Da produção de óvulos e espermatozoides ao
desenvolvimento do embrião, características herdadas podem interferir em
diferentes etapas da gestação
Durante décadas, a
infertilidade foi investigada principalmente a partir de fatores hormonais,
anatômicos e comportamentais. Alterações na ovulação, endometriose, idade
materna avançada, baixa qualidade seminal e condições do aparelho reprodutor
continuam entre as causas mais frequentes da dificuldade para engravidar. No
entanto, os avanços da genética vêm ampliando o entendimento sobre a
fertilidade humana e ajudando a explicar casos que, até pouco tempo atrás,
permaneciam sem resposta.
Segundo a
Organização Mundial da Saúde (OMS), a infertilidade afeta cerca de 15% dos
casais em idade reprodutiva. Embora a maior parte dos diagnósticos esteja
relacionada a fatores já conhecidos da medicina reprodutiva, especialistas vêm
observando que alterações genéticas também podem desempenhar um papel
importante em determinados pacientes, especialmente nos casos sem causa
aparente, perdas gestacionais recorrentes ou falhas repetidas em tratamentos
reprodutivos.
"O
entendimento científico sobre infertilidade evoluiu significativamente nos
últimos anos. Hoje sabemos que ela não é uma condição única, mas um conjunto de
diferentes fenótipos e mecanismos biológicos. A genética tem ampliado nossa
capacidade de compreender casos que antes permaneciam sem explicação mesmo após
uma extensa investigação clínica", afirma Márcia Riboldi, CEO da CENTOGENE
Brasil e América Latina.
A reprodução
humana depende de uma série de processos altamente complexos e coordenados. A
formação adequada dos óvulos e espermatozoides, a fecundação, o desenvolvimento
embrionário e a manutenção da gestação envolvem centenas de genes e múltiplas
vias biológicas. Alterações em qualquer uma dessas etapas pode comprometer a
fertilidade.
A expansão do sequenciamento genético e o maior conhecimento sobre os mecanismos moleculares da reprodução humana têm permitido identificar causas biológicas que, até poucos anos atrás, permaneciam sem diagnóstico mesmo após extensas investigações clínicas.
Quando o
problema está nos cromossomos
Entre as
alterações genéticas mais conhecidas relacionadas à infertilidade estão as anomalias
cromossômicas. Os cromossomos são estruturas que carregam o material genético
responsável por orientar o funcionamento das células e o desenvolvimento do
organismo. Em algumas pessoas, podem ocorrer alterações na quantidade ou na
estrutura, afetando processos fundamentais para a reprodução.
Alguns indivíduos
carregam rearranjos cromossômicos equilibrados, como translocações ou
inversões, sem apresentar qualquer manifestação clínica ao longo da vida.
Nesses casos, a pessoa é saudável e muitas vezes desconhece a alteração. O
problema surge durante a formação dos óvulos ou espermatozoides, quando parte
desse material genético pode ser distribuída de forma inadequada para os
gametas.
Como consequência,
podem ser gerados embriões com alterações cromossômicas incompatíveis com o
desenvolvimento normal da gestação. Isso pode se manifestar como dificuldade
para engravidar, falhas repetidas de implantação em tratamentos de reprodução
assistida ou perdas gestacionais recorrentes.
"Em muitos
casos, o casal não apresenta sintomas ou histórico médico que sugira uma
alteração genética. A dificuldade para engravidar ou a repetição de perdas
gestacionais pode ser o primeiro sinal de que existe um componente cromossômico
envolvido", explica Riboldi, que também é biomédica e doutora em
Ginecologia e Obstetrícia.
Além dos
rearranjos cromossômicos, alterações no número de cromossomos também podem
interferir na fertilidade. Algumas delas estão associadas à redução da reserva
ovariana, insuficiência ovariana precoce ou comprometimento da produção de
espermatozoides. Em outras situações, a fecundação ocorre normalmente, mas o
embrião não consegue evoluir adequadamente devido a alterações genéticas
presentes desde as primeiras etapas do desenvolvimento.
A identificação dessas
condições representa uma mudança importante na jornada dos pacientes. Em vez de
múltiplas tentativas sem sucesso e anos de incerteza, a descoberta da causa
permite compreender melhor o prognóstico reprodutivo, orientar o aconselhamento
genético e apoiar a escolha das estratégias mais adequadas para cada casal. Em
um cenário cada vez mais guiado pela medicina de precisão, entender a origem
biológica da infertilidade é um passo importante para transformar dúvidas em
decisões clínicas mais assertivas.
O impacto da
genética masculina e feminina na fertilidade
Durante muito
tempo, a infertilidade foi associada predominantemente à mulher. Hoje, sabe-se
que fatores masculinos estão presentes em uma parcela significativa dos casos
investigados.
A genética
desempenha papel importante nesse cenário. Alterações em genes relacionados à
produção e ao desenvolvimento dos espermatozoides podem comprometer a
fertilidade masculina, levando a quadros de baixa concentração espermática ou
até ausência completa de gametas no sêmen.
"A
infertilidade masculina é uma das áreas que mais se beneficiaram dos avanços da
genética. Muitos pacientes que recebiam o diagnóstico de infertilidade sem
causa definida hoje conseguem compreender melhor a origem biológica da condição",
afirma a especialista.
Segundo ela, essa
compreensão não apenas ajuda a esclarecer o diagnóstico, mas também permite um
aconselhamento mais adequado sobre as possibilidades terapêuticas e
reprodutivas.
Na mulher, fatores
genéticos podem estar associados a diferentes condições que afetam a capacidade
reprodutiva. Entre elas estão alterações relacionadas à insuficiência ovariana
precoce, condição caracterizada pela perda da função dos ovários antes dos 40
anos, além de variantes que podem interferir na qualidade dos óvulos e no
desenvolvimento embrionário.
A genética também
tem contribuído para ampliar o entendimento sobre casos de falhas repetidas em
tratamentos de reprodução assistida e perdas gestacionais recorrentes.
"Nem toda infertilidade feminina tem origem genética, mas em determinadas
pacientes a investigação pode fornecer informações importantes para compreender
melhor o prognóstico reprodutivo e apoiar decisões clínicas mais
individualizadas", explica Riboldi.
Medicina de
precisão aplicada à reprodução humana
A incorporação da
genética à medicina reprodutiva acompanha uma transformação mais ampla da
prática médica. A chamada medicina de precisão busca compreender as
características biológicas de cada indivíduo para orientar estratégias diagnósticas
e terapêuticas mais personalizadas.
Na reprodução
humana, isso significa que dois casais com diagnósticos aparentemente
semelhantes podem ter causas completamente diferentes para a infertilidade e,
consequentemente, necessitar de abordagens distintas.
"Estamos
deixando para trás uma visão baseada apenas em sintomas e adotando uma
compreensão cada vez mais aprofundada da biologia de cada paciente. A genética
não substitui a avaliação clínica, mas acrescenta uma camada importante de
informação para a tomada de decisões", afirma a CEO da CENTOGENE.
Essa mudança tem
sido especialmente relevante em casos considerados complexos ou sem causa
aparente, nos quais os exames convencionais não conseguem explicar a
dificuldade reprodutiva.
Vale lembrar ainda
que o papel da genética na reprodução humana não se limita à investigação da
infertilidade. O conhecimento genético também pode contribuir para o
planejamento familiar, a avaliação de riscos hereditários e a adoção de
estratégias reprodutivas mais informadas.
Atualmente, testes
genéticos são capazes de identificar variantes associadas a doenças
hereditárias que podem ser transmitidas aos filhos, mesmo quando os pais não
apresentam sintomas. Esse conhecimento permite que casais recebam
aconselhamento especializado e discutam diferentes possibilidades reprodutivas.
"Cada vez
mais, a genética deixa de ser uma ferramenta utilizada apenas para confirmar
diagnósticos e passa a fazer parte de uma estratégia mais ampla de cuidado. O
acesso a informações genéticas permite que pacientes e médicos tomem decisões
mais conscientes, tanto em relação aos tratamentos quanto ao planejamento
familiar", afirma Riboldi.
O avanço das
tecnologias e sua integração à medicina reprodutiva refletem uma mudança
importante na forma como a infertilidade é compreendida. Mais do que
identificar uma causa específica, a genética vem ajudando a transformar
incertezas em conhecimento e a construir uma abordagem cada vez mais
personalizada para quem busca realizar o desejo de ter filhos.
"Talvez o
maior avanço não seja apenas descobrir uma alteração genética, mas compreender
melhor a biologia de cada paciente. Quanto mais informações temos sobre os
fatores envolvidos na infertilidade, maiores são as possibilidades de oferecer
um cuidado individualizado e baseado em evidências", conclui.
CENTOGENE
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