Dados do Atlas Global e pesquisas recentes acendem alerta
para o esgotamento mental e a ansiedade constante causados pela rotina de
tratamento da doença no país.
O Dia Nacional do Diabetes, celebrado em 26
de junho, chama atenção para um problema que cresce de forma preocupante no
Brasil. Informações do Atlas Global do Diabetes 2025, da International Diabetes
Federation (IDF), mostram que o país já tem 16,6 milhões de adultos
diagnosticados com a doença, ocupando a sexta posição no ranking mundial.
Além dos dados de prevalência, os impactos do
diabetes vão muito além das complicações físicas mais conhecidas, que também
afetam de forma significativa a saúde emocional e a qualidade de vida dos
pacientes. Uma pesquisa realizada pelo Global Wellness Institute (GWI)
evidenciou os efeitos psicológicos e sociais do tratamento diário da glicose.
Segundo o levantamento, sete em cada dez brasileiros com diabetes relatam
impactos importantes em seu bem-estar emocional. Entre os entrevistados, 78%
afirmaram sentir ansiedade ou preocupação constante em relação ao futuro,
enquanto cerca de 40% convivem com sentimentos frequentes de solidão ou
isolamento social decorrentes das exigências do tratamento.
A coordenadora de Psicologia da Afya Sete
Lagoas, Dra. Sabrina Magalhães Teixeira, comenta que esse estado de vigilância
permanente está relacionado à ativação de um sistema do organismo chamado eixo
HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal), responsável por manter o corpo em alerta por
meio da liberação de hormônios como cortisol e adrenalina. Como consequência, a
pessoa pode permanecer em um estado de ansiedade constante.
“Essa condição gera impactos
neuropsicológicos, especialmente nas chamadas funções executivas, que envolvem
planejamento, flexibilidade cognitiva, controle dos impulsos e regulação
emocional. Isso pode criar um círculo vicioso, pois, quando essas funções são
prejudicadas, a pessoa pode enfrentar dificuldades que aumentam sua ansiedade.
Essa ansiedade, por sua vez, retroalimenta os prejuízos cognitivos e mantém o
problema”.
Os desafios da condição também se refletem na
rotina. Mais da metade dos participantes (55%) relatou não acordar descansado
devido às variações dos níveis de glicose durante a noite. Além disso, as
demandas do controle da doença limitam atividades cotidianas, 56% alegam ter
sua liberdade para passar longos períodos fora de casa reduzida, e 46% indicam
dificuldades para enfrentar situações comuns que exigem permanência prolongada
em um mesmo local.
Dra. Sabrina Teixeira explica que existe um
fenômeno de esgotamento emocional relacionado ao diabetes, conhecido como
sofrimento emocional associado à doença. Essa condição está diretamente ligada
às exigências constantes do tratamento e pode levar a sentimentos de
sobrecarga, à sensação de não conseguir lidar com a condição, ao medo de
complicações futuras e até à insatisfação com o apoio recebido de familiares,
amigos ou da equipe de saúde.
“Também é comum que a pessoa passe a
acreditar que sua vida social será limitada ou que não conseguirá manter a
rotina como antes.Algumas pesquisas apontam que esse sofrimento afeta entre 18%
e 45% dos pacientes e pode se manifestar por meio de fadiga, desmotivação,
irritabilidade e negligência com o autocuidado. Nesse contexto, o suporte
psicológico é fundamental, pois o estresse tem sido cada vez mais associado
tanto ao desenvolvimento do diabetes tipo 2 quanto à evolução da doença. Além
dos impactos biológicos, ele afeta aspectos psicológicos e sociais que podem
contribuir para o esgotamento emocional e dificultar a adesão ao tratamento”,
complementa a especialista.
Diabetes
no Brasil e principais sinais no corpo
O avanço também aparece nos números do
Ministério da Saúde. Segundo a pesquisa Vigitel 2025, divulgada neste ano, a
proporção de brasileiros adultos com diabetes aumentou 135% entre 2006 e 2024,
passando de 5,5% para 12,9% da população. Esse crescimento está ligado ao
aumento de fatores de risco importantes. No mesmo período, a obesidade avançou
118%, o excesso de peso cresceu 47% e os casos de hipertensão arterial subiram
31%.
A professora da pós-graduação em
Endocrinologia da Afya Educação Médica Montes Claros, Dra Sayra Lacerda,
informa que o aumento dos casos de diabetes no Brasil é multifatorial,
destacando que entre os principais fatores estão o crescimento da obesidade e
do excesso de peso, especialmente com o acúmulo de gordura abdominal, que favorece
a resistência à insulina.
“Também contribuem o sedentarismo, a maior
ingestão de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas, o envelhecimento
da população, a privação de sono, o estresse crônico e condições como
hipertensão, colesterol alto, histórico familiar, diabetes gestacional prévio e
síndrome dos ovários policísticos. Além disso, o diabetes tipo 2 costuma se
desenvolver de forma silenciosa ao longo dos anos. Por isso, parte do aumento
dos casos diagnosticados também pode ser explicada pela ampliação do acesso aos
exames e pela identificação de pessoas que conviviam com a doença sem saber”.
A médica destaca que os sintomas clássicos do diabetes incluem sede excessiva, aumento da vontade de urinar, fome exagerada, perda de peso sem explicação, cansaço importante e visão embaçada. Podem ocorrer também infecções de repetição, candidíase, feridas de difícil cicatrização e formigamento ou dormência nos pés e nas mãos.
“Quando não é bem controlado, o diabetes pode afetar diversos órgãos e causar complicações como infarto, AVC, doença renal diabética, retinopatia, neuropatia diabética, pé diabético e amputações. Por isso, o acompanhamento regular é fundamental, com atenção ao controle da glicose, da pressão arterial, do colesterol, do peso e à adoção de hábitos saudáveis, sempre de forma individualizada”, conclui a docente.

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