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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Infertilidade: quando a genética pode estar por trás da dificuldade para engravidar

Da produção de óvulos e espermatozoides ao desenvolvimento do embrião, características herdadas podem interferir em diferentes etapas da gestação


Durante décadas, a infertilidade foi investigada principalmente a partir de fatores hormonais, anatômicos e comportamentais. Alterações na ovulação, endometriose, idade materna avançada, baixa qualidade seminal e condições do aparelho reprodutor continuam entre as causas mais frequentes da dificuldade para engravidar. No entanto, os avanços da genética vêm ampliando o entendimento sobre a fertilidade humana e ajudando a explicar casos que, até pouco tempo atrás, permaneciam sem resposta. 

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a infertilidade afeta cerca de 15% dos casais em idade reprodutiva. Embora a maior parte dos diagnósticos esteja relacionada a fatores já conhecidos da medicina reprodutiva, especialistas vêm observando que alterações genéticas também podem desempenhar um papel importante em determinados pacientes, especialmente nos casos sem causa aparente, perdas gestacionais recorrentes ou falhas repetidas em tratamentos reprodutivos. 

"O entendimento científico sobre infertilidade evoluiu significativamente nos últimos anos. Hoje sabemos que ela não é uma condição única, mas um conjunto de diferentes fenótipos e mecanismos biológicos. A genética tem ampliado nossa capacidade de compreender casos que antes permaneciam sem explicação mesmo após uma extensa investigação clínica", afirma Márcia Riboldi, CEO da CENTOGENE Brasil e América Latina. 

A reprodução humana depende de uma série de processos altamente complexos e coordenados. A formação adequada dos óvulos e espermatozoides, a fecundação, o desenvolvimento embrionário e a manutenção da gestação envolvem centenas de genes e múltiplas vias biológicas. Alterações em qualquer uma dessas etapas pode comprometer a fertilidade. 

A expansão do sequenciamento genético e o maior conhecimento sobre os mecanismos moleculares da reprodução humana têm permitido identificar causas biológicas que, até poucos anos atrás, permaneciam sem diagnóstico mesmo após extensas investigações clínicas.

 

Quando o problema está nos cromossomos 

Entre as alterações genéticas mais conhecidas relacionadas à infertilidade estão as anomalias cromossômicas. Os cromossomos são estruturas que carregam o material genético responsável por orientar o funcionamento das células e o desenvolvimento do organismo. Em algumas pessoas, podem ocorrer alterações na quantidade ou na estrutura, afetando processos fundamentais para a reprodução. 

Alguns indivíduos carregam rearranjos cromossômicos equilibrados, como translocações ou inversões, sem apresentar qualquer manifestação clínica ao longo da vida. Nesses casos, a pessoa é saudável e muitas vezes desconhece a alteração. O problema surge durante a formação dos óvulos ou espermatozoides, quando parte desse material genético pode ser distribuída de forma inadequada para os gametas. 

Como consequência, podem ser gerados embriões com alterações cromossômicas incompatíveis com o desenvolvimento normal da gestação. Isso pode se manifestar como dificuldade para engravidar, falhas repetidas de implantação em tratamentos de reprodução assistida ou perdas gestacionais recorrentes.

"Em muitos casos, o casal não apresenta sintomas ou histórico médico que sugira uma alteração genética. A dificuldade para engravidar ou a repetição de perdas gestacionais pode ser o primeiro sinal de que existe um componente cromossômico envolvido", explica Riboldi, que também é biomédica e doutora em Ginecologia e Obstetrícia.

Além dos rearranjos cromossômicos, alterações no número de cromossomos também podem interferir na fertilidade. Algumas delas estão associadas à redução da reserva ovariana, insuficiência ovariana precoce ou comprometimento da produção de espermatozoides. Em outras situações, a fecundação ocorre normalmente, mas o embrião não consegue evoluir adequadamente devido a alterações genéticas presentes desde as primeiras etapas do desenvolvimento. 

A identificação dessas condições representa uma mudança importante na jornada dos pacientes. Em vez de múltiplas tentativas sem sucesso e anos de incerteza, a descoberta da causa permite compreender melhor o prognóstico reprodutivo, orientar o aconselhamento genético e apoiar a escolha das estratégias mais adequadas para cada casal. Em um cenário cada vez mais guiado pela medicina de precisão, entender a origem biológica da infertilidade é um passo importante para transformar dúvidas em decisões clínicas mais assertivas.
 

O impacto da genética masculina e feminina na fertilidade
 

Durante muito tempo, a infertilidade foi associada predominantemente à mulher. Hoje, sabe-se que fatores masculinos estão presentes em uma parcela significativa dos casos investigados. 

A genética desempenha papel importante nesse cenário. Alterações em genes relacionados à produção e ao desenvolvimento dos espermatozoides podem comprometer a fertilidade masculina, levando a quadros de baixa concentração espermática ou até ausência completa de gametas no sêmen. 

"A infertilidade masculina é uma das áreas que mais se beneficiaram dos avanços da genética. Muitos pacientes que recebiam o diagnóstico de infertilidade sem causa definida hoje conseguem compreender melhor a origem biológica da condição", afirma a especialista. 

Segundo ela, essa compreensão não apenas ajuda a esclarecer o diagnóstico, mas também permite um aconselhamento mais adequado sobre as possibilidades terapêuticas e reprodutivas. 

Na mulher, fatores genéticos podem estar associados a diferentes condições que afetam a capacidade reprodutiva. Entre elas estão alterações relacionadas à insuficiência ovariana precoce, condição caracterizada pela perda da função dos ovários antes dos 40 anos, além de variantes que podem interferir na qualidade dos óvulos e no desenvolvimento embrionário. 

A genética também tem contribuído para ampliar o entendimento sobre casos de falhas repetidas em tratamentos de reprodução assistida e perdas gestacionais recorrentes. "Nem toda infertilidade feminina tem origem genética, mas em determinadas pacientes a investigação pode fornecer informações importantes para compreender melhor o prognóstico reprodutivo e apoiar decisões clínicas mais individualizadas", explica Riboldi.
 

Medicina de precisão aplicada à reprodução humana
 

A incorporação da genética à medicina reprodutiva acompanha uma transformação mais ampla da prática médica. A chamada medicina de precisão busca compreender as características biológicas de cada indivíduo para orientar estratégias diagnósticas e terapêuticas mais personalizadas. 

Na reprodução humana, isso significa que dois casais com diagnósticos aparentemente semelhantes podem ter causas completamente diferentes para a infertilidade e, consequentemente, necessitar de abordagens distintas.

"Estamos deixando para trás uma visão baseada apenas em sintomas e adotando uma compreensão cada vez mais aprofundada da biologia de cada paciente. A genética não substitui a avaliação clínica, mas acrescenta uma camada importante de informação para a tomada de decisões", afirma a CEO da CENTOGENE. 

Essa mudança tem sido especialmente relevante em casos considerados complexos ou sem causa aparente, nos quais os exames convencionais não conseguem explicar a dificuldade reprodutiva. 

Vale lembrar ainda que o papel da genética na reprodução humana não se limita à investigação da infertilidade. O conhecimento genético também pode contribuir para o planejamento familiar, a avaliação de riscos hereditários e a adoção de estratégias reprodutivas mais informadas. 

Atualmente, testes genéticos são capazes de identificar variantes associadas a doenças hereditárias que podem ser transmitidas aos filhos, mesmo quando os pais não apresentam sintomas. Esse conhecimento permite que casais recebam aconselhamento especializado e discutam diferentes possibilidades reprodutivas. 

"Cada vez mais, a genética deixa de ser uma ferramenta utilizada apenas para confirmar diagnósticos e passa a fazer parte de uma estratégia mais ampla de cuidado. O acesso a informações genéticas permite que pacientes e médicos tomem decisões mais conscientes, tanto em relação aos tratamentos quanto ao planejamento familiar", afirma Riboldi. 

O avanço das tecnologias e sua integração à medicina reprodutiva refletem uma mudança importante na forma como a infertilidade é compreendida. Mais do que identificar uma causa específica, a genética vem ajudando a transformar incertezas em conhecimento e a construir uma abordagem cada vez mais personalizada para quem busca realizar o desejo de ter filhos. 

"Talvez o maior avanço não seja apenas descobrir uma alteração genética, mas compreender melhor a biologia de cada paciente. Quanto mais informações temos sobre os fatores envolvidos na infertilidade, maiores são as possibilidades de oferecer um cuidado individualizado e baseado em evidências", conclui.




CENTOGENE

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