O aumento da
longevidade expõe uma falha silenciosa na prevenção odontológica e amplia
riscos que afetam alimentação, autonomia e saúde geral dos idosos
O envelhecimento da população brasileira avança em
ritmo acelerado, mas o cuidado preventivo com a saúde bucal ainda não acompanha
essa transformação. Dados do IBGE mostram que o número de pessoas com 60 anos
ou mais passou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024, crescimento
de 53,3%. Ao mesmo tempo, aumenta o desafio de garantir que essa população
envelheça com autonomia, capacidade funcional e qualidade de vida.
Para a cirurgiã-dentista Dra. Cristiane Vasconcellos,
mestre em Clínica Odontológica Integrada e diretora da Odontolar, clínica
especializada no atendimento a idosos, pessoas com deficiência e pacientes com
mobilidade reduzida, um dos principais problemas é que muitos idosos ainda
procuram atendimento apenas quando a situação já compromete funções básicas do
dia a dia. Segundo ela, a saúde bucal continua sendo tratada como uma questão
secundária, apesar da sua relação direta com alimentação, comunicação,
autoestima e saúde geral.
“O paciente frequentemente chega ao consultório ou
ao atendimento domiciliar em um estágio avançado de doença. Encontramos
infecções, perdas dentárias extensas, próteses inadequadas e dificuldades
importantes de mastigação. Grande parte desses quadros poderiam ser evitados
com um acompanhamento preventivo ao longo da vida”, afirma.
A mudança demográfica deve ampliar ainda mais esse
desafio nos próximos anos. As projeções do IBGE indicam que a proporção de
idosos, que era de 15,6% da população em 2023, poderá atingir 37,8% até 2070. A
expectativa de vida também continua aumentando. Hoje, um brasileiro que alcança
os 60 anos pode esperar viver, em média, mais 22,6 anos.
Os impactos da perda dentária
na saúde e na qualidade de vida
Os impactos da negligência odontológica vão além da
perda de dentes. Dores crônicas, inflamações gengivais, infecções, dificuldades
para mastigar e alterações na fala podem reduzir a independência do idoso e
contribuir para o isolamento social.
Segundo a odontologista, muitos pacientes passam a
restringir a alimentação por não conseguirem mastigar adequadamente os
alimentos, o que pode comprometer a ingestão de nutrientes importantes.
“É comum observarmos idosos substituindo frutas,
carnes e alimentos fibrosos por opções pastosas e, muitas vezes, menos
nutritivas. Isso interfere diretamente no estado nutricional e pode agravar
situações de fragilidade já existentes”, explica.
Ela destaca que a saúde bucal e a nutrição também
influencia no controle de doenças crônicas frequentemente presentes nessa faixa
etária, como diabetes, doenças cardiovasculares e condições neurológicas.
“A boca não funciona separadamente do restante do
organismo. Processos inflamatórios persistentes podem impactar a saúde
sistêmica e dificultar o manejo de outras doenças. Por isso, o acompanhamento
odontológico deve fazer parte do cuidado integral ao idoso.”
O desafio dos pacientes
dependentes
A situação se torna ainda mais delicada entre
idosos acamados, pessoas com deficiência e pacientes com mobilidade reduzida.
Nesses casos, limitações físicas, cognitivas ou neurológicas costumam
dificultar a realização da higiene bucal diária e o acesso ao atendimento
odontológico tradicional.
Na visão da Dra. Cristiane, essa é uma
das principais lacunas da assistência atualmente.
“Muitas famílias concentram esforços em consultas
médicas, fisioterapia, enfermagem e medicações, o que é compreensível. Mas a
saúde bucal acaba ficando em segundo plano. Quando isso acontece, aumentam os
riscos de infecções, dor, dificuldade alimentar e perda da qualidade de vida.”
Ela observa que a expansão dos serviços de home
care e da atenção domiciliar tem contribuído para ampliar o acesso, mas ainda
existe uma demanda crescente por profissionais capacitados para atender uma
população cada vez mais envelhecida e dependente.
Prevenção custa menos do que
tratar complicações
Além dos impactos individuais, a ausência de
cuidados preventivos também gera reflexos para famílias e para o sistema de saúde.
Tratamentos complexos, reabilitações extensas e intervenções hospitalares
costumam exigir mais recursos financeiros e assistenciais do que ações
preventivas realizadas de forma contínua.
“Prevenção significa diagnosticar precocemente,
orientar pacientes e cuidadores e acompanhar mudanças que surgem naturalmente
com o envelhecimento. Quanto mais cedo os problemas são identificados, maiores
são as chances de preservar função, conforto e autonomia”, afirma.
Para a especialista, o avanço da longevidade exige
uma mudança de percepção sobre o papel da odontologia. A discussão, segundo
ela, não deve se limitar à estética ou à preservação dos dentes, mas à
capacidade de manter qualidade de vida durante todo o processo de
envelhecimento.
“Estamos vivendo mais. A questão agora é garantir
que as pessoas envelheçam com dignidade, consigam se alimentar bem, se
comunicar, conviver socialmente e manter independência pelo maior tempo
possível. A saúde bucal faz parte dessa equação.”
Cristiane Vasconcellos - cirurgiã-dentista, mestre em Clínica Odontológica Integrada e diretora clínica da Odontolar, em Vitória (ES). Atua há mais de duas décadas no atendimento odontológico voltado à idosos, pessoas com deficiência e pacientes com mobilidade reduzida, com foco em atendimentos hospitalares, em instituições geriátricas e atendimento domiciliares. Ao longo da carreira, consolidou sua atuação no Espírito Santo levando estrutura clínica e tecnologia até a casa de pacientes que não conseguem se deslocar até os consultórios odontológicos. Especialista em Geriatria e Gerontologia, Odontogeriatria, Odontologia Hospitalar, Laserterapia, Prótese Dentária e Saúde Coletiva, dedica sua prática à integração entre saúde bucal, qualidade de vida e cuidado humanizado nesse tipo de pacientes.
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Fontes utilizadas:
IBGE – Agência de Notícias (população idosa passou de 22,3 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024)
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45343-ibge-mostra-que-um-a-cada-quatro-idosos-trabalhava-em-2024
Agência Gov / IBGE – Projeções da População (15,6% da população em 2023 e 37,8% em 2070)
https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202408/populacao-do-pais-vai-parar-de-crescer-em-2041
IBGE – Tábuas Completas de Mortalidade (expectativa de vida aos 60 anos)
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45275-expectativa-de-vida-chega-a-76-6-anos-em-2024
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