externa,
o organismo reduz ou interrompe sua produção natural. Os testículos diminuem a
atividade, a produção de espermatozoides cai e a infertilidade pode surgir. Não
são raros os casos de homens jovens com alterações importantes no espermograma
justamente após o uso prolongado dessas substâncias.
Existe ainda um paradoxo curioso:
medicamentos utilizados na tentativa de melhorar o desempenho físico e sexual
podem, com o tempo, provocar queda da libido e até disfunção erétil.
É importante deixar claro que a reposição
hormonal possui indicações médicas bem estabelecidas. A Deficiência Androgênica
do Envelhecimento Masculino, por exemplo, afeta parte dos homens acima dos 50
anos e pode causar redução do desejo sexual, perda de massa muscular e fadiga.
Mas o diagnóstico exige sintomas compatíveis e confirmação laboratorial.
Reposição hormonal é um ato médico, não uma tendência de estilo de vida.
Nem todo homem cansado ou com diminuição da
libido está com testosterona baixa. Sono inadequado, sedentarismo, obesidade,
estresse e ansiedade podem explicar muitos desses sintomas. Tratar tudo com
hormônio é simplificar excessivamente uma questão complexa.
Vivemos uma época em que a pressão estética
também alcançou os homens. O chamado "shape perfeito" passou a ser
associado a sucesso, saúde e felicidade. Mas saúde não se constrói com atalhos.
Alimentação equilibrada, atividade física
regular, sono adequado, controle do peso e acompanhamento médico continuam
sendo as formas mais seguras e eficazes de preservar a saúde hormonal ao longo
da vida.
A testosterona tem um papel fundamental no
organismo masculino. Justamente por isso, merece ser tratada com
responsabilidade e não como mais um produto da moda.
Luís César Zaccaro - Urologista, uro-oncologista e cirurgião robótico. Delegado da Sociedade Brasileira de Urologia – Seccional São Paulo, diretor do GEURP – Grupo de Estudos em Uro-Oncologia de Ribeirão Preto e palestrante em congressos no Brasil e no exterior.
@dr.luiszaccaro
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