Estudos recentes associam impactos
repetitivos na cabeça a alterações cerebrais detectáveis até em jogadores
amadores e reforçam preocupação com Alzheimer, Parkinson e concussões
silenciosas
Com a Copa do Mundo, cresce o número de pessoas que voltam aos campos, quadras e escolinhas de futebol. O aumento da prática esportiva, especialmente entre crianças e adolescentes, também reacende um debate que vem ganhando força na neurologia esportiva: os efeitos dos cabeceios repetitivos no cérebro.
Nos últimos anos, estudos internacionais passaram a apontar que impactos repetidos na cabeça, mesmo sem sintomas evidentes de concussão, podem provocar alterações biológicas associadas ao aumento do risco de doenças neurodegenerativas, detectáveis em exames de sangue, ressonância magnética e monitoramento do sistema nervoso.
Uma pesquisa publicada este mês pelo Jama Neurology, realizada com mais
de 300 jogadores amadores, mostrou aumento temporário de biomarcadores ligados
a dano neural após partidas com cabeceios frequentes. Os cientistas
identificaram ainda uma relação dose-resposta: quanto maior o número e a
intensidade dos cabeceios, maiores as alterações observadas.
Outra meta-análise publicada em maio na revista Nature reuniu estudos de ressonância magnética cerebral em jogadores de futebol e encontrou alterações microestruturais na substância branca do cérebro associadas aos impactos repetitivos da bola na cabeça. Os pesquisadores destacaram que exames de ressonância magnética de difusão se mostraram especialmente sensíveis para detectar alterações subclínicas relacionadas aos cabeceios.
Segundo o neurocirurgião Maurício Giraldi, do Centro Edson Bueno, braço de educação, pesquisa e inovação do Grupo Amil, os dados reforçam a necessidade de atenção para os impactos repetidos na cabeça, mesmo os considerados leves, como cabeceios frequentes no futebol, podem causar pequenas alterações no cérebro. O alerta não se restringe aos atletas de elite. Estudos recentes identificaram alterações semelhantes também em jogadores amadores.
“O futebol continua sendo um grande aliado da saúde física, emocional e social. A ideia é jogar com mais informação e segurança e a preocupação está mais relacionada à repetição dos impactos ao longo do tempo do que a um episódio isolado”, afirma Giraldi.
O neurologista Christian Naturath, do Hospital Pan-Americano-RJ, da Rede Total Care, destaca que os chamados impactos subconcussivos têm sido foco crescente das pesquisas.
“Ao contrário de uma concussão clássica, os impactos subconcussivos são silenciosos e microscópicos. Cada cabeceio gera uma onda de desaceleração que afeta as células cerebrais. A longo prazo, a repetição desses microtraumas acumulados pode causar processos inflamatórios e degenerativos persistentes”, afirma.
Segundo ele, estudos internacionais já apontam maior risco de doenças neurodegenerativas em ex-jogadores profissionais expostos repetidamente a impactos na cabeça ao longo da carreira.
“Esses traumas podem causar Doença de Alzheimer, Doença do Neurônio Motor, Doença de Parkinson e Encefalopatia Crônica Traumática. Estudos indicam que ex-jogadores profissionais de elite enfrentam um risco significativamente maior, cerca de 1,5 a 3,5 vezes superior, de desenvolver doenças neurodegenerativas e demências, incluindo Parkinson e Alzheimer, em comparação com a população em geral”, alerta.
Além das alterações estruturais, pesquisadores também vêm investigando efeitos mais sutis ligados ao funcionamento do organismo. Um estudo recente da Nature sobre concussão esportiva identificou alterações persistentes na atividade autonômica e no sono de atletas mesmo após a liberação para retorno ao esporte.
“O cérebro pode continuar se recuperando mesmo depois que a pessoa diz que está bem. Isso sugere que a recuperação pode ser mais lenta do que imaginávamos e reforça a importância de respeitar o tempo adequado antes do retorno ao esporte”, explica Giraldi.
Entre as principais recomendações estão limitar cabeceios em jogos recreativos e categorias infantis, fortalecer a musculatura cervical, utilizar bolas adequadas para cada faixa etária e respeitar protocolos médicos após impactos na cabeça.
Segundo os especialistas, sintomas como tontura, confusão mental, dor de cabeça persistente, enjoo e alterações visuais após choques na cabeça devem ser considerados sinais de alerta.
Rede Total Care
Centro Edson Bueno
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